Correio de Carajás

Os desafios de uma professora da educação infantil na pandemia

JACUNDÁ

Eleide Martins conta a experiência de dar aula fora da sala de aula para alunos para quem não olha nos olhos
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Diversos desafios têm sido enfrentados pelos professores na pandemia da covid-19. Alguns deles precisaram lidar com as mudanças bruscas e se adaptar ao ensino a distância, enquanto outros ficaram impedidos de dar aulas devido à falta de infraestrutura nas escolas em que trabalham.

Entretanto, continuar o processo de ensino-aprendizagem sem aulas presenciais é difícil para todos eles, mesmo no caso daqueles que já tinham certa familiaridade com esse modelo.

Esse dilema é também o da professora Eleide Martins de Souza, pedagoga com pós-graduada em Gestão Escolar. São 20 anos dedicados ao segmento de Educação Infantil, dos quais oito como coordenadora geral de educação infantil da rede municipal de Jacundá. Mas ela também tem experiência como diretora e Coordenadora de instituições do referido segmento.

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A seguir, acompanhe entrevista que ela concedeu ao CORREIO DE CARAJÁS antes do Dia do Professor:

CORREIO DE CARAJÁS – Na rede educacional de vocês, os alunos da educação infantil tiveram aulas remotas?

ELEIDE MARTINS – As aulas presenciais foram suspensas no dia 16 de Março de 2020 devido À necessidade de cumprir as orientações sanitárias e manter o isolamento social para conter a contaminação por covid-19. Quando os dados e estudos mostraram que o período de isolamento se estenderia, a SEMED traçou um planejamento que orientava a metodologia para o ensino remoto em todos os segmentos, desde a educação infantil até as séries finais do ensino fundamental.

 

CORREIO DE CARAJÁS – Parece que os desafios são maiores para esse nível de ensino nessa modalidade à distância. Ou é mais fácil que o Fundamental?

ELEIDE MARTINS – Este período de isolamento em vivemos o novo normal não está sendo fácil para ninguém, porque fomos pegos de surpresa e a rotina de todos foi totalmente mudada. As dificuldades encontradas em todos os segmentos estão sendo muito similares, porque abarca desde a estrutura familiar, problemas financeiros e acesso às tecnologias.

Professora Eleide em reunião com os pais de alunos antes da pandemia

 

CORREIO DE CARAJÁS – Diferente de alunos do Ensino Fundamental, os da Educação Infantil são mais dependentes dos pais em quase tudo. Usar as ferramentas digitais para aulas remotas é muito desafiador?

ELEIDE MARTINS – A educação infantil sempre prezou pelo contato próximo e personalizado com as crianças, utilizando recursos humanos e materiais para o desenvolvimento das atividades. Durante a pandemia, o tão importante “contato físico” não foi possível. O planejamento das aulas remotas estruturado pela SEMED orientava a construção de guia de atividades em que orientávamos os pais ou responsáveis a realizar a atividade em casa com as crianças.

Eu sempre falo que ensinamos os pais a serem “professores” de seus filhos, mas com atividades que a família toda se divertia junto, como contação de histórias, músicas, jogos no quintal, arte com material reciclado e todas pensadas com recursos que poderiam encontrar facilmente em casa. A tecnologia utilizada era manipulada pelo adulto responsável com a utilização de grupo virtual e acesso a links.

 

CORREIO DE CARAJÁS – E quanto aos professores desse nível de ensino, o que muda desde o planejamento das aulas até o processo de avaliação numa modalidade tão incomum, que é o ensino remoto?

ELEIDE MARTINS – Foi um período bem desafiador para todos os profissionais que tiveram que atender uma demanda urgente de acesso à educação remota e que, em um espaço curto de tempo, foram desafiados a aprender ou aprofundar seus conhecimentos e habilidades tecnológicas para produção de materiais e conteúdos pedagógicos.

