Correio de Carajás

Névoa mental: entenda a sensação de ‘cabeça confusa’ que muitas mães relatam

Especialistas explicam por que a dificuldade de concentração e os esquecimentos são comuns na maternidade, quais são as causas e quando é preciso procurar ajuda

Imagem conceitual de uma mulher com turbante amarelo, dividida por um rasgo vertical, olhando para lados opostos.
Névoa mental materna é a sensação de mente confusa que muitas mulheres relatam durante a gestação e após o nascimento do bebê. — Foto: Freepik
✏️ Atualizado em 23/02/2026 11h07

Entre mamadas, noites mal dormidas e a rotina acelerada do dia a dia, muitas mães percebem que algo mudou: a memória falha, o raciocínio parece mais lento e tarefas simples exigem um esforço inesperado. A sensação, conhecida como “névoa mental”, costuma surgir na gestação e no pós-parto e desperta uma dúvida comum: por que a mente parece não funcionar como antes da maternidade?

É importante entender que a névoa mental materna vai além do cansaço — ela envolve alterações hormonais, sobrecarga mental e reorganização cerebral.

A seguir, veja as principais causas, estratégias para lidar com essa sensação e quando é indicado procurar ajuda médica para preservar a saúde física e emocional neste período de transformações intensas.

Leia mais:

O que é a névoa mental materna?

 

A névoa mental materna (ou mom brain, em inglês) é a sensação de que a mente não responde como antes, durante ou após a gravidez. Muitas mulheres relatam esquecimentos mais frequentes, dificuldade de manter a atenção e a impressão de que tarefas simples passaram a exigir mais esforço.

Essa sensação de mente confusa vai além do cansaço causado pela falta de sono e está associada a mudanças biológicas no corpo e no cérebro.

Segundo a neurologista Elisa de Paula França Resende, pesquisas mostram que, durante a gestação e no pós-parto, o cérebro feminino passa por uma reorganização natural. Áreas relacionadas à memória e à atenção podem ter redução temporária de atividade, enquanto regiões ligadas às emoções e ao vínculo afetivo se tornam mais ativas, fortalecendo a conexão com o bebê.

Entre os principais sintomas desse nevoeiro mental, estão:

  • Esquecimentos frequentes, como perder objetos ou esquecer compromissos.
  • Dificuldade para manter o foco em uma conversa ou atividade.
  • Sensação de pensamento mais lento.
  • Distração frequente.
  • Dificuldade para lidar com várias demandas ao mesmo tempo.
  • Sensação persistente de “mente confusa” ou excesso de demandas.
  • Irritabilidade ou maior sensibilidade emocional.

 

Quanto à duração dos sintomas, a maioria das mulheres apresenta melhora ao longo de semanas ou meses, mas esses desconfortos podem persistir até um ano ou mais em casos relacionados à depressão pós-parto.

De acordo com a ginecologista e obstetra Ana Paula Beck, fatores que podem prolongar os sintomas incluem idade materna avançada, complicações médicas na gestação, falta de rede de apoio, histórico psiquiátrico e eventos estressantes durante a gravidez e no pós-parto.

A névoa mental pode aparecer na gestação e também no pós-parto — Foto: Freepik
A névoa mental pode aparecer na gestação e também no pós-parto — Foto: Freepik

Quais são as causas?

 

A névoa mental materna está ligada a diversas mudanças biológicas e emocionais comuns ao período de adaptação à maternidade. As principais causas são:

Privação do sono

O sono fragmentado e os despertares constantes nos primeiros meses após o parto afetam diretamente o desempenho mental. Sem descanso suficiente, o cérebro pode ter mais dificuldade para organizar informações, manter a atenção e reter memórias, o que torna os esquecimentos frequentes.

Sobrecarga mental

A chegada do bebê traz uma rotina cheia de novas tarefas, cobranças internas e uma demanda quase constante por atenção. Essa sobrecarga física e mental pode elevar os níveis de estresse e comprometer a concentração, tornando os lapsos de memória e a sensação de desorganização mais frequentes.

Alterações hormonais

Durante a gravidez e após o parto, o organismo feminino passa por oscilações significativas de hormônios como estrogênio, progesterona, prolactina e cortisol. Essas flutuações hormonais interferem na dinâmica do cérebro, podendo afetar a memória, a capacidade de foco e o equilíbrio emocional.

Reorganização cerebral

O cérebro materno passa por adaptações naturais nesse período. Regiões associadas ao afeto e à percepção emocional ficam mais estimuladas, já áreas ligadas à memória e à atenção podem ter atividade temporariamente reduzida, contribuindo para a sensação de mente mais lenta.

Outras condições de saúde

Além da gestação e após o parto, outras condições podem provocar a sensação de nevoeiro mental, como infecção por covid-19, hipotireoidismo, depressão, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e anemia.

