Correio de Carajás

Por que o aumento da temperatura dos oceanos vem preocupando alguns cientistas

Do início de março até a última semana do mês, a temperatura média global da superfície do mar saltou quase dois décimos de grau Celsius (0,2ºC), um aumento considerável.

Banhistas na praia de Agua Dulce, em Lima, no Peru. — Foto: AP Photo/Rodrigo Abd, File

Os oceanos do mundo todo ficaram repentinamente muito mais quentes nas últimas semanas de abril. Desde então, cientistas vêm tentando descobrir o que isso significa de fato e se teremos um aumento no aquecimento da temperatura do planeta.

📈 Contexto: Do início de março até a última semana do mês, a temperatura média global da superfície do mar saltou quase dois décimos de grau Celsius (0,2ºC), de acordo com o Climate Reanalyzer da Universidade do Maine, uma plataforma de dados climáticos e meteorológicos bastante utilizada por pesquisadores da área.

Isso pode parecer pouco, mas para a média dos oceanos do mundo – que ocupa 71% da área da Terra – aumentar tanto assim em tão pouco tempo “é algo enorme”, explica o cientista climático Kris Karnauskas, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.

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🌡 Mas como chegamos nesse aumento? Alguns pesquisadores acham que esse salto nas temperaturas dos oceanos está relacionado aos seguintes fatores:

  • um desenvolvimento do ‘El Niño’ este ano que muito provavelmente levará este a um novo pico do aquecimento global e aumentará as possibilidades de recordes de temperatura em todo o mundo;
  • o fato de que o La Niña também está chegando ao fim e, como consequência disso, os oceanos vêm recuperação três anos de resfriamento causado pelo fenômeno, que naturalmente resfria a temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico.
  • e, além de tudo isso, temos o impacto do constante aquecimento global provocado pelo homem, que está aquecendo as águas mais profundas dos nossos mares.

 

O que é o El Niño e qual o seu impacto nisso?

 

🌊 Antes de tudo, é preciso entendermos que o El Niño é causado por uma desaceleração dos ventos alísios, que sopram na direção oeste perto do Equador. Na falta de algo que transporte o calor na direção do Índico, as águas do Pacífico ficam cozinhando ao Sol, sem se moverem muito, e acabam mais quentes.

Com isso, as regiões Norte e Nordeste aqui no Brasil, por exemplo, tendem a ficar menos chuvosas durante a ocorrência do El Niño, enquanto as chuvas ficam mais frequentes no Sul.

Outra característica do fenômeno no país é deixar as temperaturas mais quentes no inverno no Sudeste e na segunda metade do ano no Centro-Oeste.

E a Organização Meteorológica Mundial (OMM) calcula que há 60% de possibilidades de que El Niño se desenvolva até o final de julho.

Por isso, alguns cientistas climáticos descartam as preocupações em torno desse repentino aumento e afirmam que isso é resultado de um crescente El Niño que vem acompanhado de um constante aumento do aquecimento causado pelo homem.

➡️ Um fator importante para essa tese é que esse aquecimento dos oceanos foi visto especialmente na costa do Peru e do Equador, onde antes da década de 1980 a maioria dos El Niños começou.

Por outro lado, outros pesquisadores dizem que isso não parece ser apenas uma consequência do El Niño. Isso porque estão ocorrendo várias ondas de calor marinhas ou pontos de aquecimento oceânico que não se enquadram no padrão do fenômeno, como os do norte do Pacífico, perto do Alasca e da costa da Espanha.

“Este é um padrão incomum. Este é um evento extremo em escala global em áreas que não se encaixam apenas como influenciadas pelo El Niño”, disse Gabe Vecchi, cientista climático da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.

 

“Esse é um sinal enorme. Acho que vai exigir um esforço nosso para entendê-lo de fato”.

Onde mais aqueceu

 

Karnauskas também analisou algumas anomalias globais da temperatura da superfície do mar para tentar entender quais foram as áreas responsáveis por grande parte do pico da temperatura global.

Com isso, ele encontrou um longo trecho do equador da América do Sul à África, que incluiu os oceanos Pacífico e Índico.

Essa área aqueceu quatro décimos de grau Celsius em cerca de 10 a 14 dias, o que é altamente incomum, afirma o pesquisador.

Para Karnauskas, parte dessa área é claramente um El Niño em formação, uma tese que os cientistas podem confirmar nos próximos meses à medida que o fenômeno ganhar força. Mas a área no Oceano Índico é diferente e pode ser um aumento independente do fenômeno.

E o que podemos esperar agora

 

Além desse aquecimento, o mundo teve um resfriamento incomum na superfície devido ao La Niña por três anos, um fenômeno que atuou como uma verdadeira tampa de uma panela. Mas agora essa tampa está desligada.

Sem o ‘La Niña’, o nível de aquecimento teria sido pior. “Foi como um freio temporário ao aumento da temperatura mundial”, afirmou Petteri Taalas, secretário-geral da OMM

Mas o impacto do El Niño nas temperaturas normalmente é percebido no ano seguinte ao fenômeno meteorológico. Por isso, a OMM teme que os efeitos sejam observados provavelmente em 2024.

Aliado a isso, o problema é que agora o controle temporário do La Niña sobre o aumento das temperaturas globais não existe mais. “Um resultado disso é que março de 2023 foi o segundo março mais alto já registrado para as temperaturas médias globais da superfície do planeta”, disse o oceanógrafo da NOAA, Mike McPhaden, em um e-mail.

E se o El Nino fizer sua aparição fortemente prevista ainda este ano, “o que estamos vendo agora é apenas um prelúdio para mais recordes que estão a caminho”, escreveu McPhaden.

(Fonte:G1)