Correio de Carajás

Na Câmara, empresária denuncia que hospital da Fama em Marabá não tem condições de atendimento

Ela também acusa a unidade de ter falhado no atendimento a sua mãe, que faleceu dias depois, já em Belém

Mulher com cabelo castanho longo e camisa jeans azul olhando para o lado esquerdo.
Marinez Coimbra durante o seu discurso na tribuna da Câmara Municipal/ Fotos: Arquivo
Por: Da Redação
✏️ Atualizado em 06/03/2026 17h06

Em um discurso emocionado e contundente na tribuna da Câmara Municipal de Marabá, na quarta-feira (4), a empresária e pastora Marinez Coimbra denunciou o que chamou de precariedade do Hospital Central de Marabá (HCMB) — antiga Climec, hoje pertencente à cooperativa médica Unimed Fama — e acusou a unidade de falhas graves no atendimento que teriam contribuído para a morte de sua mãe, Inês Araújo Coimbra, no último mês de fevereiro.

Marinez relatou que sua genitora foi levada ao hospital na manhã de 9 de fevereiro com uma dor abdominal aguda e, após um atendimento que classificou como “moroso”, foi diagnosticada com a necessidade de uma cirurgia de urgência. No entanto, antes mesmo do início do procedimento cirúrgico, a paciente sofreu sete paradas cardíacas durante o processo de anestesia.

“Ela teve sete paradas cardíacas devido à inabilidade de entubá-la para que fosse oxigenada”, afirmou a empresária, que questionou a ausência de procedimentos de ventilação manual ou mecânica que poderiam ter evitado a complicação.

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Segundo o relato, Inês Coimbra já saiu do centro cirúrgico do HCMB em coma e, no dia seguinte, foi transferida em uma UTI aérea particular para o Hospital Beneficente Portuguesa, em Belém. A família arcou com os custos iniciais da transferência e do tratamento até que uma medida judicial obrigou a mesma Unimed Fama a cobrir as despesas.

Doze dias depois, em 24 de fevereiro, Inês faleceu em decorrência de uma septicemia e das complicações originadas no procedimento anestésico em Marabá.

“O que eu denuncio aqui hoje é que um centro cirúrgico tem que ter coisas básicas. Ouvi dos próprios dirigentes daquela casa: a casa não tem condições básicas de atendimento. Às vezes você quer um termômetro e não tem. Às vezes você quer um aparelho de eletrocardiograma e não tem”, declarou Marinez, que classificou o hospital como um “lugar de morte”.

O hoje Hospital Central, que é administrado pela operadora Unimed Fama

Um histórico de crises

A denúncia de Marinez Coimbra se soma a um longo histórico de polêmicas envolvendo o Hospital Geral de Marabá desde que a Federação das Unimeds da Amazônia (Fama) adquiriu a antiga Climec, em um processo concretizado em 2020. A unidade, que já foi uma referência na saúde privada do município, hoje acumula queixas de usuários.

Em março de 2022, um grupo de consumidores protocolou uma denúncia formal junto ao Ministério Público do Pará (MPPA), Ministério Público Federal (MPF) e Agência Nacional de Saúde (ANS), acusando a operadora de precarizar o atendimento, com falta de médicos especialistas e de insumos básicos, além de atrasos de mais de 90 dias no pagamento de prestadores de serviço.

Na época, o Laboratório Unimed, pertencente à então Unimed Sul do Pará (outra cooperativa), chegou a suspender o atendimento a beneficiários da Fama por inadimplência.

Em junho de 2024, o MPPA ajuizou uma Ação Civil Pública contra a Fama e o Hospital Unimed para garantir a presença de médicos especialistas em cinco áreas nos plantões de urgência e emergência, após uma fiscalização constatar que a equipe era insuficiente. Mais recentemente, em setembro de 2024, a Prefeitura de Marabá manteve uma penalidade contra a Federação, impedindo-a de licitar e contratar com o município por 12 meses devido à inexecução parcial de um contrato com a Fundação Casa da Cultura.

Apelo por investigação

Em seu discurso aos vereadores, Marinez Coimbra, que pertence a uma família pioneira em Marabá e cujo pai, Ernesto Coimbra, foi um dos fundadores do antigo Hospital Celina Gonçalves, fez um apelo à união da sociedade para enfrentar o que chamou de “ausência de responsabilidade”.

“Eu chamo para que possamos formar uma comissão de investigação que traga realmente uma obrigatoriedade jurídica para o fechamento deste lugar de morte que é o Hospital da Unimed Fama”, conclamou. Ela convocou a OAB, o Ministério Público, o Conselho Regional de Medicina, a Vigilância Sanitária e a própria Câmara Municipal a se juntarem na fiscalização.

A empresária também fez uma denúncia sobre a qualificação dos profissionais da UTI do hospital. “Hoje há, sim, em UTI, jovens que têm apenas 5 meses de formados. Você acha que um jovem de 5 meses de formado pode estar em uma UTI? A UTI da Unimed Marabá não tem responsável técnico, porque os responsáveis técnicos dali saíram. Pessoas de decência não vão assinar embaixo do que está acontecendo ali”, finalizou, sob aplausos dos presentes.

Versão do hospital

O Correio de Carajás procurou o Hospital Central e a Unimed Fama por meio do contato da senhora Cleire Oliveira, gestora hospitalar. Ela pediu que os questionamentos fossem enviados por escrito, por e-mail, procedimento adotado pela reportagem. Pedimos resposta detalhada sobre cada um dos itens citados pela senhora Marinez. A resposta veio em forma de nota, que publicamos na íntegra:

“Em atenção ao seu contato, visando esclarecer, informamos que foi instaurado procedimento interno de apuração técnica para análise do atendimento mencionado. Em uma avaliação preliminar, é possível afirmar que foram prestadas à paciente todas as medidas assistenciais cabíveis, com atuação da equipe multiprofissional e adoção dos protocolos médicos aplicáveis à situação apresentada.

Por se tratar de atendimento envolvendo dados sensíveis de saúde e informações protegidas por sigilo médico e pela legislação vigente, o hospital não pode divulgar detalhes clínicos, procedimentos específicos ou qualquer informação que permita a identificação ou exposição do quadro da paciente, em respeito à ética médica e aos direitos da família.

Entretanto, a instituição esclarece que preza pela qualidade e segurança assistencial, contando com profissionais devidamente habilitados e registrados em seus respectivos conselhos de classe. Nesse sentido, não procedem as afirmações de que médicos sem qualificação adequada estariam atuando na unidade.

Reforçamos que seguimos comprometidos com a segurança do paciente, a ética e a responsabilidade assistencial que orientam a atuação da instituição”.