Correio de Carajás

Na Chácara Emaús, homens encontram abrigo, disciplina e novos começos

Centro fundado em 2009 acolhe gratuitamente homens de diferentes regiões e aposta na espiritualidade e na vida comunitária como caminhos de reabilitação

Celso já finalizou o tratamento e agora se prepara para voltar para os braços das filhas/ Fotos: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo

Como centro de desintoxicação de dependentes químicos, a Chácara Emaús recebe internos de diferentes localidades. Há pessoas de Altamira, Anapu, Parauapebas e até de municípios maranhenses como Imperatriz e São Luís.

Fundado em maio de 2009, o centro acolhe gratuitamente homens a partir dos 18 anos que escolhem se recuperar do uso de drogas, álcool e outros vícios. Pessoas como Celso Ramos da Silva, de 59 anos.

Com o semblante tranquilo, mas discreto por estar coberto do suor do trabalho, ele conversou com a reportagem deste CORREIO em uma manhã de janeiro cheia de sol, mesmo em pleno inverno amazônico. Enquanto cuidava dos ovos e dos pintinhos abrigados na chocadeira, Celso compartilhou alguns recortes de sua história.

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“Estou aqui há nove meses e 22 dias, já concluí minha fase de interno e estou dando um tempo para terminar de me reabilitar”, confessa. Ele integra o grupo de cerca de 10% dos internos que chegam ao fim do tratamento, segundo a estimativa do padre Mário José Maestri, coordenador do centro.

Na Chácara Emaús, os internos têm uma rotina diária que mescla oração e trabalho

Com um sorriso que esconde as dores de quem já sofreu muito na vida, Celso conta que é natural de Goiás, mas se considera filho de Marabá por viver no município desde 1972. Educador de profissão, morava no bairro Cidade Jardim antes de ser conduzido à chácara pelas filhas.

“Eu vim rebelde, mas me adaptei ao clima daqui e fui bem acolhido graças ao padre Mário. Ele é um excelente mestre e me fez me tornar outra pessoa”, garante.

Em vias de retomar o controle da própria vida, Celso afirma que foi renovado pela direção espiritual que encontrou na instituição. Antes, o educador não frequentava a Igreja. Era apenas “do mundo”. Foi pela palavra de Deus que se tornou quem é hoje, alguém desintoxicado e pronto para retornar aos braços das filhas e ao convívio social.

“Quero voltar a trabalhar, porque, como diz o NA (Narcóticos Anônimos), se você não ocupar a mente, volta para o abismo. Eu não quero que isso aconteça comigo nem com os outros irmãos e agradeço muito ao padre pelo que fez por mim”.

O tratamento que possibilitou a reabilitação de Celso, além da espiritualidade, é fundamentado na vida em comunidade e na laborterapia (trabalho como terapia). Na chácara, os internos acordam cedo ao som de músicas religiosas, tomam café da manhã e seguem para a capela, onde vivenciam o momento de oração e orientação.

Horas depois, já estão na labuta, divididos entre o roçado, o cuidado com a horta, o pomar, repleto de pés de acerola, cajá, cupuaçu e açaí, além de um galinheiro. A casa é limpa e as refeições são preparadas. Antes do almoço, há um breve descanso e, depois dele, o trabalho na chácara é retomado.

No fim do dia, o grupo tem seu momento de lazer, refeição e tempo livre, seguido de outro período de oração e espiritualidade. Depois vem o jantar e, por fim, a hora de dormir. A rotina é regrada, e o trabalho terapêutico é inspirado na Fazenda da Esperança. Nesse processo, o tempo é o maior aliado dos internos, sendo o principal responsável pela desintoxicação.

“Meu lar é na Chácara Emaús”

O marabaense Raimundo Souza Lima, 42 anos, concluiu seu tratamento há dez anos, mas continua fazendo da Chácara Emaús a sua morada. “Quando passei por aquele portão pela primeira vez, senti que ia ficar aqui. Até tentei morar fora, mas não deu certo. Arrumei um emprego e o padre me acolheu aqui”, explica de forma simples e um tanto retraída.

Há 10 anos, Raimundo terminou seu tratamento, mas segue morando na chácara, seu verdadeiro lar

Antes de chegar ao centro, sua vida era marcada pelo trabalho e pelo consumo de álcool. Após perder o avô e presenciar uma tia ser abandonada pelo marido, Raimundo decidiu procurar ajuda.

Na instituição de desintoxicação, ele pôde redescobrir a fé, aprender a lidar com a terra e se preparar para retornar ao mercado de trabalho. Há oito anos, atua como colaborador em um posto de combustível, além de já ter exercido, por um período, a função de monitor na Chácara Emaús.

Homem de poucas palavras, resume sua experiência em uma frase: “O que me segura é a fé, a espiritualidade e o padre, que é um paizão para mim”.

Ao final da entrevista, Raimundo abre um sorriso de quem sente orgulho de si. Ele retorna à mesa onde estão o padre Mário e Cristiane Souza Rodrigues, coordenadora do centro e tesoureira da diretoria. Perto dali, a arara Broca, de ‘Brocada’ passeia. Cega, mas exigente, sabe que está próxima ao bebedouro e aguarda até que alguém coloque água em seu pote.

É Raimundo quem faz isso. Grato pela vida que construiu na Chácara Emaús, ele se integra ao cenário físico da instituição. Os dormitórios, o refeitório e o pátio, a academia e a biblioteca que leva o nome de Leonildo Rocha. A secretaria, a capela, o pomar, o galinheiro e a horta. Um lar repleto de promessas para aqueles que não têm mais para onde ir.