📅 Publicado em 04/03/2026 09h50
Com a chegada do inverno amazônico e a redução natural da produção do açaí, consumidores de Marabá já começam a sentir no bolso e no paladar os efeitos da chamada entressafra do fruto. Aqui na terra de Francisco Coelho, a bebida tradicional da mesa paraense ficou mais cara, mais rala e, em muitos casos, menos madura, afastando parte da clientela e abrindo espaço para alternativas regionais, como a bacaba.
A entressafra do açaí ocorre geralmente entre janeiro e junho, período em que a produção da palmeira diminui significativamente. Com menor oferta do fruto no mercado, o preço sobe e o produto tende a perder parte da qualidade, principalmente por causa das chuvas constantes, que dificultam a colheita e afetam o amadurecimento dos cachos.
Em Marabá, onde existem mais de 50 pontos de venda de açaí espalhados por bairros e feiras, a mudança já é perceptível. O litro da bebida, que há cerca de 40 dias era vendido em média por R$ 16,00, agora custa aproximadamente R$ 30,00, e ainda mais fino do que o habitual.
Leia mais:Para o tirador de açaí Raimundo Ferreira, que há mais de 20 anos sobe em açaizeiros na em áreas de mata da região, principalmente em fazendas, a época exige mais esforço e traz menos retorno. Eles enfrentam lama, chuva, pés de açaí mais escorregadios e a escassez de cachos maduros na mata. “Na entressafra a gente sobe muito e encontra pouco cacho maduro. Às vezes tem que andar mais dentro do mato ou subir em palmeiras que dão poucos frutos. O saco vem mais vazio e o trabalho é praticamente o mesmo”, relata. “Com menos açaí chegando aos pontos de venda, o preço sobe lá na cidade.”
A dificuldade também chega aos batedores. Em Marabá, muitos estabelecimentos funcionam diariamente triturando o fruto para produzir o tradicional “vinho de açaí”, base da alimentação regional. Segundo o batedor João Batista Silva, que mantém uma pequena máquina no bairro Laranjeiras, a qualidade do fruto nesta época interfere diretamente no produto final.

“Quando o açaí chega mais verde ou molhado por causa da chuva, ele rende menos. A gente bate e ele fica mais ralo. O cliente percebe na hora e reclama, mas não tem muito o que fazer porque é o que está chegando”, explica. “Mesmo assim, a gente tenta manter a tradição.”
Com o aumento do preço e a redução da qualidade, parte dos consumidores acaba diminuindo o consumo ou buscando outras opções. Uma delas é a bacaba, fruto amazônico da mesma família das palmeiras, menos popular que o açaí, mas igualmente nutritivo e rico em fibras.
Embora seja difícil encontrar a bebida em todos os bairros, a bacaba pode ser localizada em alguns pontos específicos da cidade. Nas feiras das Laranjeiras e da 28, por exemplo, vendedores oferecem o litro da bebida por cerca de R$ 15,00 – metade do preço atual do açaí.
“Quem prova, gosta”, garante a feirante Maria das Dores Assunção, que vende bacaba durante este período. “Ela é mais clara e tem um sabor diferente, mas sustenta muito e tem bastante gente que aproveita esse período para variar”, argumenta ela, em defesa do produto do momento.
A expectativa de produtores e comerciantes é que o preço do açaí continue pressionado ao longo dos próximos meses, podendo subir ainda mais enquanto durar a entressafra. A tendência de queda nos valores só deve ocorrer a partir do final de maio, quando a safra começa a se recuperar e a oferta do fruto aumenta novamente nos mercados e portos da região.
