O Prêmio Nobel da Paz 2026 foi concedido à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, de 85 anos, anunciou o Comitê Norueguês do Nobel, em Oslo, nesta sexta-feira (9).
Ela foi laureada “por sua coragem e integridade excepcionais em sua atuação jurídica e por seus esforços para promover a paz e o direito internacional”, afirmou o presidente do comitê, Jørgen Watne Frydnes. Durante sua carreira, Pillay:
- lutou contra o apartheid e garantiu que Nelson Mandela tivesse acesso a um advogado na prisão;
- se tornou a primeira mulher não branca na Suprema Corte da África do Sul;
- julgou o genocídio em Ruanda;
- chefiou a área de direitos humanos da ONU;
- presidiu o comitê contratado pela ONU que determinou que Israel cometeu genocídio em Gaza.
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“O compromisso de Navi Pillay com os princípios jurídicos universais e sua firme bússola moral são constantes ao longo de sua extensa carreira. Nascida em uma família de origem tâmil indiana, durante o apartheid, em Durban, na África do Sul, Pillay tornou-se advogada e pioneira no campo jurídico, enfrentando a profunda discriminação estrutural, a segregação e a exclusão”, afirmou Frydnes.
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Frydnes afirmou que a premiação à jurista sul-africana é “uma mensagem àqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional”. A fala pareceu ser uma alfinetada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que faz investida contra instituições multilaterais e internacionais, como o Tribunal Penal Internacional —o qual Pillay fez parte nos anos 2000.
O norueguês não foi o único a se referir ao líder norte-americano. Após saber que venceu o Nobel da Paz, Pillay brincou, de forma irônica, sobre dividir o Nobel da Paz com Trump. Ela também se disse surpresa com sua laureação e discursou em defesa dos direitos humanos. Veja mais abaixo a repercussão de sua vitória.
Pillay foi a 21ª mulher a ser laureada com o Nobel da Paz, de um total de 144 vencedores. Ela tem uma carreira de cinco décadas como advogada e juíza (leia mais abaixo). Além de uma medalha, a jurista também receberá 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6 milhões).
Pillay não sabia que havia sido vencido o Nobel da Paz no momento em que o prêmio foi anunciado, segundo Frydnes. Geralmente, o comitê norueguês costuma ligar para o laureado antes do anúncio.
Atuação jurídica
Navanethem Pillay começou sua carreira jurídica nos tribunais da África do Sul na época do apartheid, sistema de segregação racial que dividia a população sul-africana por cor de pele e reservava a maior parte dos direitos políticos e civis à minoria branca. O regime segregacionista ocorreu entre as décadas de 1940 e 1990 no país africano.
O Congresso Nacional Africano (CNA), partido que liderou a luta contra o regime, descreve-a como uma ativista anti-apartheid cuja trajetória se confunde com a história da libertação do país.
Pillay garantiu que Nelson Mandela e outros presos políticos tivessem acesso a um advogado nas prisões sul-africanas na década de 1970. Por conta de sua atuação contra o apartheid, ela foi nomeada por Mandela à Suprema Corte da África do Sul, o que a tornou a primeira mulher não branca a integrar o mais alto tribunal do país.
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A partir de 1995, sua carreira se internacionalizou. Ela atuou como juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI), uma corte independente que julga crimes contra humanidade e crimes de guerra, e na Corte Internacional de Justiça (CIJ), principal tribunal da ONU e que resolve disputas entre Estados e preserva o direito internacional.
Ela também presidiu o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado para julgar os responsáveis pelo genocídio de 1994 naquele país africano. O julgamento desse caso foi considerado pioneiro e fez com que o estupro pudesse ser considerado um crime de guerra.
Entre 2008 e 2014, Pillay ocupou o cargo de Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, a principal autoridade da instituição multilateral dedicada a acompanhar violações cometidas por governos no mundo inteiro.
Mais recentemente, Pillay presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o território palestino ocupado, Jerusalém Oriental e Israel, contratada pela ONU, que determinou que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza durante os dois anos da guerra contra o grupo terrorista Hamas.
Repercussão ao Nobel da Paz 2026
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o Nobel da Paz 2026 é uma homenagem a todos aqueles que trabalham para defender e fazer valer o direito internacional e os direitos humanos e que Pillay demonstrou que a força da lei deve prevalecer sobre o uso da força no âmbito mundial.
