Correio de Carajás

Sem placa, salão cresce em Marabá graças à força do “boca a boca”

Da maleta de porta em porta ao império da beleza: as estratégias de Cris para triplicar o número de clientes durante a pandemia

A cabeleireira Cristiane conquistou sua clientela com o ativo mais valioso de qualquer empreendedor: a indicação ‘boca a boca’/Fotos: Evangelista Rocha
Por: Ana Mangas

Houve um tempo em que as ferramentas de trabalho de Cristiane Araújo, atualmente com 46 anos, cabiam inteiras em uma bolsa tiracolo. O endereço de atendimento mudava de acordo com a cliente; afinal de contas, ele era ditado pelo ritmo das indicações que iam surgindo em busca do serviço em domicílio da cabeleireira.

Hoje, quem passa por uma das ruas estreitas da Folha 21, na Nova Marabá, nem imagina que por detrás do muro existe um sofisticado e acolhedor salão de beleza. A ausência da placa não é esquecimento, é um modelo de negócio sustentado e conquistado pelo ativo mais valioso de qualquer empreendedor: a indicação “boca a boca”.

Com 21 anos de profissão, Cristiane está à frente do Cris Hair, um refúgio que transcendeu a estética para se tornar um espaço de conexões humanas, como ela afirma. O CORREIO foi até o empreendimento para entender o sucesso do salão e conhecer a história do trabalho da cabeleireira.

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O primeiro endereço fixo de Cristiane foi a sala de sua casa. Há cinco anos ela possui um sofisticado e acolhedor salão de beleza na Folha 21

“Fui para Goiânia para estudar e lá me identifiquei com a área. Fiz um curso básico de cabeleireira. Nessa época, decidi voltar para Marabá e comecei a trabalhar como CLT. No trabalho, as pessoas perguntavam com quem eu fazia meu cabelo, e eu falava: ‘eu mesma faço meu cabelo’, e as pessoas começavam: ‘nossa, teu cabelo é muito bonito, você não quer fazer o meu um dia?’. Foi aí que marquei um sábado. Fui à casa da moça, o cabelo dela era muito volumoso, crespo, e fiz uma excelente escova, e ela gostou. ‘Sábado você vem fazer o meu e o da minha filha?’, falei: ‘vou’.

Foi quando começou o Cris Hair. Ela abriu um leque de oportunidades para mim, me deu toda a sua família para cuidar e foi só estendendo. No outro final de semana foram ela, a filha, duas amigas e uma funcionária. Aí outro dia foram a irmã, a mãe, e fui me estendendo, até chegar a um nível em que eu não conseguia mais atender em domicílio”, relembra.

A maleta de porta em porta começou a pesar. O deslocamento físico e o improviso dos ambientes domésticos passaram a cobrar o seu preço em dores e limitações físicas.

Da sala de casa ao suporte do Sebrae

O primeiro endereço fixo surgiu. Foi na própria sala de recepção de sua casa. “Foi muito improvisado, mas muito bonitinho”, relembra Cris, descrevendo o local com um espelho, uma cadeira, um balcão adaptado e um lavatório. O aumento da cartela de clientes cresceu drasticamente.

Foi nesse período que a formalização bateu à porta. Com o auxílio da irmã, Cris descobriu o Microempreendedor Individual (MEI) através do Google e encontrou no Sebrae o porto seguro para acalmar seus medos.

 

“O empreendedorismo amplia a nossa visão de pessoa e de profissional. Tive muitos medos e tenho até hoje. Mas o Sebrae me deu todo o suporte e fomos ajustando algumas coisas. Vi muitos amigos, com empresas grandes, fechando suas portas, e me sinto muito vitoriosa porque, ao longo de mais de 20 anos, sou constante, porque o meu trabalho é personalizado. Não quero multidão, quero qualidade de trabalho”, explica a cabeleireira.

