Correio de Carajás

Pará registra quase 800 casos de violência doméstica por mês

Força-tarefa policial acelera investigações e tenta fechar o cerco contra agressores

Mão aberta com um 'X' vermelho desenhado na palma.
Foto: Joédson Alves-Agência Brasil
✏️ Atualizado em 04/07/2026 09h16

O Pará registrou 3.938 casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica entre janeiro e maio de 2026, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup). A média chega a 788 vítimas por mês — ou cerca de 26 mulheres agredidas a cada dia. O cenário se agrava quando comparado ao ano anterior: em 2025, os registros chegaram a 10.055 casos, contra 9.895 em 2024, um crescimento de aproximadamente 1,6%.

Os números voltaram ao centro do debate público nesta semana após a repercussão de um caso em Belém, no qual uma mulher foi agredida por um ex-companheiro, atleta profissional de boxe, na madrugada de quarta-feira (24), em frente a um hospital particular da capital. Segundo a investigação, a vítima segurava o filho do casal — um bebê de cinco meses — quando foi atingida com socos no rosto. Ferida, ela registrou boletim de ocorrência na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) e usou as redes sociais para pedir ajuda na localização do suspeito. Menos de 48 horas depois, o homem foi preso pela Polícia Civil.

Força-tarefa “Juntos por Elas”

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Em resposta ao cenário, a Polícia Civil lançou nesta semana a força-tarefa “Juntos por Elas”, mobilizando diferentes diretorias para acelerar investigações de violência doméstica e familiar em todo o estado. A ação prevê centenas de diligências, cumprimento de intimações, análise de procedimentos em andamento, instauração de novos inquéritos e o encaminhamento de mais de 400 investigações ao Poder Judiciário.

“O combate à violência contra a mulher exige resposta rápida. Cada inquérito concluído representa uma vítima que teve sua voz ouvida e um agressor mais próximo de ser responsabilizado”, afirmou o delegado-geral adjunto Temmer Khayat. A diretora de Atendimento a Grupos Vulneráveis, delegada Emanuela Amorim, acrescentou que a mobilização inclui buscas por pertences das vítimas, apuração de denúncias anônimas e fortalecimento das investigações em curso.

O que impede as denúncias

Para a presidente da Comissão das Mulheres e Advogadas da OAB Pará, Tarita Cajazeira, os casos que ganham visibilidade pública não são exceções. “Eles revelam uma realidade que existe há muito tempo e que muitas vezes não aparece nas estatísticas porque inúmeras mulheres ainda não conseguem denunciar”, afirma.

A advogada explica que o medo não pode ser interpretado como falta de coragem. “Ele é consequência de um sistema que, durante muito tempo, falhou com essas mulheres. Muitas temem represálias, dependem financeiramente do agressor ou permanecem presas por vínculos afetivos e ameaças constantes”, diz Tarita. Segundo ela, a dependência econômica é uma das faces menos visíveis da violência. “Quando a mulher não possui renda própria, sair da relação abusiva passa a representar um risco para a própria sobrevivência. Políticas de autonomia financeira não são assistencialismo. São instrumentos de prevenção”, garante.

Tarita destaca ainda que o primeiro passo para romper o ciclo é reconhecer que a violência existe. “Quando uma mulher identifica que está vivendo uma violência — seja física, psicológica, moral ou econômica — ela começa o processo de libertação. Esse passo nasce da informação. Ela precisa saber que aquilo que está vivendo tem nome, tem lei e tem proteção.”

Rede de proteção

A Segup mantém uma série de instrumentos de proteção: a Delegacia Especializada em Feminicídio, o Alerta Pará Mulher, o aplicativo SOS Maria da Penha, a plataforma SOS Mulher, o programa Pró-Mulher Pará, a Delegacia Virtual e totens de atendimento à mulher. O Ligue 180 passou por modernização e agora também oferece atendimento via WhatsApp, facilitando o acesso de mulheres que não conseguem fazer ligações por estarem sob vigilância do agressor.

Tarita faz um apelo direto às vítimas: “Se você está passando por isso ou conhece alguém que esteja, ligue para o 180. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas. Você não precisa esperar a situação piorar para pedir ajuda.”

Em situações de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo número 190. Boletins de ocorrência também podem ser registrados pela Delegacia Virtual, nos casos permitidos.