Correio de Carajás

Projeto nascido em Marabá ganha reconhecimento internacional

COP30 transparece a importância de comunidade e escola Martinho Motta está comprometida com arte-educação para a sociedade local

Escola Martinho Motta se tornou primeira de Marabá a advogar um Projeto de Lei de Ecocídio municipal

O arte-educador Dan Baron participou do Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza e no Tribunal dos Povos Contra Eco Genocídio. Segundo ele, ambos valorizaram histórias pessoais e rituais diversos como saberes, moderados com cuidado. Mas o que chamou atenção foram testemunhas que integraram as artes como evidência eco social ancestral e contemporânea.

A diretoria da Aliança Global de Direitos da Natureza (GARN) iniciou o painel Sentir-Pensar a Natureza: Caminhos de Bem-Viver e Dignidade Planetária com uma oficina correalizada por Naiara Tukano e Dan Baron. Este último coordenou uma roda de 60 lideranças que trocaram histórias de raiz em dupla e dissolveram séculos de silêncio pós-genocídio e escravização numa Dança da Terra.

Leitura da ‘Carta do Futuro Ancestral’ por Kaylla, Thainá e, em inglês, pela professora Amanda Foro

Numa oficina de formação para coordenadores regionais do Pontão de Cultura Viva, a mesma metodologia foi adaptada para criar uma roda de imaginar projetos eco-comunitários. Em ambas, tempo apertado tenso foi transformado em tempo de ócio, participativo e calmo.

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“Durante a pandemia, refletimos sobre essa metodologia como cada jovem descobriu sua voz e transformou cada desafio íntimo em microprojeto coletivo. Nas primeiras rodas virtuais do Ecocídio ao Bem Viver, dirigentes dos movimentos sociais, de governos municipais e estaduais, e de redes mundiais escutaram os relatos dos jovens do Coletivo AfroRaiz sobre sua formação contínua dos 12 anos”, relata Manoela Souza, cofundadora do Instituto Transformance.

“Todos ficaram fascinadas pelo Coletivo contando como se transformaram na rua e na praça de crianças caladas e excluídas em artistas internacionais, produtoras, gestoras e coordenadoras de microprojetos comunitários, tudo motivado na defesa dos Rios Tocantins e Itacaiunas, do Pedral do Lourenção e de uma Amazônia Bem Viver”, analisa Manoela.

Artistas da África, Ásia, América Latina e Europa na roda que participaram entre 2010-2019, no Cabelo Seco, como artistas em residência e relataram como voltaram a seus países e criaram seu próprio Rios de Encontro, segundo relata Dan Baron.

Oficina de Diálogo Intercultural abre a Roda ‘Sentir-Pensar a Natureza’ (Cúpula do Povo)

“Desde 2022, me especializei em terapias integrativas, corporais e aquáticas para me dedicar a uma nova fase de cuidado das necessidades reveladas ao longo de 12 anos de convivência no Cabelo Seco. Paralelamente, o Dan acompanhou cada artista do Coletivo AfroRaiz na realização de seus primeiros projetos autônomos de dança, percussão ou música de raiz, convidados por pedagogas nas escolas, universidades, comunidades e movimentos locais.”

Dan Baron revela que um convite se destacou por intermédio de Cristina Arcanjo, diretora da Escola Martinho Motta, a fim de sensibilizar seus adolescentes e docência sobre a arte-educação comunitária sendo realizada na margem do Rio Tocantins. “Foi a primeira vez que uma diretora da rede pública quis realizar um projeto político eco-pedagógico, bem na transição à educação em tempo integral”, celebra ele.

Das vivências com os professores surgiu o 1º Seminário ‘Viver o Bem Viver na Escola Martinho Motta, o qual inspirou convites à escola para participar na Sessão Especial do Bem Viver na ALEPA, em 2024, na 1ª Conferência Conclima da Cãmara dos Vereadores em Marabá, em um Seminário Nacionais de Saberes Tradicionais do Ministério da Cultura e em um Festival Cultural Infância e Natureza, do MEC.

O projeto estava respondendo a uma pergunta focalizada no final de 2024 pela presença de Alanes Yanca, arte-educadora do Rios de Encontro, que ajudou Dan Baron a coordenar oficinas de formação em Eco-Pedagogia através das Artes para 36 gestores de 11 ministérios e programas nacionais, realizadas com a Secretaria Nacional de Participação Social na Secretária Geral da Presidência. “É possível transformar uma instituição educacional em um projeto cultural comunitário?”

Manoela Souza valoriza a relação entre águas no ambiente interno e externo, ameaçada pela derrocagem do Lourenção

Dan Baron afirmar que os envolvidos nos projetos estão confiantes e que a metodologia evoluída durante 12 anos de parceria com a comunidade Cabelo Seco está pronta para ser lançada como uma tecnologia social no dia 1º de Maio, no 25º aniversário do Instituto Transformance. “Estamos co-idealizando um curso de formação junto com a Escola Martinho Motta e uma vivência na Câmara dos Vereadores para popularizar a relação entre eco-pedagogia a partir das artes, direitos da natureza e terapias integrativas, e demonstrar como adaptar a tecnologia social a qualquer contexto socioambiental para transformar escolas urbanas em viveiros bem viver, comunitários e sustentáveis”, anuncia Dan.

Carta do Futuro Ancestral

(manifesto poético)

 Junho de 2075

 

A vocês, habitantes do passado

escrevo das florestas que voltaram a crescer

dos rios que voltaram a cantar

do tempo que voltou a ter ritmo de semente.

 

Hoje, o Bem Viver é a nossa lei.

A terra não é propriedade

é parente…

O tempo não é lucro, é ciclo.

O futuro deixou de ser progresso cego

e se tornou retorno ao essencial.

 

Não foi fácil.

 

Vocês enfrentaram o colapso

fumaça, o concreto, o silêncio.

Mas lembraram de ouvir os velhos

de olhar pro céu

de pisar com respeito.

 

Aprenderam a escutar a floresta

a cidade desacelerou

e o espírito das águas foi ouvido.

 

Hoje, a justiça climática não é discurso: é prática.

O ecocídio foi nomeado crime

e a natureza ganhou cidadania.

E tudo começou quando vocês pararam.

E ouviram.

O futuro é ancestral.

Uma criança do amanhã.

 

Poema coletivo

Escola Martinho Motta, Marabá