Correio de Carajás

Pesquisa quer investigar por que sabiá-laranjeira canta no meio da madrugada

Pesquisa do Instituto de Biociências utiliza "ciência cidadã" para investigar como a poluição sonora e luminosa altera o comportamento da ave. Inscrições vão até 31 de julho.

Foto: Reprodução /Wikimedia Commons
✏️ Atualizado em 22/07/2026 09h41

Quem vive na cidade de São Paulo durante a primavera já pode ter vivenciado, mesmo sem perceber, um fenômeno curioso: o canto alto e melodioso do sabiá-laranjeira interrompendo o silêncio no meio da madrugada. O hábito da espécie é o foco central de uma pesquisa do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), apoiada pelo Instituto Serrapilheira.

O projeto busca entender por que essas aves, que normalmente cantam no início da manhã, estão cantando fora do horário esperado na metrópole, e quer a ajuda de alunos de anos finais do ensino fundamental para encontrar a resposta. (Entenda mais abaixo.)

Ana Paula Assis, que é professora do IB-USP e responsável pela pesquisa, explica que a ideia é utilizar a metodologia de ciência cidadã — que ocorre quando pessoas que não são formalmente treinadas no processo científico fazem parte da pesquisa científica — para obter as informações de observação necessárias. Neste caso, os cidadãos participantes serão os próprios estudantes.

Leia mais:

“São Paulo é uma cidade muito grande e seria muito difícil conseguir acesso para colocar gravadores em vários lugares”, diz a pesquisadora. A participação de estudantes também traz outros benefícios, já que, ao envolver as escolas, a pesquisa consegue uma distribuição de dados muito mais ampla.

“Além disso, nós queremos aproximar os estudantes da observação, da natureza, trazendo o deslumbramento com o meio natural. Muitas vezes a criança mora aqui na cidade de São Paulo e nunca parou para observar um pássaro. Esperamos despertar essa curiosidade”, explica.

 

Como surgiu a ideia do projeto

 

A ideia do estudo surgiu de uma observação cotidiana da própria Ana Paula Assis. A pesquisadora percebeu que sempre ouvia o canto da ave após a 1h da manhã, mas ainda ao longo da madrugada, horário diferente do esperado para a espécie.

“Comecei a me perguntar ‘por que essa ave está cantando nesse horário?’, porque o canto de um pássaro serve, em muitos casos, para atrair a fêmea”, explica Ana Paula.

 

A bióloga diz que a maior parte dos pássaros vocaliza na alvorada, no início da manhã, para se comunicar e defender território. No entanto, em São Paulo, o comportamento parece confuso e fora de sincronia com a natureza.

E então, a parceria entre a USP e o Instituto Serrapilheira trouxe a oportunidade de transformar a curiosidade em pesquisa, com base em dados científicos captados com a ajuda de quem vive a cidade.

Janela silenciosa e o impacto do ruído urbano

 

Os pesquisadores trabalham com a hipótese de que a urbanização desenfreada influencia diretamente o comportamento das aves. Estudos internacionais, como um realizado na Alemanha perto de aeroportos, sugerem que pássaros antecipam o canto para evitar o barulho das aeronaves. Em São Paulo, a poluição sonora e a poluição luminosa são os principais suspeitos de “bagunçar” o relógio biológico do sabiá-laranjeira.

Resultados preliminares já mostram uma mudança radical dependendo da localização. Enquanto sabiás em áreas de mata, como o Horto Florestal, começam a cantar por volta das 5h, aves em regiões urbanizadas iniciam a cantoria muito antes. Em pontos próximos à Avenida Paulista, um dos locais mais barulhentos da cidade, houve registros de sabiás cantando a noite inteira, sem interrupções.

“Em locais com muito ruído, o sabiá parece não ter mais uma janela silenciosa para cantar”, afirma Ana Paula Assis.

Segundo a bióloga, a ave acaba precisando competir com o barulho urbano o tempo todo para garantir que sua mensagem chegue aos parceiros. Além do som, as lâmpadas artificiais da cidade também interferem, fazendo com que o pássaro não saiba distinguir se é dia ou noite.

 

Outra observação importante da fase piloto do projeto ocorreu em Paraisópolis, onde os gravadores não registraram o canto de nenhuma espécie. A pesquisadora aponta que a falta de vegetação em áreas socioeconomicamente vulneráveis pode estar criando “vazios” de vida silvestre. Para ela, o fato de não ouvir aves em uma cidade que abriga quase 500 espécies é um sinal de alerta sobre a qualidade do ambiente urbano.

Como as escolas podem participar

 

Para cobrir o máximo da extensão geográfica de São Paulo possível, o projeto utiliza a metodologia de ciência cidadã, focada exclusivamente em escolas com turmas de anos finais do ensino fundamental. A prática abre espaço para uma cobertura muito mais ampla, da Zona Norte até o extremo da Zona Sul.

Neste ano, as escolas interessadas em participar têm até 31 de julho para se inscreverem. O formulário está disponível neste link ou no site do projeto (www.projetosabia.ib.usp.br).

A participação dos alunos é voluntária.

Cada escola participante recebe equipamentos de alta tecnologia, incluindo gravadores programados para registrar sons entre 23h e 6h e sonômetros para medir o nível de ruído em decibéis. Os pesquisadores farão um treinamento com os estudantes para otimizar o uso dos equipamentos.

“É exatamente o mesmo gravador que um professor do Instituto Oceanográfico da USP usa para gravar pinguins na Antártida”, destaca a bióloga.

 

Os alunos são responsáveis por instalar os aparelhos nos locais de sua preferência, preencher folhas de campo com coordenadas geográficas e coletar os dados após uma noite de monitoramento.

Mas, para Ana Paula, o principal objetivo é envolver os alunos no ambiente natural no qual estão inseridos. “O que você não para e não olha, você nem enxerga”, defende ela, que deseja sensibilizar os jovens sobre a riqueza da fauna presente na Mata Atlântica que sustenta a cidade.

Para 2026, segundo ano da parceria com escolas da capital, a meta é ampliar a rede de monitoramento para pelo menos 30 escolas.

(Fonte:G1)