📅 Publicado em 07/07/2026 08h30✏️ Atualizado em 07/07/2026 08h32
No Dia Mundial do Chocolate, celebrado nesta terça-feira (7), a relação de Larissa Ribeiro com o ingrediente vai muito além do empreendedorismo. CEO e chocolatier da Aorô Chocolates, ela conta ao Correio de Carajás sobre como o chocolate a levou a encontrar seu verdadeiro propósito profissional. O produto também fortaleceu os laços familiares, impulsionou produtores rurais da região de Carajás e a fez descobrir uma versão de si mesma que até então desconhecia.
O caminho, no entanto, começou de forma despretensiosa. A história da marca nasce a partir do interesse do esposo de Larissa, Silvio Angelo Rabelo, em agregar valor à produção agrícola da família. A ideia era transformar o cacau em chocolate, ampliando as possibilidades de renda da família.
Enquanto Silvio pesquisava técnicas e fazia os primeiros experimentos, Lari acompanhava tudo à distância. Naquele momento ela não imaginava que, anos depois, assumiria a operação de sua própria fábrica.
Leia mais:“Eu tinha prometido para a minha mãe e para o meu marido que jamais trabalharia com alimentos. Via aquilo apenas como um projeto para ajudar meu sogro. Fazia os vídeos, criava o Instagram, visitava parceiros, mas fazia de tudo para não entrar na produção”, relembra a chocolatier.
Os primeiros testes eram totalmente artesanais. Sem equipamentos específicos, Silvio passava horas pilando pequenas quantidades de cacau para entender como o ingrediente se comportava e descobrir as melhores combinações de sabores. O ponto de virada foi durante um curso de beneficiamento de cacau promovido pela Secretaria Municipal de Agricultura. Lá, o casal descobriu que um moedor de pimenta-do-reino poderia substituir o pilão e acelerar a produção de maneira significativa.
Assim, o processo, que antes levava cinco horas para 100 gramas, passou a render cerca de três quilos de chocolate em apenas uma hora, permitindo que o projeto desse um salto de produtividade.
Mesmo assim, a família percebeu que estruturar uma fábrica exigiria investimentos e dedicação muito maiores do que imaginavam e mudanças foram necessárias. Enquanto Silvio passou a se dedicar às vendas e à compra de equipamentos, Larissa assumiu a produção. Mas, apesar de bem intencionada, a transição não foi simples.
Acostumada apenas ao chocolate feito no pilão, Lari viu o primeiro teste nas máquinas fracassar. Para se aperfeiçoar, buscou capacitação na Escola Indústria do Senai, em Igarapé-Miri. Lá ela aprender a lidar com a matéria prima melindrosa e aprofundou os conhecimentos ao lado de outros chocolateiros paraenses.
Para Lari, foi justamente nesse processo que o chocolate deixou de ser apenas um produto e passou a transformar sua própria trajetória.
“Passei de alguém que dizia que nunca abriria um negócio de alimentos para encontrar o propósito e o crescimento que sempre busquei. O chocolate também me deu o protagonismo que eu queria desde os 16 anos”.

CHOCOLATE ENSINA
Ao refletir sobre o que o chocolate a ensinou, Larissa conta que o aprendizado não aconteceu apenas na técnica. Ao longo dos anos, percebeu que produzir o ouro marrom exigia desenvolver características que não faziam parte de sua personalidade.
Impaciente, multitarefas e acostumada a resolver várias demandas ao mesmo tempo, ela precisou aprender a desacelerar e respeitar o ritmo do processo.
“O chocolate exige precisão e atenção total. Ele mostra os nossos lados mais difíceis, mas também ensina resiliência. Ontem mesmo uma coisa deu errado e eu chorei bastante. Ao mesmo tempo, ele me deu uma rede de apoio maravilhosa”.
Além da transformação pessoal, ela destaca que a empresa também realizou sonhos da família. A mãe, Simei Alves, passou a trabalhar na indústria, o sogro conseguiu avançar na verticalização da produção de cacau e os produtores parceiros passaram a compartilhar o crescimento da marca.
MERCADO MARABAENSE
Quando questionada sobre o mercado de chocolates artesanais em Marabá e na região, Larissa destaca o grande potencial de expansão. Ela acredita que muitos consumidores ainda estão construindo uma cultura de valorização dos produtos locais, embora perceba uma mudança gradual impulsionada por empórios de produtos naturais. Pessoas que procuram alimentos com sabores mais próximos da matéria-prima original também fazem parte dessa evolução.
É em meio a esse momento de expansão que a Aorô Chocolates acumula participações em festivais, premiações e amplia o portfólio de produtos. Entre as novidades está o chocolate ao leite produzido sem ingredientes de origem animal. Embora todos os produtos da marca sejam veganos, Larissa afirma que prefere defini-los como inclusivos, para que qualquer pessoa, independentemente de restrições alimentares, sinta-se acolhida.
“Olhar para trás e ver tudo o que sonhamos na época do pilão se tornando realidade parece surreal. Às vezes até assusta de tanta coisa boa acontecendo”, destaca a CEO.
