📅 Publicado em 31/08/2026 09h47
Se a expansão do mercado tornou os procedimentos estéticos mais acessíveis, a psicóloga e psicanalista Maria Cristina Lima Rocha chama atenção para outro aspecto desse fenômeno: a relação entre a busca pela aparência ideal e a saúde mental. Com três anos de atuação clínica com adultos e casais, ela afirma que a procura por mudanças estéticas não é um comportamento recente, mas que a facilidade de acesso aos procedimentos e a exposição constante nas redes sociais deram novas dimensões a uma questão que já existia.
Na avaliação da psicóloga, o problema não está necessariamente em querer mudar alguma característica do próprio corpo. A preocupação surge quando o procedimento passa a ser utilizado como uma tentativa de resolver inseguranças, carências ou sofrimentos que não têm origem na aparência. Nesses casos, a satisfação tende a ser passageira e pode alimentar uma busca contínua por novas intervenções.
“A questão é: qual é a minha motivação? É um desejo próprio ou é mais uma tentativa de atender às expectativas externas? Quando começa a haver um sofrimento intenso, isolamento social, vergonha do próprio corpo e comparação constante, aí já sai do campo do autocuidado para virar uma obsessão estética”, observa.
Leia mais:
As redes sociais, segundo Maria Cristina, intensificam esse processo ao colocar o indivíduo em contato permanente com padrões de beleza que muitas vezes não correspondem à realidade. Filtros, edições e imagens produzidas criam referências difíceis de alcançar e estimulam comparações que podem agravar uma insatisfação já existente. Para a profissional, porém, a pressão externa não é necessariamente a origem do sofrimento, mas pode funcionar como um potencializador de questões psicológicas anteriores.
Esse impacto pode ser ainda maior entre os mais jovens, que, segundo a psicóloga, ainda estão em processo de formação da própria identidade e tendem a ser mais suscetíveis à necessidade de aceitação. A influência aparece também na reprodução de tendências, quando procedimentos passam a ser incorporados ao comportamento de um grupo simplesmente porque outras pessoas da mesma faixa etária estão fazendo.
A mudança no perfil do público também alcança os homens, que passaram a procurar mais os serviços estéticos. Para Maria Cristina, a participação masculina não representa necessariamente uma nova pressão criada pelo mercado, mas a possibilidade de que sentimentos relacionados à aparência, rejeição e aceitação, antes menos expressos pelos homens, estejam sendo manifestados de forma mais aberta.
“A pressão estética só potencializa e evidencia sofrimentos que já existem. A gente precisa se conhecer, dar voz às nossas dores e não simplesmente calar, tentando suprir essa dor de alguma forma”, afirma Maria Cristina
Por isso, a psicóloga defende que a relação saudável com a aparência passa pelo autoconhecimento e pela compreensão das próprias motivações. Para ela, cuidar do corpo e realizar procedimentos não é, por si só, um problema; o sinal de alerta aparece quando a autoestima passa a depender exclusivamente da imagem e a insatisfação começa a interferir na vida social e emocional. Nesse ponto, buscar acompanhamento psicológico pode ajudar a identificar as inseguranças e dores que estão por trás da necessidade constante de mudar a própria aparência.
