Correio de Carajás

Projeto Quelônios de Marabá solta 3 mil tartarugas e tracajás no Rio Tocantins

A nona soltura comemorativa reuniu público na Ilha do Tucunaré em uma manhã chuvosa de educação ambiental, turismo e celebração da vida no rio

Voluntários ajudaram a conduzir as pequenas tartarugas até as águas do Rio Tocantins / Fotos: Kauã Fhillipe
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 09/03/2026 12h13

Sob o céu cinza da manhã chuvosa deste domingo (8), centenas de pessoas atravessaram o Rio Tocantins até a base do Projeto Quelônios, na Ilha do Tucunaré, em Marabá, para participar de um momento simbólico e cheio de significado: a soltura de filhotes de tartarugas da Amazônia e tracajás nas águas.

A ação, que mistura ciência, educação ambiental e participação popular, transformou o espaço em um encontro entre comunidade e natureza, com atividades lúdicas, palestras de sensibilização e a expectativa de devolver cerca de 3 mil filhotes ao ambiente natural.

Além da soltura, a programação contou com atividades educativas e apresentações voltadas à preservação do rio e das espécies que dependem dele. Para muitos visitantes, especialmente crianças, foi a primeira oportunidade de ter contato direto com os pequenos quelônios e compreender a importância da conservação da vida aquática. Ao mesmo tempo, o evento também se consolida como um atrativo turístico para quem busca experiências de ecoturismo ligadas à realidade amazônica.

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Segundo Cristiane Cunha, uma das coordenadoras do projeto e professora da Universidade Federal do Sul e do Sudeste do Pará (Unifesspa), a iniciativa tem ampliado ao longo dos anos o impacto na preservação das espécies. Ela explica que o trabalho começou há cerca de dez anos e envolve o manejo de ovos e filhotes em diversas bases da região.

“Ao longo desses anos de manejo, nós já soltamos mais de 135 mil tartarugas e mais de 97 mil tracajás no Rio Tocantins”, destaca. Segundo ela, além da base em Marabá, o projeto conta com estruturas de apoio em comunidades de Itupiranga e Nova Ipixuna, responsáveis por ajudar no resgate e cuidado dos ninhos encontrados nas praias ao longo do rio.

Segundo Cristiane, as ações na ilha acontecem durante o ano todo em prol das espécies do rio

Cristiane também explica que existem dois tipos de soltura realizados pelo projeto. “Nós fazemos as solturas técnicas, quando os filhotes são devolvidos exatamente nos locais onde os ovos foram resgatados, e também a soltura comemorativa, que é esse momento de aproximação com o público”, afirma. Para ela, a atividade tem caráter pedagógico e ajuda a despertar consciência ambiental.

“Muitas pessoas nem sabem que existem tartarugas da Amazônia no nosso rio. Quando elas vêm aqui, conhecem e participam, acabam criando esse vínculo. A gente protege aquilo que conhece”, completa.

Voluntários e público presente

Entre os voluntários que ajudam a conduzir as atividades com o público está a monitora Débora Bento, que destaca o papel educativo da experiência. Para ela, o contato direto com o ambiente natural transforma a maneira como as pessoas enxergam o projeto.

Débora é uma das várias voluntárias que ajudaram a conduzir o público nessa soltura comemorativa

“A vivência das pessoas aqui é muito importante. Quando elas participam da soltura e entendem como funciona o projeto, acabam se sentindo parte dele e passam a colaborar com essa causa”.

Débora afirma que não é raro ver visitantes retornando depois como voluntários ou monitores. “Muita gente que vem apenas para conhecer a soltura comemorativa acaba se inscrevendo depois para ajudar, participar das coletas ou acompanhar o processo de incubação. É uma forma de compartilhar conhecimento e fortalecer a consciência ambiental dentro da própria comunidade”, diz.

A bióloga Esther Cristina, que participa frequentemente das solturas, reforça que o trabalho realizado pelo projeto é essencial para manter o equilíbrio ecológico do Rio Tocantins. Segundo ela, ações como essa ajudam a garantir a sobrevivência de espécies importantes para o ecossistema amazônico e também para a cultura das comunidades ribeirinhas.

