Correio de Carajás

Sem paredes e sem frescura, restaurantes ao ar livre conquistam Marabá

Seja debaixo da mangueira, no cantinho de uma praça ou colado ao muro do aeroporto, eles oferecem gastronomia com sabor de comida caseira

Pessoas em um evento ao ar livre com food truck e mesas sob árvores.
Sem parede e sem frescura dos clientes, restaurantes ao ar livre se popularizam em vias públicas em Marabá
Por: Kauã Fhillipe e Ulisses Pompeu
✏️ Atualizado em 19/02/2026 16h22

Em Marabá, onde a fome não espera, há restaurantes que dispensam portas, paredes e ar-condicionado. Debaixo de uma mangueira generosa, no canteiro de uma avenida pulsante ou no coração de uma praça, empreendedores transformam sombra e coragem em negócio próspero.

Do café fumegante da manhã ao almoço servido em prato feito caprichado, saem galinha caipira, buchada, cozidão, assado de panela e bife acebolado com cheiro de comida de casa.

E o que poderia ser improviso virou destino certo: clientes chegam aos montes, elogiam o tempero e o preço, ignoram o calor e a poeira, e provam, todos os dias, que em Marabá restaurante bom não precisa de paredes: precisa de sustança, acolhimento e panela no fogo.

Leia mais:

Quem nunca se sentou em uma cadeira de plástico, no meio da avenida, com o vento batendo no rosto, cercado por todo o movimento da cidade, e depois afirmou que teve ali uma das melhores experiências gastronômicas da vida?

Em diversos pontos de Marabá, esses espaços se apresentam em trailers, barracas ou carrinhos, garantindo café da manhã, almoço e janta para milhares de marabaenses todos os dias. E, claro, o Correio de Carajás foi conferir de perto – com direito a uma experiência quase que etnográfica – essa joia da gastronomia local.

Nas ruas ainda recém amanhecidas, o cheiro de café vindo das barracas já anuncia que chegou a hora da primeira refeição do dia. O trânsito começa a se afunilar, lojas levantam as portas, corredores retornam de mais um treino, estudantes se preparam para a aula e as barrigas reclamam. É o momento ideal para uma pausa. Mas não apenas para um lanche rápido: o que muitos procuram é comida feita na hora, com ovos, carne, frango e outros ingredientes que tornam a experiência ainda mais completa.

Um desses pontos é o café da manhã Adoradores do Rei, localizado na VP-7, próximo à praça da Folha 16. A recepção é calorosa. A equipe da reportagem foi bem atendida e pediu uma tapioca com carne desfiada, o clássico pão com ovo e uma xícara grande de café com leite. Tudo é feito ali mesmo, da montagem dos pratos à lavagem das louças, sempre com transparência. À sombra das árvores, o ambiente fica mais fresco, acompanhado de boas conversas. As atendentes, com sorrisos tímidos, preferiram não conceder entrevista, mas entre a simplicidade do espaço, com mesas e cadeiras espalhadas pelo canteiro, fica evidente o cuidado dedicado a cada freguês.

Quem pode falar com mais propriedade sobre o ambiente é o casal Miriam Leila, professora, e Gilberto Alves, servidor público, frequentadores assíduos não só do Adoradores do Rei, mas de outros pontos de café da manhã espalhados pela cidade.

Miriam e Gilberto não abrem mão de um bom café da manhã ao ar livre diariamente

“Eu acho que é mais um atrativo pro dia a dia, porque tomar café ao ar livre, pelo menos pra mim, é melhor do que ficar enclausurado. Você vê os pássaros, vê as pessoas passando. É uma experiência à parte”, relata Gilberto. Para Miriam, os pontos positivos são muitos: acessibilidade, possibilidade de interação e atendimento sempre agradável. “Eu não tenho do que reclamar, super indico a experiência”, completa.

De barriga cheia e algumas histórias na bagagem, a equipe retorna à redação para dar conta das demandas da manhã. Mas o relógio não para. Já é quase meio-dia e o estômago volta a cobrar atenção. A cidade ferve ainda mais, a fumaça das churrasqueiras se espalha, o sol castiga e a fome aperta.

Nesta experiência de sabores, o CORREIO pôde ter uma refeição completa (e barata) nas ruas e canteiros de Marabá

NAYARA E O PUXADINHO NO MURO DO AEROPORTO

O Cantinho do Sabor, no bairro Aeroporto, às margens da BR-230, foi a parada escolhida para o almoço. O movimento intenso já dava o tom do lugar, e a pressa no atendimento se misturava com risadas da equipe que preparava as refeições. Ali, a rotina começa cedo: pela manhã, café; no almoço, pratos bem servidos. E por trás do negócio, há uma história de coragem.

A velha mangueira ao lado do muro do aeroporto virou teto para um restaurante sob rodas de uma antiga Kombi

Nayara de Azevedo trabalhava como recepcionista de hotel quando decidiu pedir demissão e seguir o próprio caminho no empreendedorismo. Assim nasceu o Cantinho do Sabor, onde ela finalmente passou a trabalhar com o que gosta: gente. “Nunca me arrependi. Gosto de atender, gosto de fazer comida e de conquistar cada cliente”, conta. Atualmente, ela passa a maior parte do dia em uma minivan, onde deixa tudo preparado para cozinhar no dia seguinte.

