Correio de Carajás

Pós-Carnaval responsável: quando procurar testagem e atendimento médico

O cuidado com a saúde sexual ganha destaque depois da folia, mas especialistas reforçam: não existe exame capaz de identificar todas as ISTs imediatamente após a exposição

Tubos de ensaio e swab para coleta de amostras em fundo azul.
O cuidado com a saúde sexual ganha destaque depois da folia e é preciso consultar profissionais especialistas
✏️ Atualizado em 23/02/2026 13h17

O Carnaval é uma grande manifestação cultural, com raízes históricas, que ao longo do tempo se tornou também um momento de celebração e festas, muitas delas com conotação sexual. Depois desse período, muitas pessoas passam a refletir sobre os cuidados com a saúde sexual e procuram serviços de testagem. Essa atitude é positiva, mas ainda enfrenta um desafio importante: nem todo exame realizado imediatamente após uma exposição de risco consegue detectar uma infecção.

O infectologista Harbi Othman, professor da Afya Marabá, destaca a importância dessa atitude. “A preocupação faz com que ocorra a busca pelas informações e, como em tudo na vida, a informação é essencial”, afirma. Entretanto, o médico alerta para a ‘janela imunológica’, período em que o organismo ainda não produziu marcadores suficientes para que os testes identifiquem a presença de um agente infeccioso. “Compreender esse intervalo é essencial para evitar resultados falsamente negativos e garantir diagnósticos confiáveis”, esclarece o especialista.

A janela imunológica corresponde ao intervalo entre o contato com o agente infeccioso e o momento em que ele se torna detectável pelos testes. Nesse período, o resultado pode ser negativo sem que isso signifique ausência de infecção. Esse tipo de falso negativo pode gerar sensação equivocada de segurança, atrasar o diagnóstico e até favorecer a transmissão involuntária para outras pessoas. Por isso, entender o tempo certo para cada exame é fundamental.

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No caso do HIV, os testes rápidos são mais confiáveis após cerca de 30 dias, enquanto exames laboratoriais de 4ª geração podem detectar entre 15 e 20 dias, sendo que a confirmação definitiva pode levar até 90 dias. A sífilis geralmente se torna detectável após três a seis semanas, embora sintomas devam ser investigados imediatamente. Já as hepatites B e C exigem atenção especial, já que a janela varia e pode ser necessário repetir o exame entre 30 e 90 dias.

Gonorreia e clamídia costumam ser identificadas mais cedo, entre sete e 14 dias, enquanto o HPV não é diagnosticado logo após a exposição, dependendo de avaliação clínica ou exames preventivos, como o Papanicolau. “Testes rápidos e exames laboratoriais têm papéis complementares: os primeiros ampliam o acesso e funcionam bem como triagem, mas podem apresentar limitações nas fases iniciais da infecção; já os laboratoriais conseguem detectar algumas infecções mais precocemente. Ainda assim, nenhum deles é capaz de identificar todas as ISTs imediatamente após a exposição”, orienta Dr. Othman.

A repetição da testagem, o especialista complementa, é indicada quando o exame inicial foi feito muito cedo, quando houve exposição significativa, presença de sintomas ou novas situações de risco após o primeiro resultado negativo. Repetir não é excesso de cuidado, mas sim uma forma de garantir que o diagnóstico seja feito no tempo correto.

Mesmo antes do período ideal de testagem, é fundamental procurar um serviço de saúde diante de sintomas como feridas genitais, corrimento, dor ao urinar, coceira intensa, febre ou ínguas. Situações como relação sem preservativo com parceiro de status desconhecido ou casos de violência sexual também exigem atenção imediata. Nessas circunstâncias, podem ser indicadas medidas como a profilaxia pós-exposição (PEP) ao HIV, que deve ser iniciada em até 72 horas, vacinação contra hepatite B ou tratamento precoce de infecções bacterianas.

Dr. Harbi Othman também ressalta a importância dos diferentes tipos de testes disponíveis, como os de sangue, salivares e os rápidos, que oferecem resultados em cerca de 15 minutos e têm indicações específicas para cada momento, desde o rastreio em pessoas sem sintomas até a avaliação diagnóstica em casos sintomáticos.

Para ele, o pós-Carnaval deve ser encarado como um momento estratégico de cuidado. “Espero que todos tenham aproveitado o carnaval da forma mais alegre possível. Quem gosta de curtição, que tenha curtido. Quem aproveitou para descansar, que tenha conseguido. Agora, é hora de voltar com tudo! E quem sabe, procurar seu médico e fazer um rastreio de ISTs, lembrando que muitas vezes elas são silenciosas, onde você só descobre, diagnostica e trata se fizer a testagem, antes de ter um problema mais sério e acabar descobrindo da pior forma.”