Anos depois, em 2018, incomodada com a limitação do espaço residencial, Cris decidiu erguer a sede própria do Cris Hair. Projetos aprovados, licenças da prefeitura liberadas e obras iniciadas. Então, o mundo parou diante da pandemia da Covid-19, em 2020.

“Fiquei desesperada, achando que todo mundo ia morrer e que eu não ia conseguir concluir. Eu vinha para cá e orava pelas paredes. Dizia: ‘estou vendo aqui uma parede ripada, os espelhos, os vidros, a iluminação’. Eu começava a falar e a agradecer”, relata.

Enquanto o comércio ainda estava de portas fechadas, Cris recorreu novamente ao Sebrae para readequar o atendimento e recebeu um conselho: adotar protocolos rígidos para continuar trabalhando. E assim fez: uma cliente por turno, exclusividade absoluta e isolamento seguro. O resultado desafiou as estatísticas econômicas da época: sem recorrer a empréstimos bancários e investindo apenas o fruto do próprio suor, ela viu seu faturamento triplicar durante a crise sanitária. Aproveitou o isolamento para se qualificar em dezenas de cursos on-line. Foram um ano e três meses de resiliência até a conclusão do espaço Cris Hair.

 

O divã da beleza

Quem senta-se em uma das cadeiras do Cris Hair busca mais do que retoques de cor, cortes simétricos ou uma escova bem-feita. Sai de lá com afeto, amizade e aconchego.

Para a advogada Marta Trindade, que conheceu o trabalho de Cris pelas redes sociais durante a pandemia, o relacionamento com a cabeleireira é terapêutico. Ela conta que o primeiro atendimento, feito sob o uso de máscaras e rigoroso distanciamento, foi o início de uma relação de amizade.

“A Cris nos direciona na forma correta de cuidar do cabelo, mas ela é uma grande conselheira. Às vezes chego sobrecarregada do trabalho e saio aliviada. Já teve momentos em que marquei um procedimento de ozônio só para deitar; ela apagou a luz, colocou um puff para minhas pernas e dormi. Venho para cá como terapia”, confessa Marta.

A advogada Marta Trindade afirma que vai ao salão como forma de terapia, pois encontrou em Cris uma grande conselheira

Assim como a advogada, a empreendedora Andreia Dama, cliente há cinco anos do Cris Hair, endossa o sentimento de acolhimento familiar. Após se encantar pelo atendimento humanizado e personalizado, Andreia levou praticamente toda a família para o salão.

“A gente se sente em casa. Ela passa muita confiança e dá muitos conselhos. Ela não é só uma cabeleireira, ela realmente é uma amiga, tanto para uma futura cliente quanto para quem já é de casa”, afirma.

Ela não é só uma cabeleireira, mas também uma amiga”, diz a cliente Andreia

Hoje, o salão atrai diversas clientes, inclusive de outras cidades, que vêm de outros estados e agendam o horário antes mesmo de desembarcarem no Pará.

Por fim, a cabeleireira Cristiane Araújo olha para o futuro com a mesma fé que sustentou suas primeiras orações no canteiro de obras do início e afirma que prefere manter a essência do atendimento que cura de fora para dentro.

“A gratidão move o mundo e abre portas que a ingratidão nunca vai abrir. Você viu que aqui não tem placa? É porque aqui é um salão boca a boca. Tem rede social, tem o celular, tem as mídias para divulgar o meu trabalho. Mas, para mim, a propaganda mais satisfatória é o boca a boca. É saber que tenho um ambiente aconchegante, que pessoas chegam aqui e falam: ‘era meu sonho estar aqui. Eu me programei para estar aqui’. Assim, posso contribuir para que essa pessoa se sinta bonita, para que a alma dela saia leve. As pessoas estão tão sufocadas de problemas aí fora, que querem encontrar um lugar de refúgio e não só de beleza externa. Quero deixar um legado, nem que seja em uma, duas pessoas”, finaliza.