Correio de Carajás

Por que Noé von Atzingen foi embora de Marabá?

Ainda jovem, quando chegou a Marabá, Noé ficou fascinado com as belezas que encontrou na região
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Uma das figuras que mais contribuíram com o resgate e preservação da história e cultura de Marabá, Noé Carlos Barbosa von Atzingen arrumou as trouxas e foi embora da cidade. E isso aconteceu há quatro anos. As pessoas mais próximas imaginavam que seria algo passageiro, mas o tempo mostra que parece ser definitivo. Desfez-se dos bens que tinha na cidade e #partiu: rumo ignorado. Deixou todo o legado que construiu para trás. A pergunta: “por que Noé foi embora” precisa ser feita, mesmo que uma única resposta não seja suficiente para explicar a decisão do homem que era apaixonado por Marabá.

Seu paradeiro é incerto. Alguns dizem que foi embora para a Alemanha (terra de seus ancestrais), outros que voltou para São Paulo (onde nasceu), e um terceiro grupo crê que Noé viva em uma região remota da Serra das Andorinhas (seu lugar preferido na região), sem sinal de celular, sustentando-se da aposentadoria que conquistou merecidamente após mais de 35 anos de trabalho árduo em prol de resgate da história, memória e fortalecimento da cultura de Marabá e região.

A casa simples que o biólogo construiu em uma reserva ambiental em Mururumu, onde morou a maior parte de sua vida

A história do desaparecimento de Noé relembra o caso recente do cantor Belchior, que abandonou a carreira e foi viver no Uruguai, longe do holofote da mídia e até mesmo de parentes e amigos. E por falar em amigos, Marabá está cheio de amigos do biólogo, que aqui ganhou título de Cidadão Marabaense, Cidadão Paraense e muitas outras homenagens por seu trabalho prestimoso

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Noé von Atzingen nasceu em Rio Claro, interior de São Paulo, em 11 de setembro de 1950. Estudou Biologia na maior instituição superior do País, a USP (Universidade de São Paulo) e quando surgiu a oportunidade do Projeto Rondon, do governo federal, veio como acadêmico em 1975, já que a USP instalara aqui um Campus em 1968. Aqui, pesquisou vetores da doença de Chagas na região.

O biólogo participou de várias expedições e enfrentou as agruras da floresta ao lado de vários companheiros

Gostou muito da cidadezinha amazônica. Quando voltou para São Paulo, para finalizar o curso, foi escolhido como representante do seu curso para arregimentar estudantes que quisessem vir para Marabá. Depois que se formou, um ano depois, Noé foi convidado para coordenar o campus de Marabá. Ele estava começando o mestrado e resolveu largar tudo e vim embora, porque já tinha sido preso em algumas ocasiões pela Ditadura Militar. “É claro, eu vim pra cá, principalmente, porque eu gostei muito de Marabá, certamente, mas o motivo secundário foi sair do foco desses problemas da ditadura militar”, confessou ele em certa ocasião.

Ficou cerca de sete anos no Projeto Rondon e, depois, já ambientado na cidade, reuniu um grupo de colegas e amigos locais para começar as raízes da Casa da Cultura, que anos depois foi transformada em fundação.

As pesquisas em cavernas notabilizaram Noé e sua equipe do antigo GEM

O biólogo testemunho as grandes transformações do município, primeiro com o cenário de terra arrasada deixado pela enchente de 1980, depois com a explosão do garimpo de Serra Pelada, implantação da Hidrelétrica de Tucuruí, Projeto Grande Carajás, desmatamento vertiginoso das florestas e surgimento de mais de 100 serrarias na microrregião de Marabá.

Junto com um grupo de amigos, criou a Associação Marabaense de Proteção à Natureza (AMBM), que se desmobilizou pouco mais de um ano depois porque Noé nunca quis envolver-se em política partidária. Os dissidentes ligados a ele criaram o Grupo Ecológico de Marabá (GEMA), no início da década de 1980 para enfrentar a degradação ambiental pela qual a região estava passando.

