Mariana Costa Coelho Rocha, farmacêutica generalista de 37 anos e mãe de duas crianças, vive hoje sua melhor fase. Depois de anos lutando contra a balança, encontrou equilíbrio em uma rotina saudável: exercita-se pelo menos cinco vezes por semana, participa de um grupo de corrida semanalmente e cuida da saúde de forma integral. Realiza exames periódicos, faz suplementação apenas quando há indicação médica e mantém uma alimentação equilibrada, sem exageros em cápsulas de farmácia.
A experiência de Mariana mostra que saúde não se constrói com excessos, mas com escolhas conscientes. Entretanto, nos últimos anos, o que se observa é um crescimento expressivo no consumo de vitaminas e suplementos. A promessa de mais energia, imunidade fortalecida, melhora da pele, do cabelo e até prevenção de doenças transformou esses produtos em protagonistas nas prateleiras e nas redes sociais. Mas a pergunta central é: todas as pessoas precisam suplementar vitaminas?
Segundo a nutróloga Bruna D’Ávila, professora da Pós-graduação de Nutrologia da Afya, a resposta é clara: “Não necessariamente. A suplementação deve ser feita com critério e apenas quando há real necessidade.”
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Ela explica que vitaminas são micronutrientes essenciais, fundamentais para funções metabólicas vitais, como produção de energia, síntese hormonal e funcionamento neurológico e imunológico. Dividem-se em lipossolúveis (A, D, E e K) e hidrossolúveis (complexo B e vitamina C). A diferença clínica está na capacidade de armazenamento: “Vitaminas lipossolúveis podem se acumular no organismo, aumentando o risco de toxicidade quando utilizadas sem critério”, alerta Bruna.
A suplementação é indicada em situações específicas: deficiência comprovada por exames laboratoriais, aumento de demanda fisiológica (como gestação, lactação ou envelhecimento), doenças de má absorção, cirurgias bariátricas, dietas restritivas ou uso de medicações que interferem na absorção. “Um exemplo clássico é a vitamina D. Quando há deficiência confirmada, a reposição deve ser individualizada, não baseada em protocolos padronizados”, explica.
O uso indiscriminado, sem avaliação médica, pode trazer riscos: hipervitaminose (especialmente de A e D), sobrecarga hepática, interações medicamentosas e até uma falsa sensação de segurança. “Muitos acreditam que, por estarem tomando vitaminas, já estão saudáveis. Isso desvia o foco do que realmente importa: alimentação, sono, atividade física e controle metabólico”, reforça a especialista.
Dra. Bruna lembra que “mais” não significa “melhor”. “Em Nutrologia, dose adequada é sinônimo de segurança.” Ela critica a cultura da suplementação preventiva, que muitas vezes medicaliza sintomas inespecíficos, como cansaço ou queda de cabelo sem investigação adequada. “Fadiga pode estar associada a distúrbios do sono, resistência à insulina ou alterações tireoidianas, e não apenas a níveis baixos de vitaminas.”

A vitamina D, por exemplo, ganhou protagonismo após a pandemia de COVID-19. Embora sua importância imunomoduladora seja reconhecida, não há evidência robusta que sustente megadoses indiscriminadas para prevenção universal de doenças. O mesmo vale para o complexo B: essencial no metabolismo energético, mas raramente eficaz quando suplementado sem deficiência comprovada. “Excesso crônico de algumas vitaminas pode causar efeitos adversos, como neuropatia periférica no caso da B6 em altas doses”, alerta.
Para Bruna, o papel da Nutrologia não é ser contra a suplementação, mas contra o uso sem indicação. “Nosso trabalho é identificar deficiências reais, avaliar riscos individuais, prescrever doses seguras e acompanhar a resposta clínica e laboratorial.” Ela reforça que suplemento não substitui alimentação equilibrada, sono adequado ou mudança de estilo de vida. “Vitaminas são essenciais, mas isso não significa que todos precisem delas em cápsulas. A medicina personalizada deve substituir a suplementação por tendência.”
A especialista também destaca a diferença entre obter vitaminas pela alimentação e pela suplementação. “Quando vêm dos alimentos, elas estão acompanhadas de fibras, fitoquímicos e antioxidantes naturais, que atuam de forma sinérgica. O suplemento é uma forma isolada e concentrada, útil em casos de deficiência, mas incapaz de reproduzir os benefícios de um alimento in natura.”
O risco de acreditar que suplementos podem substituir uma alimentação equilibrada é grande. Eles não compensam o excesso de ultraprocessados, o sedentarismo ou a privação de sono. “Diversidade alimentar é o melhor polivitamínico natural”, resume Bruna.
Jaqueline Miranda, endocrinologista e professora da Afya Marabá, complementa com exemplos práticos: “Suplementar sem investigar pode mascarar problemas sérios. Folato em excesso pode esconder uma deficiência de B12, enquanto megadoses de vitamina B6 podem provocar dormência e neuropatia, confundindo diagnósticos.” Ela alerta ainda que a biotina, muito usada para pele e cabelo, pode alterar exames laboratoriais e levar a interpretações equivocadas.

Para Dra. Jaqueline, o caminho seguro é sempre a avaliação profissional: “Cada corpo tem necessidades diferentes. O suplemento pode ser útil em casos de gestação, idosos com baixa absorção ou doenças crônicas, mas não deve ser visto como solução universal.” Ela reforça que o foco deve estar em hábitos alimentares equilibrados: frutas e legumes coloridos, vegetais de folhas verdes, grãos integrais, proteínas e gorduras boas. “Comida de verdade é prioridade; suplemento é o extra, não o plano principal.”
A especialista também lembra que há regulamentação no Brasil para garantir a segurança dos suplementos, mas isso não elimina a necessidade de acompanhamento: “A Anvisa estabelece normas de qualidade e rotulagem, mas cabe ao profissional avaliar se o uso é realmente necessário e seguro.”
Antes de iniciar qualquer suplemento, busque avaliação médica ou nutricional. Nem todo cansaço é falta de vitamina. Nem toda vitamina é necessária. E o excesso também pode adoecer. Saúde se constrói com escolhas consistentes, não apenas com cápsulas.
