Na mesma semana em que a Oi teve sua falência decretada pela Justiça, o Grupo Gennius, dono das redes Habib’s e Ragazzo, entou em recuperação judicial, com um passivo de R$ 265 milhões. É mais uma empresa na fila das que recorreram à Justiça para pedir proteção contra execuções movidas por credores, num esforço para reestruturar o negócio.
Agora, está ao lado de Casas Bahia, Toky (Mobly e Tok&Stok), Lojas Marabraz, CVLB (Casa&Video e Le Biscuit), Americanas e tantas outras. A crise experimentada por essas empresas tem ao menos dois pontos em comum, segundo especialistas. Um é o salto no valor da dívida e a dificuldade de acesso a crédito devido ao patamar elevado da taxa de juros por um período longo. O outro é o recuo no consumo das famílias brasileiras.
Cada uma, no entanto, tem uma trajetória própria e que resultou no pedido de recuperação judicial. Em 2025, foram apresentados 977 processos à Justiça, um recorde na série histórica. Nos quatro primeiros meses deste ano, segundo os dados mais recentes divulgados pela Serasa Experian, foram 268, envolvendo 602 CNPJs.
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No varejo, o gargalo de crédito tem um efeito de bola de neve na operação. Se há dificuldade de caixa, fornecedores suspendem o fornecimento de mercadorias. Sem estoque, as vendas caem e, com elas, os ganhos da empresa.
Veja os casos de algumas dessas empresas:
Gennius (Habib’s e Ragazzo)
O grupo pediu recuperação judicial na última segunda-feira, 14 de agosto, em demanda já acolhida, informou em nota. Da petição inicial consta uma dívida de R$ 265 milhões. O Gennius reconhece, porém, que o total ultrapassa R$ 300 milhões.
Além do impacto da alta da taxa de juros, a empresa de fast-food cita outras razões para as dificuldades financeiras que enfrenta agora. Os problemas tiveram início ainda na pandemia de Covid-19, quando, após investimento em novas lojas, o movimento despencou no período de lockdown e, na sequência, pelo recuo em consumo fora de casa, com a ampla adoção do trabalho remoto e do uso de aplicativos de delilvery.
Casas Bahia
Após divulgar um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre deste ano, 18 vezes maior que a perda de igual período de 2025, a Casas Bahia pediu recuperação judicial somando R$ 17,3 bilhões em dívida. Há outros R$ 11 bilhões não incluídos no processo, devidos principalmente a credores financeiros e a fornecedores de eletrodomésticos. A varejista alega que a taxa básica de juros elevada e o endividamento das famílias agravaram a crise situação do grupo, que vive a pior crise de sua história.
Em 2024, a companhia passou por uma recuperação extrajudicial, quando fechou acordo com credores financeiros para reperfilar R$ 4,1 bilhões em débitos. Em meados do ano passado, fez uma emissão de novas ações para pagar títulos de dívidas que transformaram a Domus, da Mapa Capital, em acionista controladora da empresa, hoje com 82,11% do capital. Neste mês, 300 lojas foram fechadas e três mil funcionários foram demitidos.
A Casas Bahia tem investido na expansão de suas operações digitais, principalmente em marketplaces, tendo fechado parcerias com Mercado Livre, Amazon e Shopee.
Lojas Marabraz
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A varejista paulista Lojas Marabraz, que chegou a contar com 135 pontos de venda no Estado de São Paulo, pediu recuperação judicial sustentando contar com R$ 140 milhões em dívidas, embora não tenha apresentado os dados contábeis que devem constar legalmente na petição. O grupo alegou estar sem acesso a esses dados porque uma fornecedora suspendeu o serviço que mantém o sistema em que essas informações ficam armazenadas.
A crise da Marabraz é resultado de uma disputa societária entre membros da família Fares, que fundou o negócio. A justificativa é que imóveis comerciais e centros de distribuição usados como garantias do grupo para fechar contratos com instituições financeiras estavam em nome de uma sociedade patrimonial da família controladora. Como o controlador da Marabraz, Nasser Fares, deixou essa holding, bancos credores passaram a pedir novas garantias, limitando a oferta de crédito. O site da companhia saiu do ar em 2025 e quase todas as lojas estão fechadas.
Grupo Toky
Dono das marcas Mobly e Tok&Stok pediu recuperação judicial em maio, com uma dívida de R$ 1,1 bilhão a sanar. A união das duas companhias foi feita em novembro de 2024, após uma a Tok&Stok ter passado por uma recuperação extrajudicial. Juntas, somam mais de 60 lojas e de 2 mil empregados.
No fim de semana, o Toky divulgou seus resultados do segundo trimestre deste ano, com uma perda de R$ 232,7 milhões, ante ao prejuízo de R$ 88,9 milhões de um ano antes. As vendas tombaram 32%. No balanço, os administradores explicam que o ajuizamento da recuperação judicial agravou a situação operacional no curto prazo.
“O impacto temporário sobre a confiança de fornecedores e parceiros comerciais levou à interrupção do abastecimento e a severas rupturas de estoque no período. A indisponibilidade de produtos alongou os prazos de entrega, reduziu a captação de novas vendas e elevou de forma relevante o volume de cancelamentos de pedidos, afetando expressivamente a receita operacional líquida reconhecida no trimestre”, consta na apresentação de resultados.
Americanas
Uma das maiores varejistas do país entrou em recuperação judicial em janeiro de 2023, com mais de R$ 42 bilhões em dívidas, dias após virem à tona inconsistências em balanços financeiros da empresa mais tarde confirmados como uma fraude de R$ 25 bilhões. A revelação foi feita por Sérgio Rial, ex-presidente do Santander, ao renunciar ao cargo de CEO da Americanas depois de apenas nove dias na função.
A fraude era praticada de forma sistemática por meio de operações de risco sacado e contratos de verba de propaganda cooperada (VPC). Esses contratos, comuns no varejo, foram usados para inflar o lucro da companhia. A varejista encomendava um volume de produtos do fabricante por um determinado valor. E colocava condições, como exposição privilegiada dos produtos nas lojas, e metas de comercialização. Ao cumprir essas metas, haveria um desconto no valor devido ao fornecedor.
O antigo CEO fugiu do país, diversos executivos são investigados por supostos crimes financeiros. No processo de reestruturação, a companhia recebeu aporte de R$ 12 bilhões de seus sócios de referência — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, fechou centenas de lojas e vem vendendo ativos, como está fazendo agora com a rede Hortifruti Natural da Terra. Em março, a Americanas pediu o encerramento de seu processo de recuperação judicial.
(Fonte: O Globo/Glauce Cavalcanti)
