Correio de Carajás

MPF teme relação entre poluição de rios na TI Mãe Maria e ferrovia da Vale

Laudos confirmam presença de metais pesados na água e de mercúrio em peixes; lideranças relatam doenças e criticam falta de transparência

Homem com luvas coletando amostra de água em rio dentro de uma floresta exuberante.
Indígenas já suspeitavam que seus rios, que desaguam em Marabá, estavam sendo contaminados
✏️ Atualizado em 24/02/2026 09h32

O Ministério Público Federal (MPF) enviou requisição urgente ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para que adotem medidas imediatas de comunicação com o povo indígena Gavião, da Terra Indígena Mãe Maria, em Bom Jesus do Tocantins, sobre a contaminação ambiental detectada no território no contexto de licenciamento da Estrada de Ferro Carajás, de responsabilidade da empresa Vale.

A requisição, expedida pela procuradora da República Gabriela Puggi Aguiar, estabelece que as autarquias realizem a divulgação dos dados de forma culturalmente adequada ao povo indígena. O MPF indica que sejam apresentadas providências de mitigação e compensação para a contaminação verificada, visando garantir a segurança alimentar e o uso dos recursos hídricos pelos indígenas.

A medida ocorre no âmbito do licenciamento das obras de duplicação da Estrada de Ferro Carajás (EFC), empreendimento da empresa Vale.

Leia mais:

Motivação e alarme social – A iniciativa foi tomada após reunião do MPF com lideranças indígenas, que relataram ter tomado conhecimento recente de registros de contaminação no território. Segundo as lideranças, o fato provocou grande alarme social nas aldeias.

Durante o encontro, no último dia 6, a comunidade indígena manifestou grande preocupação e abalo emocional diante de informações técnicas que atestaram a contaminação dos cursos d’água e de peixes por metais pesados, incluindo a bioacumulação de mercúrio.

Os indígenas relataram casos de adoecimento e falecimentos na comunidade, associando-os à degradação ambiental, e expressaram indignação pela ausência de esclarecimentos por parte da empresa, da Funai ou do ente licenciador.

Omissão e falhas no licenciamento – O MPF apontou à Funai e ao Ibama que os indígenas não tiveram registradas, no Plano Básico Ambiental (PBA), suas reclamações referentes aos programas de redução de ruídos e monitoramento da água. Além disso, os estudos de monitoramento não lhes foram apresentados, segundo relataram ao MPF.

A procuradora da República destacou que parecer do Ibama explicita a ausência de consulta efetiva aos indígenas. O documento técnico do órgão ambiental afirma a ausência de registro de reclamações, o que, segundo o MPF, “não se coaduna com a realidade já aferida”, tendo em vista que a comunidade relatou insatisfações sobre impactos como ruído e perda da qualidade da água que não foram consignadas nos documentos finais.

Dados do parecer técnico do Ibama – O parecer técnico que analisa o cumprimento das obrigações da licença de instalação nas locações que perpassam a Terra Indígena Mãe Maria confirma diversos problemas ambientais durante as obras, finalizadas em novembro de 2024:

* Qualidade da água: houve degradação da qualidade da água nos corpos hídricos interceptados pela ferrovia. O monitoramento apontou alterações em parâmetros como coliformes termotolerantes, turbidez e metais (ferro, alumínio, manganês e fósforo) em rios como o Mãe Maria, Jacundá e São Gregório. O Ibama observou uma tendência de acidificação dos cursos d’água e de redução do oxigênio dissolvido.

* Contaminação de peixes: o laudo aponta que o mercúrio foi detectado em todos os espécimes analisados e, em 18 de 86 amostras, a concentração ficou acima do padrão proposto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A bioacumulação foi elevada em espécies predadoras. Embora o relatório técnico sugira que o mercúrio pode não estar correlacionado diretamente à obra (por não ter sido quantificado na água e sedimento acima dos limites), o MPF exige esclarecimentos sobre essa bioacumulação. Também foram detectados níveis de alumínio e de ferro acima dos limites em pontos de amostragem de água superficial.

* Ruídos: o monitoramento identificou que, em diversos pontos, os níveis de pressão sonora ultrapassaram os limites normativos, influenciados pela passagem de composições ferroviárias e atividades construtivas.

NOTA DA VALE

A Vale informa que cumpriu com os programas de monitoramento ambiental, ações de controle e medidas mitigatórias em conformidade com a licença vigente para as obras de expansão da Estrada de Ferro Carajás, concluídas em 2024. A companhia reitera seu compromisso com o diálogo transparente com órgão licenciador e demais instituições envolvidas e o seu respeito às comunidades indígenas, permanecendo à disposição das autoridades competentes para prestar os esclarecimentos, que forem necessários.

A Reportagem do CORREIO enviou e-mail para a assessoria de Imprensa do Ibama e da Funai para que os dois órgãos se posicionassem sobre o resultado dos laudos e a temeridade do MPF, mas até a publicação desta notícia não houve retorno.