Névoa mental na menopausa

 

Além da gravidez e do pós-parto, o climatério (período de transição para a menopausa) é outra fase da vida da mulher em que a névoa mental pode se manifestar.

Durante essa transição hormonal, a queda nos níveis de estrogênio e outras alterações endócrinas impactam áreas do cérebro ligadas à memória, à atenção e ao raciocínio. Como consequência, podem surgir esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração e sensação de pensamentos mais lentos.

Além das mudanças hormonais, alterações no sono, ondas de calor, ansiedade e variações de humor também podem afetar o desempenho cognitivo, tornando a sensação de mente confusa ainda mais perceptível nessa fase.

Esses sintomas podem gerar frustração, insegurança e até atrapalhar tarefas do dia a dia ou a tomada de decisões. Por isso, é fundamental buscar acompanhamento médico durante a menopausa. Um profissional de saúde pode orientar sobre formas de aliviar os sintomas, ajustar hábitos e oferecer suporte para que esse período seja mais equilibrado e saudável.

Estratégias para lidar com a névoa mental

 

Não existe um medicamento específico para tratar a névoa mental materna. De acordo com a neurologista Elisa, algumas estratégias podem ser indicadas para a reabilitação da memória, da atenção e da clareza mental, melhorando a rotina e a qualidade de vida.

Entre elas, estão:

  • Exercícios físicos regulares: melhoram a circulação cerebral, o humor e a clareza mental.
  • Alimentação saudável: realizar refeições equilibradas e manter a hidratação em dia contribui para o funcionamento cerebral.
  • Sono adequado: sempre que possível, é importante aproveitar cochilos curtos e dividir os cuidados com o bebê para que o cérebro se recupere.
  • Acompanhamento psicológico: a terapia pode ajudar a organizar pensamentos, reduzir a sobrecarga emocional e identificar sinais de ansiedade ou tristeza que aumentam a sensação de mente confusa.
  • Ter uma rede de apoio estruturada: dividir as responsabilidades reduz a sobrecarga mental.
  • Organizar a rotina: criar listas ou configurar lembretes ajuda a lembrar tarefas importantes, diminui a sensação de confusão e torna o dia a dia mais tranquilo.

 

Quando procurar ajuda?

 

Vale destacar que esquecimentos ocasionais e dificuldade de concentração podem fazer parte das adaptações naturais da maternidade, principalmente no pós-parto. No entanto, é essencial ficar atento aos sinais de alerta, quando a sensação de confusão mental se torna constante, intensa ou começa a comprometer tarefas básicas da rotina.

De acordo com a ginecologista e obstetra Ana Paula, é indispensável procurar atendimento médico quando os sintomas são intensos, persistentes ou interferem no cuidado de si mesma ou do bebê. A especialista destaca que a presença de pensamentos suicidas ou de autoagressão exige avaliação clínica imediata e atendimento urgente.

Apesar de ser geralmente temporária, a névoa mental materna pode comprometer a qualidade de vida de muitas mulheres. Contar com profissionais de saúde ajuda não apenas a tratar os sintomas, mas também a cuidar do bem-estar emocional e da saúde mental. Esses especialistas oferecem orientação, apoio e estratégias para que mães e gestantes possam atravessar esse período com mais equilíbrio e confiança.

Dúvidas frequentes

 

O que é a névoa mental na maternidade?

É a sensação de mente confusa que muitas mulheres relatam durante a gestação e após o nascimento do bebê. Essa fase é marcada por lapsos de memória, dificuldade de concentração e sensação de pensamento mais lento.

Por que a névoa mental acontece após o parto?

A névoa mental surge devido a alterações hormonais, reorganização do cérebro, privação de sono e sobrecarga física e emocional associadas à maternidade.

Quais sinais indicam o nevoeiro mental?

É comum ocorrer esquecimentos frequentes, dificuldade de manter o foco, sensação de cabeça “nublada”, maior distração e dificuldade para realizar várias tarefas ao mesmo tempo.

Como aliviar ou reduzir os efeitos da névoa mental?

Entre as estratégias indicadas, estão: dar prioridade ao sono sempre que possível, planejar tarefas com listas ou alarmes, focar em uma atividade por vez, manter alimentação equilibrada, praticar exercícios leves, contar com apoio de familiares ou amigos e, se necessário, buscar acompanhamento psicológico.

Quanto tempo dura a névoa mental materna?

A duração varia de mulher para mulher. Para algumas, os sintomas diminuem gradualmente nos meses seguintes ao parto. No entanto, para outras, a situação pode se prolongar por até dois anos ou mais, principalmente se a rotina continuar intensa e o sono permanecer interrompido.

(Fonte: G1/Por Samantha Cerquetani)