O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, afirmou que o Nobel da Paz a Pillay é “uma vitória coletiva dos direitos humanos e da justiça”.
O governo de Israel, que rejeita veementemente a acusação de genocídio em Gaza, criticou a premiação a Pillay e acusou o Nobel da Paz de incitar “ódio anti-Israel”.
Trump repostou em suas redes sociais um comentário crítico a Pillay, em que um internauta a chamou de “‘hater’ declarada dos EUA e de Israel” e sem credibilidade, além de desdenhar da relevância do Comitê do Nobel.
A presidente do Tribunal Penal Internacional (TPI), Tomoko Akane, parabenizou Pillay pelo Nobel da Paz. A procuradora-geral adjunta do TPI, Nazhat Shameem Khan, que a premiação é “uma homenagem aos direitos humanos”.
O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, também parabenizou Pillay e disse que a jurista “tem um compromisso vitalício com a Justiça”.
Recado a Trump?
Perguntado por uma jornalista se a premiação a Navi Pillay foi um recado para o mundo, o presidente do Comitê Norueguês do Nobel confirmou e disse que a premiação a Pillay foi “uma mensagem àqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional”.
“Esta é uma mensagem de que o direito internacional e suas instituições são fundamentais para um mundo mais pacífico. Portanto, esperamos que este prêmio também fortaleça as instituições e as pessoas, não apenas Navi Pillay, mas especialmente ela. Esta é uma mensagem para aqueles que não respeitam este tribunal. Com certeza. É uma mensagem para aqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional, o sistema internacional baseado no Estado de Direito e suas instituições. Sem dúvida nenhuma”, afirmou Jørgen Watne Frydnes.
Ao todo, 287 candidatos foram indicados para o prêmio deste ano, incluindo 208 pessoas e 79 organizações, segundo o comitê do Nobel. No entanto, ninguém sabe quem eles são porque a lista de indicados é mantida em sigilo por 50 anos dentro de um cofre no porão do Instituto Nobel da Noruega, em Oslo.
O prêmio é escolhido pelo Comitê Nobel Norueguês, que é formado por cinco pessoas nomeadas pelo Parlamento da Noruega. O comitê, no entanto, não têm nenhum vínculo com o governo norueguês. Seus membros são frequentemente, mas não sempre, políticos aposentados.
Novamente, não deu para Trump
Trump, que é fascinado pelo Nobel da Paz, novamente não foi laureado neste ano. Ele voltou a defender sua candidatura nesta semana ao dizer que “impediu a destruição total do mundo”.
Em 2025, ele pressionou o comitê norueguês para vencer o prêmio sob a alegação que havia terminado oito guerras, mas também não venceu. A Casa Branca, inclusive, fez uma campanha institucional para que Trump vencesse o Nobel.
Em janeiro deste ano, o presidente norte-americano enviou uma carta ao governo da Noruega em que culpou o país por não ter vencido e disse “não se sentir mais obrigado a pensar apenas na paz”.
A vitória de Corina Machado em 2025 foi atribuída justamente à influência de Trump por ocorrer em meio à campanha de pressão contra o regime Maduro, que culminou meses depois com uma operação militar norte-americana em Caracas que depôs o ditador. Leia mais abaixo.
Polêmica com Nobel da Paz 2025
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A política María Corina Machado, líder da oposição ao chavismo na Venezuela, venceu o Nobel da Paz de 2025. O Comitê do Nobel destacou sua luta pela democracia e pelos direitos humanos na Venezuela do regime Maduro.
Sua premiação, no entanto, foi rapidamente envolta em uma polêmica que teve o presidente dos EUA, Donald Trump, como um dos pivôs. Corina Machado deu sua medalha do Nobel da Paz ao presidente norte-americano após ele tê-la pressionado a fazê-lo e também em meio a uma investida da líder opositora venezuelana para assumir o poder na Venezuela com a ajuda dos EUA.
Apesar do gesto, Corina Machado foi preterida pela vice de Maduro, Delcy Rodriguez, para ficar no poder após a ação militar que derrubou Maduro.
(Fonte:G1)