Nayara de Azevedo é uma das pessoas que diariamente oferecem refeições para dezenas de marabaenses / Fotos: Taís Oliveira

Sobre o formato sem paredes, Nayara só vê vantagens. “As pessoas ficam ao ar livre, mais livres, não é abafado”, explica. Segundo ela, o clima é tão agradável que muitos clientes acabam estendendo o intervalo do trabalho. “Às vezes eu tenho que pedir pra liberar a mesa, porque ficam mais de uma hora sentados, conversando”, brinca. Os planos para o futuro incluem a ampliação do negócio, com a aquisição de um veículo que permita atender outros pontos da cidade e oferecer um espaço de trabalho mais amplo.

E a opinião de quem frequenta o Cantinho do Sabor sustenta ainda mais a proposta. A reportagem escolheu uma generosa panelada, acompanhada de arroz e tempero com cheiro-verde e limão (que por sinal estava um espetáculo). No cardápio, ainda há opções como porco frito e cozidão, tudo feito na hora. Antônio Ferreira bate ponto no local diariamente e garante que, além do bom custo-benefício, nada supera comer ao ar livre. “É ventilado, é especial. Você vê tudo, se sente melhor do que num lugar fechado. Aqui o ar-condicionado é natural”, resume.

MARMITEX A 10 REAIS

Mas o bambambã das comidas de rua está numa esquina estratégica da Praça da Bíblia, onde Isaac Gama vende bandecos a R$ 10,00. Isso mesmo. Arroz, feijão, carne, salada, purê e farinha por apenas dez reais. O restaurante dele abre às 9 horas e fecha às 14 horas – de segunda a sábado. Curiosamente, fica localizado em frente à Tertúlia, a principal churrascaria de Marabá, e a pouco metros do Suave, restaurante saudável frequentado por pessoas da classe média e alta da cidade.

Na Praça da Bíblia um achado: marmitex por apenas dez reais

Ele chega com o carro e uma estrutura metálica a reboque, separa tudo em um espaço de 40 metros quadrados, com direito a cinco mesas para clientes que desejam almoçar ali mesmo. E olha que clientela não falta. Há muitos trabalhadores nos arredores, que trabalham em lojas de variados segmentos. Em menos de um mês, conquistou uma freguesia invejável e diz, orgulhoso, que vendo quase mil bandecos por dia.

O cardápio não tem tanta variação, mas o que chama a atenção é o preço baixo, atendimento rápido (ele tem quatro pessoas trabalhando ao seu lado, inclusive a esposa) e também a aparente higiene – porque todos usam touca e o ambiente está sempre limpo.

A seu favor, também devemos colocar que há cinco árvores frondosas que oferecem sombra gratuitamente: duas sumaúmas e três oitizeiros garante um clima ameno, mesmo no sol escandaloso de meio-dia.

Isaac Gama diz que ganha na grande quantidade de marmitex vendidos

VENDER… MAS COM SEGURANÇA

Mas, para que essa experiência funcione bem para todos, há também um olhar atento do poder público. É nesse cenário que entra a atuação da Vigilância Sanitária, responsável por orientar e fiscalizar esses estabelecimentos espalhados pela cidade.

Segundo o diretor da Vigilância Sanitária de Marabá, Janiel Braga, esses pontos são, em sua maioria, microempreendedores e ambulantes que precisam seguir regras básicas para garantir a segurança alimentar. “A atuação da Vigilância é feita em parceria com a Postura. Existe um cadastro e a exigência do curso de manipulador de alimentos, que envolve avaliação documental, carteira de vacinação, consulta médica e treinamento em boas práticas”, explica.

Janiel: “A gente orienta, treina e capacita para atuar conforme a necessidade deles. Não dá para proibir horários, mas reforçamos as boas práticas e os cuidados necessários”

Janiel destaca que o trabalho tem caráter, sobretudo, orientativo. “A primeira abordagem nunca é punitiva. A gente orienta, mostra os caminhos para a legalização e acompanha. A penalidade só acontece quando há resistência em se adequar. Nosso objetivo não é impedir ninguém de trabalhar, mas garantir que todos façam isso de forma segura”, afirma. Somente neste mês, mais de 150 carteiras de manipulador de alimentos foram emitidas, destacando a organização desses espaços, especialmente em períodos de maior movimento, como o Carnaval.

No fim das contas, os restaurantes ao ar livre acabam democratizando o acesso à comida boa, barata e de qualidade. É só chegar, sentar e comer, não importa se é café da manhã, almoço ou jantar. Com o vento no rosto, o movimento da cidade e o cheiro da comida feita na hora, Marabá segue se alimentando dessas experiências que seguem em constante crescimento e que já fazem parte da cultura da nossa cidade.