Uma pessoa abre as redes sociais no intervalo do trabalho e vê uma personalidade conhecida recomendando um investimento “seguro”, com retorno alto e vagas quase esgotadas. O vídeo parece natural. A voz convence. Nos comentários, outras pessoas dizem que já lucraram. Um botão leva a um grupo exclusivo no WhatsApp, onde alguém explica como fazer o primeiro Pix. Você confiaria nesse vídeo se reconhecesse o rosto e a voz? E se aquela pessoa nunca tivesse gravado nada?
De 5 a 11 de outubro, a Semana Mundial do Investidor de 2026 chama atenção para resiliência financeira, armadilhas digitais e prevenção a golpes. Entre os riscos destacados pela CVM estão deepfakes, conteúdos feitos com inteligência artificial, recomendações automatizadas, phishing e uso indevido de dados pessoais.
Deepfake é um conteúdo audiovisual manipulado ou criado com inteligência artificial para fazer alguém parecer dizer ou fazer algo que não aconteceu. A tecnologia pode reproduzir rostos e vozes, alterar falas, inventar depoimentos e entrevistas e fabricar imagens de comprovantes. Também pode ajudar a criar perfis e conversas falsas. Isso não torna todo conteúdo feito com IA uma fraude; significa que aparência, edição profissional, número de seguidores e comentários não bastam para validar uma oferta.
Leia mais:A própria identidade de uma empresa legítima pode ser copiada. A CVM alerta que fraudadores podem usar indevidamente nomes, CNPJs, sites e dados de participantes autorizados. Por isso, não basta encontrar uma empresa no cadastro: é preciso confirmar se o contato e os dados bancários correspondem exatamente aos canais oficiais dela.
Essas fraudes não exploram apenas desconhecimento sobre investimentos. São montadas para reduzir o tempo de reflexão. O viés de autoridade faz uma recomendação parecer mais confiável quando vem de uma celebridade, especialista ou instituição conhecida. A prova social aparece em seguidores, comentários e depoimentos que também podem ser falsos.
A escassez (“últimas vagas”) e a urgência (“só hoje”) empurram a decisão. A aversão à perda faz a pessoa temer deixar escapar uma chance única; a esperança de mudar de vida pode diminuir a atenção aos riscos. E reconhecer uma voz ou um rosto produz familiaridade, embora não confirme que a pessoa realmente publicou aquele conteúdo. Nada disso torna a vítima culpada: a manipulação é planejada justamente para parecer verdadeira e apressar a ação.
Um exemplo fictício
Este caso é fictício e foi criado apenas para fins educativos. Ana, que tem um pequeno negócio, recebe um vídeo de uma personalidade conhecida anunciando retornos elevados e rápidos. O anúncio diz que restam poucas vagas. No WhatsApp, um suposto consultor a inclui num grupo exclusivo, promete saque em poucos dias e pede um Pix inicial para uma pessoa física. Depois, oferece um bônus se ela depositar mais.
Cada detalhe merece uma pausa: lucro alto apresentado como garantido; pressão para decidir; atendimento restrito ao WhatsApp; transferência para uma conta que não corresponde à instituição; e pedido de novos pagamentos. Um vídeo perfeito também pode ser falso. Não tente resolver a dúvida apenas examinando a boca, o rosto ou a voz.
PARE antes de investir
P — Pause: não faça Pix, não clique em links e não instale aplicativos sob pressão.
A — Análise: pergunte como o investimento funciona, quais são os riscos e custos, quem o oferece e como se ganha dinheiro. Desconfie de retorno alto, rápido e garantido ou de bônus condicionados a novos depósitos.
R — Rastreie: entre nos canais oficiais digitando o endereço no navegador. Consulte a CVM quando se tratar de participante ou oferta do mercado de valores mobiliários; confira no Banco Central as instituições sob sua supervisão. Compare nome, contatos e conta de destino. A CVM recomenda atenção especial a pagamentos para contas de pessoas físicas ou a discrepâncias em relação aos dados oficiais.
E — Escute outra pessoa: converse com alguém de confiança antes de transferir dinheiro. Não aceite pedidos de segredo nem compartilhe senhas, códigos de confirmação ou acesso remoto ao celular.
Criar esse intervalo entre o impulso e a ação ajuda a enfraquecer a urgência emocional e abre espaço para checar os fatos.
Se você já transferiu
Aja rapidamente, sem se culpar. Fale com o banco pelos canais oficiais, informe a fraude e pergunte quais providências estão disponíveis. Em caso de Pix, acione o banco o quanto antes para registrar a contestação e verificar a possibilidade de uso do Mecanismo Especial de Devolução (MED). O procedimento não garante que o dinheiro será recuperado. Guarde prints, links, números, conversas e comprovantes; registre boletim de ocorrência e denuncie o perfil ou anúncio à plataforma. Se a oferta envolver investimento, comunique também a CVM pelos canais oficiais. Se compartilhou dados ou permitiu acesso ao aparelho, troque as senhas e procure o banco por um dispositivo seguro.
Desconfie ainda do golpe da recuperação: depois da perda, alguém pode cobrar adiantado por uma suposta devolução, taxa ou imposto. Não faça novos pagamentos para “liberar” valores.
A inteligência artificial pode ser útil, mas aumenta a importância de uma habilidade financeira essencial: verificar antes de confiar. Entre o impulso e a escolha, precisa existir uma pausa. É nessa pausa que a consciência protege o seu dinheiro.
Na era da inteligência artificial, não basta perguntar se o investimento parece verdadeiro. É preciso verificar se ele realmente existe.
Por isso, a educação financeira precisa ir além de aprender a economizar e investir. Também precisamos desenvolver senso crítico, segurança digital e controle emocional.
Simone Oliveira- Educadora Financeira (Instagram: @simoneoliveirafinancas)
Pós-Graduada em Neurociências aplicada às Finanças
MBA Expert em Investimento & Banker
Curso em Economia Comportamental e Psicologia Financeira.
