Correio de Carajás

O homem que cortou castanheiras para pousar o 1º avião em solo marabaense

Lysias Rodrigues, à esquerda, e Soriano ao centro, na primeira viagem de um avião ao Tocantins e a Marabá
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Oitenta e cinco anos atrás. Quando não havia estradas que ligassem Marabá a outros municípios, um homem aventureiro e corajoso deu asas à cidade, pousando em solo marabaense o primeiro avião.

O nome dele é Lysias Augusto Rodrigues, o segundo personagem da série “Ilustres Desconhecidos”, que o Portal Correio de Carajás iniciou há uma semana e está publicando aos domingos. E apesar da importância do feito memorável – dada as dificuldades da época, o desbravador não tem seu nome no panteão dos “heróis” do município.

Até meados do Século XX, chegar ou sair de Marabá só era possível de embarcação. Apenas em 1969 foi inaugurada a PA-70 (hoje BR-222), ligando Marabá a Rodovia Belém Brasília. Dois anos depois, o trecho da Rodovia Transamazônica, que fazia elo entre esta cidade e o Porto da Balsa, na divisa com o Goiás (hoje Tocantins), foi inaugurado.

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Somente em 1931 Belém passou a ter linhas aéreas ligando a capital paraense com o Sul/Sudeste do País, pela Pan American Airways, também conhecida como Panair Brasil. Em 1933, inaugurou voos semanais para Manaus.

A aviação militar também começava por essa época, com o denominado Correio Aéreo Militar, em junho de 1931. Neste mesmo ano, o major-aviador Lysias Augusto Rodrigues, por via terrestre e fluvial, para explorar e preparar uma rota aérea que ligasse, através do vale do Rio Tocantins, a Capital Federal (Rio de Janeiro) a Belém.

A Panair pediu ao governo brasileiro autorização para efetuar estudos de viabilidade e criar pontos de apoio no interior para implantar uma rota no vale do Rio Tocantins. A condição imposta pelas autoridades federais para conceder a licença foi que houvesse acompanhamento de um fiscal do governo, na pessoa de um oficial-aviador.

Por isso, o Ministério da Guerra indicou o aviador experiente Lysias Rodrigues, enquanto pela Panair foi designado Félix Blotner, que era o chefe de operações daquela empresa aérea, que estava acompanhado de Arnold Lorenz, que arranhava português, diferente do americano Blotner.

Os três iniciaram uma longa viagem terrestre, férrea e fluvial com passagem por todas as cidades da rota aérea que iriam explorar no futuro. Pelo rio também, porque grande parte do percurso ainda não dispunha de estrada. Rio-São Paulo, depois Goiás, onde tiveram imensa dificuldade, percorrendo alguns trechos a cavalo, a pé, enfrentando até mesmo falta de água para beber.

A partir de Palma (hoje Paranã), a comitiva seguiu por via fluvial, pelo Rio Paranã, até chegar ao Rio Tocantins, em uma canoa com dois remos, e em seguida em um batelão até Porto Nacional.

A partir de Tocantínia, a expedição seguiu na Lancha “Bem vinda”, com caldeira a lenha, até Boa Vista (Tocantinópolis), passando pela cachoeira de Santo Antônio, mudando para outro batelão até aportar em Imperatriz-MA.

Da tradicional cidade marabanhense, os três aviadores seguiram em um motor “penta”, chegando à “Rainha do Sertão da Castanha: Marabá”, conforme narrou Lysias Rodrigues posteriormente.

Daqui, o trio desceu no motor “Tupy”, de 50 hp, até Jacundá, de lá seguiram em outra embarcação até Alcobaça (Tucuruí) e, de lá, o navio-gaiola “Rio Madeira” levou os três até Belém. A viagem fluvial demorou cerca de um mês, mas ao todo, foram 52 dias de viagem em reconhecimento às cidades. Essa viagem foi relatada por Lysias no livro “Roteiro do Tocantins”

Major Lysias Rodrigues pilotou o primeiro avião a aterrissar em Marabá, há quase 85 anos

Em todas as cidades estratégicas por onde passaram, Lysias, Blotner e Lorens orientaram as autoridades municipais, após escolha dos terrenos adequados, para abertura de campos de pouso nas seguintes cidades: Ipameri, Planaltina, Formosa, São João da Aliança, Cavalcante, Paranã, Peixe, Porto Nacional, Tocantínia, Pedro Afonso, Carolina, Imperatriz e Marabá.

As pistas demarcadas tinham, no mínimo, 200 por 600 metros. As maiores chegaram a 1.000 por 1.000 metros. Mas a de Marabá, segundo relatou Lysias, teria dimensões reduzidas, com sérias consequências posteriores. “Propusemos a abertura de uma faixa de 200 por 500 metros, partindo da margem do rio, no sentido do vento dominante”.

