Correio de Carajás

Por que eleições podem afetar amizades e relações? Psicanalista explica

Psiquiatra relaciona conflitos políticos à identidade, à intolerância às diferenças e à dificuldade de lidar com opiniões contrárias

Foto: Ilustração Magnific

Amizades construídas ao longo de anos podem ser abaladas por divergências políticas, especialmente durante períodos eleitorais. Discussões sobre candidatos e propostas de governo podem dar lugar a ressentimentos, afastamentos e rompimentos. Para a psiquiatra e psicanalista Anette Blaya, da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi), esse tipo de conflito pode ser explicado, em parte, pela relação entre as convicções políticas e a identidade de cada indivíduo.

Na avaliação da especialista, quando uma posição política passa a ocupar um lugar central na forma como uma pessoa compreende a si mesma e o mundo, discordar dela pode ser interpretado como uma contestação pessoal, e não apenas como uma diferença de opinião.

Anette explica que esse processo também envolve as expectativas construídas nas relações. Ao longo da convivência, as pessoas formam imagens umas das outras, associadas às experiências compartilhadas e às características que admiram. Quando um amigo defende ideias consideradas inaceitáveis, essa percepção pode entrar em conflito com a imagem que se tinha dele.

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“Nossas relações são atravessadas por expectativas e idealizações. Não nos relacionamos apenas com o outro tal como ele é, mas também com a representação que construímos dele. Quando essa imagem é contrariada, podemos experimentar decepção, raiva e até sentimentos de traição”, afirma a psicanalista.

Para Anette, é nesse contexto que uma divergência eleitoral pode ganhar proporções maiores do que o debate sobre propostas ou candidatos. A especialista avalia que, em alguns casos, a eleição não cria o conflito entre amigos, mas torna visíveis diferenças que já existiam e ainda não haviam sido confrontadas.

Por que tentamos convencer quem pensa diferente

A necessidade de convencer o outro é outro comportamento que Anette associa à intensificação das discussões políticas. Durante as campanhas eleitorais, argumentos e tentativas de demonstrar que determinada posição está correta se multiplicam. Na análise da psicanalista, porém, essa insistência nem sempre corresponde a uma disposição genuína para o diálogo.

Segundo ela, a tentativa de mudar a opinião de alguém pode representar também uma busca pela confirmação das próprias certezas. Quando uma pessoa próxima discorda de uma convicção considerada fundamental, a divergência pode abalar a segurança de quem esperava compartilhar com ela os mesmos valores.

Anette relaciona esse mecanismo à chamada ferida narcísica, conceito que, nesse contexto, se refere ao abalo provocado quando as próprias expectativas ou crenças são contrariadas. A reação à discordância, portanto, nem sempre estaria limitada ao conteúdo da discussão, mas poderia envolver a maneira como a pessoa lida com a frustração.

A psicanalista também aponta essa dinâmica como uma das possíveis raízes do fanatismo. Para ela, a adesão incondicional a uma ideia, a um líder ou a uma causa pode funcionar como uma defesa diante de sentimentos de insegurança e desamparo.

“A adesão incondicional a uma ideia, a um líder ou a uma causa pode funcionar como uma defesa contra sentimentos de insegurança e desamparo”, explica.

Na interpretação de Anette, a certeza absoluta oferece uma sensação de segurança ao afastar dúvidas e ambiguidades. Com isso, questões complexas podem passar a ser interpretadas de maneira simplificada, em uma divisão rígida entre quem está certo e quem está errado, ou entre aliados e adversários.

Como o fanatismo pode alimentar a hostilidade

A dificuldade de admitir outras perspectivas é uma das características que Anette atribui ao fanatismo. A especialista ressalta que ter convicções políticas firmes não significa, necessariamente, adotar uma postura fanática. O problema, em sua análise, está na rigidez que impede a pessoa de lidar com questionamentos, contradições ou com a existência de interpretações diferentes.

A agressividade nas discussões também é abordada pela psicanalista. Anette avalia que frustrações e ressentimentos, incluindo sentimentos de impotência, humilhação e fracasso, podem contribuir para reações hostis que encontram nas disputas políticas uma forma de expressão.

Nessas situações, segundo a especialista, a divergência deixa de se concentrar nas ideias defendidas e passa a atingir quem as expressa. O interlocutor pode ser tratado como inimigo, e não como alguém que simplesmente apresenta uma visão de mundo diferente.

Para explicar como esse comportamento pode se intensificar em contextos de polarização, Anette recorre às reflexões de Sigmund Freud sobre a psicologia das massas, especialmente ao papel das identificações coletivas. A psicanalista destaca que o sentimento de pertencimento a um grupo pode oferecer segurança, mas também favorecer a hostilidade contra quem é percebido como adversário.

Essa dinâmica, na avaliação da especialista, ajuda a compreender por que a preferência eleitoral pode se sobrepor a outros aspectos de uma relação. A história compartilhada, a generosidade e a presença em momentos difíceis podem perder espaço diante de uma divergência que passa a ser tratada como definidora da identidade do outro.

Quando vale a pena se afastar

Embora Anette destaque a importância de tolerar diferenças, a psicanalista não considera que preservar uma amizade signifique aceitar qualquer comportamento. Há situações em que divergências revelam incompatibilidades profundas de valores, assim como episódios de humilhação, desrespeito ou agressividade podem justificar o afastamento.

A especialista considera importante distinguir essas circunstâncias de uma reação impulsiva provocada pela descoberta de que alguém querido pensa de maneira diferente. Na avaliação dela, conviver não significa abandonar as próprias convicções nem exigir concordância em todos os assuntos.

Anette também aponta as redes sociais como um fator que pode dificultar o diálogo. Na análise da psicanalista, a rapidez das interações e a tendência a respostas imediatas podem reduzir o espaço para a reflexão, favorecer julgamentos categóricos e dificultar a escuta, sobretudo em discussões políticas polarizadas.

Para a especialista, reconhecer que o outro tem uma história, desejos e valores próprios é parte do amadurecimento emocional. Essa capacidade permite compreender que pessoas importantes podem não corresponder integralmente às expectativas construídas sobre elas.

A psicanalista defende que sustentar as próprias convicções não precisa significar invalidar quem pensa de maneira diferente. Na avaliação de Anette, a maturidade emocional não elimina os conflitos, mas está relacionada à capacidade de enfrentá-los sem transformar toda divergência em uma ameaça pessoal ou em motivo para destruir um vínculo.

(Fonte:CNN Brasil)