📅 Publicado em 26/03/2026 09h54✏️ Atualizado em 26/03/2026 10h59
De Marabá ao extremo Sul do país, uma mesma obra acende debates, atravessa fronteiras e coloca a literatura amazônica no centro da academia brasileira. No próximo dia 31 de março, “Outono de Carne Estranha”, do escritor marabaense Airton Souza, será defendido simultaneamente em duas dissertações de mestrado, em universidades separadas por milhares de quilômetros, mas conectadas pela força de uma narrativa que provoca, incomoda e ilumina novas formas de ver identidade, desejo e existência.
Em Marabá, a pesquisa será defendida por Cleuzeni Santiago da Silva, às 9h, em formato remoto. Ela é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). O estudo analisa a representação LGBTQIAPN+ no romance a partir dos personagens Zuza e Manel, situados no contexto do garimpo de Serra Pelada, nos anos 1980. A dissertação observa como a obra retrata relações homoeróticas atravessadas por discriminação e violência, ao mesmo tempo em que propõe uma leitura que valoriza a complexidade e a fluidez das identidades.

Segundo a pesquisadora de Marabá, o romance rompe com visões fixas sobre gênero e sexualidade e coloca personagens LGBTQIAPN+ em posição central na narrativa. A análise também destaca o uso de uma linguagem direta e, por vezes, crua, como estratégia de enfrentamento à invisibilização histórica desse grupo. O trabalho dialoga com autores dos estudos culturais e de gênero para discutir como a literatura pode contribuir para ampliar o debate sobre identidade, diferença e direitos.
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Já no Rio Grande do Sul, a dissertação será apresentada por Kamila Vieira, às 14h, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo (UPF), também por videoconferência. O estudo propõe uma leitura de “Outono de Carne Estranha” a partir de questões do chamado tempo contemporâneo, analisando como o romance articula temas como memória, espaço e desejo.

A pesquisa está estruturada em quatro partes e aborda desde os desafios da literatura em dialogar com o presente até a análise de elementos como o corpo, o tempo e as experiências de desejo na narrativa. Um dos focos do trabalho é o homoerotismo, entendido como uma forma de questionar normas sociais e ampliar possibilidades de representação.
A escolha da obra, segundo Kamila, tem também um caráter pessoal e político. A pesquisadora relata que conheceu o autor durante um evento em Caxias do Sul, em um encontro que descreve como marcante. Ela destaca que estudar um escritor do Norte do país em uma universidade do Sul é uma forma de ampliar a circulação de vozes ainda pouco difundidas no cenário acadêmico nacional.

“Trata-se de um texto potente, visceral e profundamente provocador”, afirma. Para ela, a pesquisa também cumpre o papel de valorizar a literatura produzida no Pará, aproximando leitores e pesquisadores de uma produção que, muitas vezes, permanece à margem dos grandes centros.
As duas defesas, realizadas no mesmo dia e em regiões distintas, reforçam a relevância da obra de Airton Souza no campo dos estudos literários contemporâneos, especialmente em temas ligados à representação, identidade e diversidade.
Apesar de partirem de recortes teóricos distintos, as duas dissertações convergem ao reconhecer a obra que tensiona normas sociais e amplia as formas de representação na literatura contemporânea. Tanto o trabalho de Cleuzeni quanto o de Kamila colocam no centro da análise o homoerotismo e as experiências dissidentes, entendendo o romance como um espaço de questionamento de padrões de gênero, identidade e poder.
Em comum, as pesquisas também destacam a força estética e política da escrita de Airton Souza, apontando como a narrativa dá visibilidade a sujeitos historicamente marginalizados e provoca reflexões que ultrapassam o campo literário, alcançando dimensões sociais e culturais.
