Correio de Carajás

O Morro dos Ventos Uivantes: selvagem e arrebatador

A obra-prima da inglesa Emily Brontë, “O Morro dos Ventos Uivantes” (1847), hospedou-se em minha estante em junho de 2024. Em janeiro de 2026, quase dois anos depois, o clássico entrou na minha lista de leituras, mas confesso que estava pouco animada. Ao saber da nova adaptação do clássico para o cinema, cuja estreia está prevista para o dia 12 de fevereiro, resolvi ler, mas em entusiasmo.

Foram sete dias intensos. Não me separei do livro, que é um pequeno calhamaço de quase 500 páginas. Uma obra grandiosa, uma verdadeira tempestade com raios e trovões! A comparação com fenômenos da natureza é uma tentativa de demonstrar o que senti ao ler o único romance escrito por Emily Brontë. Durante a leitura, não me contive e fui pesquisar sobre a autora; queria conhecer essa mulher do século XIX; descobrir sua inspiração para construir uma narrativa tão intensa, um texto visceral, do qual é impossível sair incólume, pois em “O Morro dos Ventos Uivantes” você não encontrará só a história de amor impossível ou de uma paixão proibida. Emily escreveu sobre amor e ódio, obsessão, vingança, humilhação, medo, covardia, violência, enfim, sobre a degradação física e moral do ser humano. É um livro que incomodou a sociedade do século XIX.

Até então, sabia apenas que Emily Brontë foi uma escritora inglesa; viveu durante o século XIX e era irmã de Anne e Charlotte Brontë, todas autoras de romances góticos com temas e elementos sobrenaturais, suspense e atmosfera sombria e protagonismo feminino. Entre os irmãos, foi a mais tímida. Escreveu apenas “O Morro dos Ventos Uivantes”, publicado sob o pseudônimo Ellis Bell. Estudiosos dizem que ela foi uma mulher tímida, introvertida e gostava da solidão; faleceu precocemente aos 30 anos, acometida por tuberculose, um ano após publicar seu único romance. A resposta para a inspiração de Emily para criar uma história tão avassaladora pode estar em sua educação, pois, embora morasse numa pequena vila inglesa chamada Thornton, no condado de Yorkshire, ela frequentou a escola e a família possuía biblioteca em casa. Desde a mais tenra idade, demonstrava inteligência, criatividade, adorava ler e escrever. A menina tímida e recolhida teve sua inteligência e criatividade promovidas e reforçadas pelos livros e pela leitura.

Leia mais:

A expressão Morro dos Ventos Uivantes, no inglês Wuthering Heights, é o nome da propriedade onde vive a família Earnshaw. O lugar promove o isolamento social e geográfico dos personagens.  É um ambiente sombrio, quase inóspito, com atmosfera selvagem, o que reflete na personalidade de seus moradores: Hindley, Catherine e Heathcliff. O local é tempestuoso e agressivo, onde as pessoas são violentas. Embora seja uma propriedade rural, o lugar não é tranquilo; seus habitantes não vivem em paz. Algumas personagens apresentam temperamento feroz; Heathcliff é descrito com ferocidade animalesca, e Catherine, caprichosa, impertinente, fastidiosa e teimosa.

O ambiente contribui significativamente para o processo de brutalização do ser humano, fazendo aflorar sua natureza animalesca e selvagem.  Os personagens têm muitas camadas; ninguém é apenas vítima a ou vilão. Aquele que foi humilhado usa isso como motivo para agir com crueldade, sadismo e vingança.

Por ser um clássico da literatura inglesa e mundial, a obra já foi adaptada inúmeras vezes para o cinema, algumas versões são marcadas por polêmica sobre a cor da pele do personagem Heathcliff, que é descrito como negro. Um homem alto, vestindo roupas escuras, cabelo e rosto também escuros”, e que, por causa da cor da pele, é inferiorizado, humilhado e chamado pejorativamente de cigano, o que lhe gera o seguinte anseio: “Queria ter a chance de ter cabelo louro e pele clara, me vestir bem e ser tão bem-educado, e ter a chance de ser tão rico”.

Considerando a importância de o personagem ser negro para desdobramento da narrativa, é preciso reconsiderar a escolha de um ator branco para interpretá-lo, embora exista liberdade criativa para o roteirista e diretor.

A obra de Emily Brontë é uma fonte inesgotável de inspiração e sempre traz algo para o leitor. O romance é uma porta de entrada para abordagem de diversos temas.  A dica de hoje é: leiam “O Morro dos Ventos Uivantes”! Despeço-me com a promessa e a certeza de que este livro ainda retornará muitas vezes para esta coluna! Até a próxima, querido leitor!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.