​Entre os visitantes, a expectativa e a emoção eram visíveis, principalmente entre as crianças. Mari Silvério, dona de casa e que participou do evento ao lado da filha, contou que aguardava a oportunidade desde o ano passado. “O conhecimento é importante desde pequena. Ano passado eu perdi a data, mas esse ano fiquei acompanhando as postagens para não perder.

Mari e Malu aguardaram ansiosas durante o ano inteiro para poder participar do ato

Para ela é importante ter esse contato com as tartaruguinhas e aprender sobre elas”, relata. A filha, Malu, de quatro anos, aguardava ansiosa pelo momento de ver os animais de perto. Segundo a mãe, a menina quase não dormiu na noite anterior, empolgada com a visita.

Quem também demonstrou entusiasmo foi a estudante Hillary Adria, de 11 anos, que exaltou o contato com os filhotes. “Está sendo muito legal porque eu gosto muito de animais”, diz. Para a jovem, a experiência reforça uma mensagem importante.

A reportagem abordou a estudante enquanto ela aprendia lendo um infográfico sobre o manejo de Quelônios

“A gente precisa ajudar os animais que precisam de ajuda. É muito importante cuidar deles”, conclui, ansiosa para logo poder soltar os filhotinhos nas águas do Tocantins.

Parcerias

Outro ponto fundamental para a continuidade das atividades é o apoio institucional. Diversos órgãos e instituições colaboram com o projeto, entre eles o Conselho Municipal de Meio Ambiente, a Unifesspa, a Fundação Zoobotânica de Marabá, Ministério Público, Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (IDEFLOR-Bio), secretarias municipais e prefeituras da região.

Representando o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a analista ambiental Ana Carolina participou da programação para fortalecer a parceria. “A gente veio hoje para prestar apoio ao projeto e estreitar ainda mais essa relação. O Ibama tem iniciativas semelhantes em outras regiões e queremos contribuir com uma ação tão importante para a preservação aqui”, afirma.

Ela ressalta que espécies como a tartaruga da Amazônia e o tracajá ainda enfrentam ameaças, principalmente pela caça e pela pressão sobre os ambientes naturais. “São espécies que precisam de proteção. Preservar essas populações é fundamental, não só para a região, mas para a Amazônia como um todo”, acrescenta.

A professora Maria Antônia Araújo, representante da Secretaria Municipal de Educação no Conselho Municipal de Meio Ambiente e uma das pessoas envolvidas na construção do projeto – que tem o professor José Pedro de Azevedo como coordenador-geral – também esteve presente no evento apresentando uma atividade educativa baseada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A professora que lançou a ideia do projeto aproveitou para oferecer uma atividade lúdica

“Hoje o projeto já é conhecido pela população e cada soltura reforça a importância de manter essas espécies vivas no rio”, explica. Segundo ela, o trabalho de educação ambiental é essencial para garantir que as futuras gerações compreendam a importância da preservação.

Para tornar o aprendizado mais acessível, a professora levou um jogo interativo que relaciona o projeto aos objetivos da Agenda 2030. “Sem educação a gente não faz nada. A preservação do rio, o cuidado com o lixo e a proteção desses animais estão todos conectados”, destaca.

Ao final da programação de boas vindas, o momento mais aguardado chegou: a soltura dos filhotes. Crianças e adultos se aproximaram da margem do rio, muitos segurando delicadamente as pequenas tartarugas e tracajás nas mãos antes de liberá-los na água.

Em meio aos olhares curiosos e celulares apontados para registrar a cena, os animais começaram a andar em direção ao Tocantins, desaparecendo aos poucos na correnteza. A cada filhote que alcançava o rio, exclamações tomavam conta do público, com encanto e esperança de que aqueles pequenos viajantes aquáticos consigam, um dia, retornar às praias da região para continuar o ciclo da vida.

Os filhotes, que são armazenados em grandes caixas d’águas durante o crescimento, estavam sendo preparados pela equipe para a soltura