Correio de Carajás

Olhos de Ressaca: os olhos mais comentados da literatura brasileira

✏️ Atualizado em 24/02/2026 08h26

Como diria o Bruxo do Cosme Velho, o que me põe a pena na mão é a obra Dom Casmurro (1899), de Joaquim Maria Machado de Assis, o nosso genial Machado de Assis, este que é o maior escritor brasileiro e, portanto, dispensa apresentação. Poderia tratar aqui da sua escrita impecável e inconfundível, marcada pela ironia e presença do narrador intruso, mas algo maior se impõe:  Capitu, a ambígua e enigmática Capitu, ela que é a dona dos olhos mais comentados da literatura brasileira. A tarefa hoje é analisar a mais célebre personagem feminina da literatura nacional a partir de duas metáforas: olhos de cigana oblíqua e dissimulada e olhos de ressaca.

Começo pela descrição física da graciosa e perspicaz Capitu:Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhes pelas costas. Morena, Olhos Claros e Grandes, nariz reto e comprido, tinha boca fina e o queixo largo”. Tem-se neste trecho a beleza descrita pelo juvenil Bentinho, o apaixonado e nada confiável narrador.

Apesar da descrição dos atributos físicos de Capitu, não é por sua singela beleza física que a ambígua personagem é lembrada, analisada e comentada desde o fim do século XIX. O maior enigma da ficção brasileira é: Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Contudo, essa não é matéria desta coluna. Por conta dessa pergunta que ressoa há mais de um século, Dom Casmurro é considerado uma obra aberta tem provocado calorosos debates no âmbito acadêmico e jurídico.

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Após apresentar as características físicas, trago Capitu na perspectiva de Betinho:  Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Desde a adolescência, Betinho a considera uma mulher superior a ele ao dizer que ela era mais mulher – infere-se decidida, forte, inteligente e segura – e ele um homem menor, em comparação a ela. Bento Santiago demonstrava imaturidade e insegurança, enquanto CapituEra mulher por dentro e por fora, mulher à direta e à esquerda; mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabeça.”

Bentinho, ao tentar descrever os olhos de Capitu, confessa que definir os olhos daquela que amou desde a adolescência era um desafio capaz de fazê-lo perder a dignidade e o estilo: “Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me ocorre imagem capaz de dizer, sem quebrar a dignidade do estilo, o que foram e o que me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá a ideia daquela feição nova.” Eis que Machado constrói a famosíssima metáfora: olhos de ressaca. A intensidade de Capitu é comparada às ondas marítimas de grande amplitude e aos ventos fortes e violentos, o que se contrapõe à inexpressividade de Betinho.

A semente da desconfiança foi plantada por José Dias (o agregado), quando Betinho ainda era um adolescente, ao lhe dirigir a seguinte observação: “Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu… você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.”  O adolescente Bentinho dirá que não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia e queria ver se podiam chamá-la assim. Está aqui a natureza enigmática que o narrador atribui a Capitu a partir da metáfora: olhos de cigana oblíqua e dissimulada, a natureza de alguém que não é confiável, de olhar indireto, mulher sedutora e traiçoeira.

Dom Casmurro é obra para se ler, reler; é livro que se reescreve. Por ser uma obra aberta, nós, mortais leitores, jamais conseguiremos alcançar todas as camadas da ambígua Capitu e a resposta exata para o enigma que sobrevive após mais de um século. Machado levou para a campa a resposta que tentamos obter sobre a suposta traição, sem deixar de considerar que o narrador é o hipotético marido traído — ademais, arguto manipulador, homem inseguro e ciumento que tenta construir evidências da “infidelidade” da esposa. Para finalizar, deixo como sugestão de leitura: Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis e convido você, caro leitor, a responder: Capitu traiu ou não traiu? Até a próxima, querido leitor!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.