Correio de Carajás

Os perigos de misturar vodca com energético, comum no carnaval

Especialistas alertam que jovens também podem sentir os efeitos da mistura, principalmente em situações de exagero.

Mistura de álcool e energético é popular na vida noturna de várias cidades do mundo — Foto: Getty Images

Muito comum em festas e especialmente durante o carnaval, a combinação de álcool, geralmente vodca, com energético é vista por muitos foliões como uma forma de “aguentar mais tempo” ou “mascarar o efeito” nas festas. Especialistas alertam, no entanto, que a mistura pode trazer riscos reais à saúde, inclusive para pessoas jovens e sem doenças conhecidas.

Segundo cardiologistas, o principal problema está no efeito oposto das duas substâncias no organismo e no contexto em que elas costumam ser consumidas.

Por que faz mal misturar álcool com energético?

 

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O álcool é uma substância depressora do sistema nervoso central. Já os energéticos, que contêm cafeína, guaraná e outros estimulantes, têm efeito oposto.

“Quando você mistura álcool com energético, cria um conflito no organismo: uma substância depressora junto de um estimulante. Do ponto de vista cardiovascular, isso gera um cenário mais propício a taquicardia, picos de pressão, palpitações e arritmias”, explica o cardiologista Rodrigo Otávio Bougleux, chefe da Seção de Cardiologia do Esporte do Instituto Dante Pazzanese e diretor científico do DERC/SBC.

 

O risco aumenta em ambientes típicos de festa, como o carnaval, que envolvem calor, dança, pouca hidratação, consumo excessivo de bebida e privação de sono.

O que acontece no corpo com essa mistura?

 

Segundo o especialista, o energético pode mascarar os sinais clássicos de embriaguez, levando a pessoa a beber mais do que deveria.

“O álcool costuma provocar sedação, lentidão e sensação de cansaço, sinais que funcionam como um freio natural. Já a cafeína aumenta o estado de alerta e a disposição, criando uma falsa impressão de bem-estar e controle da situação”, afirma Bougleux.

Esse efeito pode alterar a percepção de risco e favorecer o consumo excessivo de álcool, conhecido como binge drinking.

Sinais de alerta

 

Na maioria dos casos, os efeitos se manifestam como mal-estar passageiro. Ainda assim, alguns sinais exigem atenção e podem indicar necessidade de avaliação médica:

  • dor no peito
  • falta de ar
  • escurecimento da visão
  • sensação de desmaio
  • palpitações fortes ou irregulares
  • confusão mental

 

“Esses sintomas podem sugerir um risco cardiovascular real ou intoxicação importante”, alerta o cardiologista.

Jovens também correm risco?

 

De acordo com Bougleux, mesmo pessoas jovens e sem diagnóstico prévio de doença cardíaca podem apresentar alterações cardiovasculares após consumir álcool com energético.

“O risco de um evento grave é baixo, mas o risco de taquicardia, picos de pressão, palpitações e arritmias não é raro, especialmente quando se soma binge drinking, calor, desidratação e pouco sono”, explica.

Principais grupos de risco

 

A mistura é especialmente desaconselhada para:

  • pessoas com hipertensão, arritmias ou outras doenças cardíacas
  • pessoas com ansiedade
  • usuários de alguns medicamentos ou substâncias estimulantes

 

O que dizem os estudos

 

Um estudo conduzido por pesquisadores da Boston University, da Brown University e do Butler Hospital identificou que o uso concomitante de álcool e energético está associado a um risco significativamente maior de binge drinking (episódios de consumo excessivo de álcool) e de formas mais graves de transtorno por uso de álcool (AUD).

A pesquisa aponta que a mistura é motivada principalmente pelo desejo de reduzir a percepção dos efeitos da embriaguez e aumentar a estimulação, o que permite que o indivíduo beba por mais tempo.

Mitos e verdades sobre misturar álcool com energético

 

❌ Mito: energético “corta” o efeito do álcool.

Verdade: o energético não reduz a quantidade de álcool no sangue. Ele apenas diminui a sensação de sonolência e embriaguez, o que pode levar a pessoa a beber mais do que deveria.

❌ Mito: se não deu nada da outra vez, não vai dar agora.

Verdade: os efeitos variam conforme hidratação, sono, calor, quantidade ingerida e condição de saúde. Mesmo quem nunca passou mal pode ter taquicardia, picos de pressão ou arritmias em outra ocasião.

❌ Mito: só quem tem problema no coração corre risco.

✅ Verdade: jovens e pessoas sem doença cardíaca conhecida também podem apresentar alterações cardiovasculares.

❌ Mito: beber energético “dá mais controle” sobre o corpo.

Verdade: a cafeína pode mascarar sinais de embriaguez e alterar a percepção de risco, aumentando a chance de exageros.

A recomendação dos especialistas é clara: evitar misturar álcool com energético.

“Carnaval e festas fazem parte da vida, mas misturar álcool, energético, pouco sono, calor e desidratação coloca o organismo em esforço máximo. Prevenção não é estragar a festa, e sim colocar limites antes que o corpo imponha os seus. Intercalar água, comer bem, respeitar o cansaço e não transformar essa combinação em rotina fazem diferença real para a saúde”, ressalta Gilberto Ururahy, diretor-médico especializado em medicina preventiva na Med-Rio Check-up.

(Fonte:G1)