Correio de Carajás

Náthaly Rosa, a marabaense que escreveu o sonho da Medicina nas paredes de casa

A parede coberta de anotações revela a resiliência de Nathaly durante os anos como vestibulanda de Medicina - Fotos: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo

Perseverança, substantivo feminino, qualidade de quem insiste mesmo quando o caminho fica comprido. Palavra que ajuda a contar a história da marabaense Náthaly Rosa de Castro Rocha, 19 anos, caloura em Medicina.

Quando criança, sonhava em vestir o jaleco e usar o estetoscópio. Física, química e biologia foram suas matérias preferidas na escola e, durante quatro anos, ela encarou a extensa prova do Enem com um único objetivo: alcançar uma nota suficiente para ingressar em um dos cursos mais disputados do país.

Apesar da rotina pesada de vestibulanda, Nathaly nunca abandonou os livros de fantasia e a dança

Na última semana de janeiro de 2026, veio a nota de 865,5 (já com bônus regional). Com ela, Nathaly foi aprovada em três instituições: Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Universidade do Estado do Pará (Uepa) e Universidade Federal do Pará (UFPA).

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“Foi inesperado entrar em três. Eu dizia pra minha mãe que só queria entrar. Mesmo que fosse em último e em qualquer lugar do Brasil, eu ia dar um jeito de ir. Quando vi o resultado só consegui sentir alívio, tirei um peso das costas”, diz contente, à reportagem deste CORREIO.

A confissão é feita diante da mesa de estudos onde passou boa parte dos últimos anos, revisando diariamente o conteúdo estudado pela manhã e à tarde no cursinho.

“Eu tive uma rotina de estudos pesada em 2025. Eu saía de casa às 7 da manhã e voltava às 10 da noite. Era cursinho de manhã, cursinho à tarde, almoçava no ônibus às vezes, ia para a sala dos professores para estudar mais”.

Na parede em frente à cadeira de estudos, inúmeros post-its, folhas de papel e cartolinas se acumulam. No ‘vision board’ (quadro visual) ela anotou a tabela periódica, fórmulas matemáticas, escolas literárias e a geografia do Brasil.

Na cabeceira de sua cama escreveu ‘REFICLOFAGE’, um mnemônico usado para memorizar as categorias taxonômicas: Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie. Nem o banheiro escapou de seus apontamentos: “Onde tinha um espaçozinho tinha uma anotação minha”.
Uepa, um sonho realizado

Das três universidades em que foi aprovada, a Uepa é a que cativou o coração de Nathaly. O amor começou na primeira visita ao campus de Marabá. “Conseguir entrar é a realização de um sonho de vida”, afirma, sem esconder a satisfação.

Além da própria persistência, o apoio dos pais é um dos pilares que sustentam seus anseios acadêmicos. Ela garante que não foi pressionada a conquistar a aprovação no curso e fala com gratidão da mãe, Rosilene, e do pai, Irismar, que sempre deram o melhor de si para verem a filha formada.

“Eu sou a caçula de sete filhos, tive a oportunidade de crescer sozinha com eles. Acho que todos os pais querem dar aos filhos tudo aquilo que não puderam ter e eu sou muito grata a eles, me ensinaram que os estudos são a melhor maneira de vencer na vida”.

Não bastasse ser uma filha dedicada e amorosa, Nathaly é curiosa por natureza, leitora voraz e bailarina. Na escola sugava dos professores o máximo de conhecimento que pudessem lhe ofertar; nos livros de literatura encontra o descanso e o alívio mental das longas horas de estudo; na dança – seja na aula ou na igreja – é onde encontra descanso para a alma e o coração.

Agora, Nathaly se prepara para uma nova vida: a de estudante de medicina. Os livros usados no vestibular sairão da mesa e serão doados. Em breve, cadernos, paredes e a própria casa devem ganhar novas anotações, desta vez sobre anatomia, fisiologia e genética.

Logo, a menina que ama séries médicas e quer ser cirurgiã geral vai colocar a mochila nas costas e cruzar os portões da Uepa, lugar que será sua segunda casa pelos próximos anos.