Talvez a sugestão de um campo de proporções tão acanhadas se deu por causa do espanto dos três aviadores diante de uma mata tão densa, como Lysias mesmo relatou em sua obra: “Quando olhamos o talhe das árvores a derrubar, tivemos a certeza de que o campo daqui vai demorar bastante a preparar. É uma empreitada para gigantes, tão o vulto das castanheiras e a grande quantidade de madeira de lei, e só os brasileiros têm audácia para tanto”, narrou.

Nesta época, em 1931, o prefeito de Marabá era Ascendino Monteiro Nunes e a cidade tinha cerca de 1.500 moradores, apenas. Foi com ele que Lysias acertou que o município providenciaria a abertura de uma clareira para servir de pista de pouso para uma aeronave de pequeno porte.

A primeira expedição aérea só se concretizou em 1935, ou seja, quatro anos depois, em função da Revolução Constitucionalista de 1932. Foram inauguradas, naquela ocasião, seis pistas de pouso, inclusive a de Marabá. O major Lysias viajou acompanhado do sargento mecânico Soriano Bastos. Os dois embarcaram num avião Waco C.S.O. “O avião que melhor se prestava a esse voo de exploração era, indiscutivelmente, o Waco C.S.O., pela possibilidade de curta aterragem, solidez e raio de ação razoável, embora a velocidade de cruzeiro fosse uns 160 km por hora”, descreveu Rodrigues.

Partiram do Rio de Janeiro em 14 de novembro de 1935, passaram por São Paulo, depois por várias cidades e, no dia 17 de novembro, o navegador dos ares inaugurou os campos de Pedro Afonso, Carolina e Marabá, seguindo no mesmo dia para Belém.

Quando chegou a Marabá, a surpresa não era das melhores, conforme ele mesmo narrou em seu diário de bordo: “O Aeroporto de Marabá é na margem esquerda do Rio Itacaiúna, afluente do Tocantins, próximo à cidade. Quando sobrevoamos o campo, o nosso coração sofreu um baque. O campo pronto era pequeníssimo, cercado de árvores gigantescas, e tínhamos de fazer ali o nosso reabastecimento de qualquer maneira. Fizemos várias tentativas para aterrar e retomávamos o voo. Voltar era impossível, a gasolina não dava.

Por fim, resolvemos glissar entre duas gigantescas castanheiras, e chegar ao solo planando, para poder caber no apertado campo. Conseguimos aterrar bem, apenas com um choque um pouco maior que uma aterragem normal. Que alívio!”.

Já em 1935, o prefeito era o Dr. Francisco de Souza Ramos, que Lysias conhecera em sua viagem terrestre em 1931. O piloto solicitou alguns ajustes na pista para que eles conseguissem alçar voo. “Fizemos vir machados e foices, e abnegados se prestaram a derrubar umas árvores do lado onde pensávamos sair na decolagem, dando-nos margem a decolar sem perigo.


Lysias escolheu o Waco C.S.O. por ser um avião de fácil aterrissagem

Prometendo demorar mais na volta, depois de reabastecido, levamos o avião ao extremo limite do campo, aceleramos aguentando nos freios, e só depois arrancamos. Felizmente o avião saiu bem, e ganhamos altura sem perigo maior. Rodamos sobre Marabá, e seguimos para leste, pois o Tocantins, depois que recebe o Itacaiunas, inflerte nessa direção”, relatou.

Mas o Correio Aéreo Militar só começou a operar nessa rota do Tocantins em 1937. O preparo de outros campos, o melhoramento dos já existentes, a remessa e instalação de postos de rádio, remessa de óleo e gasolina, dificuldades de transportes, foram os causadores desse atraso.

Em 1954, um torneio de futebol comemorou o pouso pioneiro de um avião em Marabá. O time vencedor recebeu a taça “Lysias Rodrigues”. Foi a última vez que se tem notícia de um evento para homenageá-lo.

Viajando de barco em Marabá, no dia 27 de setembro de 1935, Lysias Rodrigues escreveu em seu diário: “Olhando aquele rio que o luar transformava em prata líquida, ficamos ‘maginando’ o que será toda essa riquíssima região, no dia que tiver transporte fácil pelo rio, ou de uma boa rodovia ligando todos esses núcleos de civilização. E sonhamos… com as linhas aéreas sobrevoando o Tocantins, vindo ter a ele ou dele saindo para os diversos quadrantes. E pensamos quantas gerações passarão antes que este sonho se realize? (…)

Mas, tudo vem a seu tempo! Não já estamos nós aqui estudando a Rota Aérea do Tocantins? Já não está uma companhia aérea comercial interessada também nessa empreitada? Esperemos confiantes o futuro!” O Estado do Tocantins Lysias Rodrigues uma das principais personalidades de sua história. Por aqui, anda esquecido. (Ulisses Pompeu)

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