Provocada a refletir sobre a trajetória da empresa, Larissa faz questão de dividir os resultados com quem construiu essa história desde o início. Ela cita o esposo, a mãe, os sogros Rivelino e Conceição Rabelo, a mãe, Simei Alves, e também os produtores de cacau Cláudio Kajima, de Paragominas, Lourival Pimentel, de São Domingos do Araguaia, e João Evangelista, do Tuerê, em Novo Repartimento, agricultor que soma 16 premiações e conquistou uma delas em parceria com a Aorô Chocolates.
Sem a coragem de embarcar em um mar desconhecido, e sem a rede de apoio para avançar nessa empreitada, a história de Lari com o chocolate poderia ser diferente. Por ter arriscado, estudado e se aventurado nessa odisseia, hoje ela é referência no mercado paraense. E também para jovens confeiteiras que estão iniciando a lida com o chocolate.
Chocolate também impulsiona os sonhos de Roseane Sampaio
Apaixonada por doces desde a infância, a professora de inglês Roseane Sampaio Marques de Souza, de 21 anos, encontra no chocolate muito mais do que uma fonte de renda extra. À frente da loja online Rose’s Bombons, ela vê na confeitaria um caminho para realizar sonhos e fortalecer os vínculos com a família, além de preservar suas memórias de infância.
A relação com o ingrediente, segundo ela, começa muito antes de transformar bombons e brownies em negócio.
Criada em São João do Araguaia, Rose guarda na memória as Páscoas em que acompanhava uma tia na preparação de ovos de chocolate e bombons distribuídos gratuitamente para a comunidade. Ainda criança, ajudava a derreter o chocolate, embalar os doces e, como ela mesma brinca, aproveitava para ‘beliscar bastante’ durante o processo.
“O chocolate sempre esteve presente na minha vida. Eu ajudava no que podia, mexia nas panelas, embalava os bombons e adorava participar de tudo. Acho que foi ali que começou a minha paixão”.
Anos depois, a confeitaria voltou a fazer parte da rotina da família quando a irmã passou a vender bombons para complementar a renda durante a faculdade. Rose ficou responsável pelas vendas na escola e os colegas rapidamente passaram a identificar os produtos como “os bombons da Rose”. O apelido atravessou o tempo e acabou dando origem ao atual nome da marca.
Depois que a irmã interrompeu a produção para se dedicar aos estudos, Rose decidiu retomar o projeto. Em 2025 ela transformou a antiga ideia em uma loja online no Instagram, trazendo de volta os bombons e incorporando brownies ao cardápio. O objetivo inicial era conquistar uma renda extra, mas a experiência acabou ganhando um significado muito maior.
“A loja começou como uma renda extra, mas acabou se tornando uma forma de acreditar mais nos meus sonhos. Foi graças aos bombons, aos brownies e à confeitaria que consegui realizar muitas coisas e passei a enxergar meu futuro com mais confiança”.

APRENDEU OBSERVANDO
Trabalhar com chocolate não é fácil e nem simples. Com Rose, o aprendizado aconteceu de forma gradual. Ela conta que observava a tia e a irmã na cozinha, depois pesquisou receitas na internet e repetiu os testes até encontrar o resultado desejado. Assim ela desenvolveu o próprio modo de produzir.
Durante a pandemia, a paixão pelos brownies se intensificou e deu início a uma sequência de experiências que ajudaram a construir a receita utilizada atualmente. Rose conta que muitas tentativas deram errado antes de alcançar o ponto ideal. Aos poucos, foi adaptando as receitas aos ingredientes disponíveis na cidade e acrescentando características próprias aos produtos.
Questionada sobre o que mais gosta de fazer dentre todas as etapas da produção, ela garante que a decoração é a que mais desperta seu entusiasmo. Ainda assim, ela afirma que a maior recompensa acontece quando percebe a reação de quem recebe os doces, seja como presente, mimo ou conforto em momentos simples do cotidiano.
“Eu gosto muito da parte da decoração, mas o melhor é quando o cliente fica feliz. Saber que um doce pode fazer parte de um presente ou melhorar o dia, ou a TPM de alguém, é o que mais me motiva”.
ALUNA DO CHOCOLATE
Ao longo de sua trajetória, Rose percebeu que o chocolate também se tornou uma ferramenta de aprendizado pessoal. Segundo ela, a confeitaria ensinou a desenvolver paciência, persistência e disciplina, qualidades fundamentais para aperfeiçoar as receitas e superar os desafios de quem empreende.
Além dos sonhos realizados, Roseane associa o chocolate às memórias afetivas da família. Ela conta que mantém uma tatuagem de um fruto do cacau como homenagem à avó, lembrança do pé de cacau que existia na antiga casa da família e que simboliza a conexão construída desde a infância com a cozinha, os doces e as pessoas que marcaram sua história.
“Quando penso em chocolate, penso na minha família. Tenho até uma tatuagem de cacau que me lembra a minha avó. Sempre cresci cercada por essas referências de cozinha, carinho e de fazer tudo com muito cuidado”.