Estes recursos tinham o objetivo de aproximar as crianças e famílias da escola, explicar atividades, manter a essência da educação infantil, que é o movimento, estar ativa, e não passiva frente a uma tela e avaliar o processo de aprendizagem durante a pandemia. Cada profissional reagiu a sua forma, de acordo com sua realidade, que compreendiam aspectos como: pouca intimidade com recursos e ferramentas tecnológicas, sem acesso à internet e sem notebook.

De acordo com orientação da SEMED, os professores passaram a criar guia de atividades que propunham vivências dentro de cada campo de experiência. O adulto responsável, de posse destas informações do guia, reproduz as atividades com as crianças, que de forma lúdica aprendem através de música, jogos, histórias, manipulação de recursos da natureza e momentos em família. As escolas criaram grupos virtuais por turma para orientar estas famílias e receber devolutivas através de vídeos e fotos para construir os relatórios de acompanhamento de atividades.

 

CORREIO DE CARAJÁS – É possível afirmar que o isolamento social pode ter causado consequências no desenvolvimento psicossocial de crianças até os cinco anos de idade que frequentam a educação infantil?

ELEIDE MARTINS – Nesse contexto, é possível afirmar através de relatos de pais ou responsáveis que houve uma quebra de rotina na vida dessas crianças. Este segmento está mais preocupado com o estado emocional das crianças do que com prejuízos educacionais. No retorno presencial, vamos receber crianças que passaram por experiências de luto, que tiveram que morar com familiares para os pais trabalharem, passaram por experiências de violência, que aumentou consideravelmente durante a pandemia, entre outras situações que estão sendo levantadas no planejamento do retorno e no diagnóstico inicial quando as crianças retornarem aos espaços escolares.

 

CORREIO DE CARAJÁS – Há estudiosos que apontam que houve aprofundamento das desigualdades educacionais, com aumento das diferenças entre crianças vulneráveis e não vulneráveis, criando uma ferida exposta. Você prevê que teremos essa desigualdade estampada na volta às aulas presenciais de forma plena?

ELEIDE MARTINS – A pandemia escancarou a desigualdade social e educacional em nosso mundo. Foi facilmente visualizado entre países, estados, municípios e famílias. As mudanças de rotina que ocorreram na vida das crianças e na vida dos pais impactaram a forma como aprendem e têm acesso a conhecimento, e por mais que o sistema educacional pensasse alternativas para sanar estas deficiências, algumas coisas não foram possíveis, pois esbarramos em entraves financeiros e estruturais.

Em uma mesma turma de crianças tivemos aquelas que desistiram por que foram morar com familiares para os pais continuarem a trabalhar; outros não tinham celular ou qualquer outro equipamento para receber o material produzido pelo professor; outros não possuíam acesso à internet ou internet de qualidade e também, infelizmente, algumas famílias não procuraram a escola para o acompanhamento da criança. O cenário atual irá requerer a adaptação a esses tipos de mudanças, mas também se faz necessário um apoio maior aqueles que não possuem as mesmas oportunidades.

 

CORREIO DE CARAJÁS – Você acredita que a escola pública de seu Jacundá está preparada para receber professores e alunos em um cenário ainda delicado de covid-19?

ELEIDE MARTINS – Durante este período de pandemia vivemos experiências que podem ter deixado diversos impactos negativos, não apenas na aprendizagem, mas no desenvolvimento socioemocional causado pelo isolamento social e distanciamento escolar. Estes impactos afetaram tanto as famílias, alunos e o próprio sistema educacional.

As aulas presenciais estão com data prevista para começar na grande maioria dos municípios, mas para isto serão realizados encontros de planejamento com todos os profissionais da educação para pensar estratégias e metodologias para receber estas crianças que vivenciaram tantas mudanças de rotina que ocorreram em suas vidas e na vida dos pais. Se foi difícil, de repente, estarem todos em casa, mudar a rotina novamente e se ausentar da segurança que o lar representa, pode também gerar alguns impactos.

(Ulisses Pompeu)

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