Na década de 1990, combateu as queimadas por meio do GEMA

Em 2004, ele lançou seu “Vocabulário Regional de Marabá”, um livro com palavras e expressões típicas da região, que ele coletou por cerca de 30 anos de convivência com os locais.

E A PERGUNTA?

Bem, embora Noé von Atzingen fosse ou seja um apaixonado por Marabá e sua trajetória, por outro lado sua história pessoal foi marcada por alguns episódios que o deixaram bastante abalado. Respondia (e ainda responde a quatro processos na Justiça), sendo três relacionados à gestão da Fundação Casa da Cultura, como processo licitatório, prestação de contas e uma ação de improbidade administrativa, coisas que podem acontecer com qualquer gestor.

O quarto é o mais emblemático. Trata-se de uma ação penal por estupro de vulnerável, que tramitava contra ele na 2ª Vara Cível e Empresarial de Marabá. Ela alega que no dia 26 de abril de 2015 Noé teria praticado ato libidinoso diverso da conjunção carnal contra um menor de apenas 12 anos de idade.

O caso, na época, se tornou público e Noé foi parar na delegacia para prestar depoimento. A Justiça demorou dois anos para julgar o caso, depois de ouvir várias testemunhas. Em 15 de maio de 2017 o juiz Marcelo Andrei Simão Santos prolatou a sentença que condenou Noé von Atzingen a oito anos de reclusão e deveria cumprir a pena em regime semi-aberto. Todavia, o magistrado considerou que o réu compareceu a todas as audiências e permitiu que ele recorresse da sentença em liberdade.

Uma apelação foi impetrada junto ao Tribunal de Justiça do Estado e, depois dessa condenação, Noé deixou a cidade. Mas não que tenha fugido. Apenas afastou-se, deixando a presidência da Fundação Casa da Cultura. Ele vendeu até mesmo sua apaixonante Reserva Ambiental de Murumuru, que havia restaurado durante 30 anos.

Os amigos lamentaram o episódio. Marabá perdeu, vamos dizer, seu maior pesquisador de todos os tempos. O homem que influenciou a cultura do município e fez seus filhos terem orgulho de sua história.

Mesmo essa mancha em sua história pessoal não apaga o legado que Noé von Atizgen nos presenteou. Junto com ele, é preciso destacar outra baluarte da preservação da história de Marabá, chamada Virgínia Mattos, que também participou do projeto Rondon, escreveu um dos mais confiáveis livros sobre a história do município e hoje vive em Goiânia, sempre atenta a tudo que se passa por aqui.

A Casa da Cultura tem as digitais do biólogo

Muitas pessoas, ao longo de quase quatro décadas, ajudaram a criar a estrutura que a Fundação Casa da Cultura tem hoje, com um acervo invejável. Mas o mentor de tudo foi Noé von Atzingen, que juntamente com a turma do GEMA começou a coletar obras de arte de Pedro Morbach, fotografias antigas e outros objetos e começou a expor em feiras escolares e advertir as autoridades que Marabá não tinha um espaço para guardar sua história e memória.

Como presidente da FCCM, ele colocou a cultura regional em um nível mais elevado

As pessoas começaram a fazer doações de objetos, mas também de alimentos para que os pesquisadores pudessem participar do Projeto Jacundá, que envolvia viagem para preservação da memória da antiga Jacundá, que seria inundada com a Hidrelétrica de Tucuruí.

Foi assim que, em 1984, o prefeito Bosco Jadão, diante do pedido popular, criou a Casa da Cultura de Marabá, que inicialmente funcionava nos altos da Escola José Mendonça Vergolino. Posteriormente, ele conseguiu a doação, por meio da Vale, da sede da mineradora na Folha 31, que era de madeira.

Na década de 2000, Noé conseguiu a construção de prédios para abrigar os diversos departamentos da Fundação Casa da Cultura, que se fortaleceu, principalmente, pelas pesquisas de espeleologia e arqueologia. (Ulisses Pompeu)

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