📅 Publicado em 29/01/2026 16h22✏️ Atualizado em 29/01/2026 16h33
“Marabá realmente está deixando de ser ela mesma”. Essa oração parafraseia uma crônica publicada neste portal em maio de 2025 na qual era apresentada a então situação dos rios de Marabá: a ausência de enchentes na cidade. No texto, o jornalista Ulisses Pompeu constrói uma dualidade que ainda é atual. Para muitos, a calmaria das águas representa alívio por não precisar enfrentar os transtornos históricos causados pelas cheias; para outros, soa como uma realidade paralela – especialmente para quem depende da força do rio para sobreviver, como pescadores, ribeirinhos e comerciantes.
Mas o que teria acontecido para que os rios Itacaiunas e Tocantins, símbolos máximos do município, tenham deixado de ser “eles mesmos”? Será que São Pedro esqueceu de Marabá ou estamos diante de um fenômeno passageiro? O Correio de Carajás foi em busca de respostas.
Entre dezembro e maio, a Região Norte costuma ser castigada ou abençoada – fica a critério do leitor decidir – por chuvas intensas e um friozinho característico, no chamado inverno amazônico que só quem vive aqui conhece. Historicamente, Marabá acumula grandes registros de enchentes, a maior delas ocorreu no ano de 1980, quando o Rio Tocantins atingiu impressionantes 17 metros. Já em janeiro de 2022, os principais jornais do país noticiaram a inundação que alcançou 12 metros, a maior da década.
Leia mais:De lá para cá, a métrica fluvial passou a dar sinais de “estabilização”. Em abril de 2023, o Tocantins chegou à casa dos 10 metros, obrigando parte da população a buscar abrigo, enquanto outros resistiram em suas casas. Em 2024, as chuvas de fevereiro castigaram fortemente a cidade e, ao final daquele mês, a régua fluviométrica marcava 9,12 metros acima do nível normal, levando a Defesa Civil a decretar estado de alerta. Lembrando que, a partir dos 10 metros, a situação já é considerada de emergência.
No mesmo período de 2025, os rios que banham a Capital do Cobre apresentaram elevação mais acentuada. O Tocantins chegou a 6,47 metros e, em março, alcançou 10,2 metros. Já agora, em janeiro de 2026, mais precisamente no dia 26, a régua marcava apenas 4,70 metros. Uma queda brusca quando comparada aos anos anteriores. É curioso imaginar que, na mesma cidade onde moradores lamentavam a água invadindo as casas, hoje a Praia do Tucunaré está bastante descoberta em pleno inverno amazônico. As chuvas ainda ocorrem, mas não mais aquelas torrenciais que duravam dias a fio.

Segundo o diretor da Defesa Civil de Marabá, Marcos Norat, a redução do nível dos rios está diretamente relacionada ao fenômeno La Niña, que se manifesta em 2026 de forma mais curta. Ele explica que, apesar das chuvas serem mais intensas do que no ano passado, elas têm sido rápidas e de curta duração, o que impede uma elevação significativa do nível das águas.
“Isso não está elevando o nível do rio acima do que estava no ano passado. A previsão é que esse fenômeno acabe até março, o que traz menos preocupação, e a expectativa era de que a La Niña entrasse com mais força no inverno amazônico e causasse enchente, mas foi um fenômeno mais rápido e tranquilo”, afirma.
Norat ressalta ainda que, mesmo com o cenário atual de tranquilidade, o sistema de Defesa Civil está em alerta permanente. Um plano de contingência para 2026 foi elaborado ainda em setembro do ano passado, com base em previsões meteorológicas que indicavam a possibilidade de uma enchente maior do que a registrada em 2025. “Hoje estamos abaixo de cinco metros, com 4,70 no Tocantins, e o Itacaiúnas chegou a ficar ainda mais baixo. Está tudo controlado. Ainda não acionamos o sistema porque a meteorologia tem contribuído, mas todos os órgãos estão prontos para atuar, caso seja necessário”, destaca.
O monitoramento é feito diariamente por meio de órgãos como a Agência Nacional de Águas (ANA), o SipamHidro e também pelas réguas fluviométricas aferidas pelo Exército na Seção Fluvial do 52º BIS.
Ainda assim, a orientação é de cautela. A Defesa Civil segue emitindo alertas preventivos, sobretudo neste período chuvoso, recomendando que a população evite áreas alagadas, retire veículos de locais de risco, mantenha crianças afastadas de canais e adote cuidados durante tempestades, como se proteger contra raios e desligar aparelhos eletrônicos da tomada.

A baixa dos rios, por outro lado, já começa a impactar as atividades ambientais e culturais da cidade. Um exemplo disso é o adiamento do IX Ato Ecocultural de Soltura dos Filhotes de Quelônios no Rio Tocantins, previsto inicialmente para o dia 25 de janeiro. De acordo com a organização, o nível da água ainda não oferece segurança para a atividade, que será remarcada assim que houver elevação suficiente do rio.
As mudanças climáticas têm deixado os rios cada vez mais imprevisíveis, um sinal claro de que, entre alívios e preocupações, o município segue aprendendo a conviver com um novo comportamento das águas.
