📅 Publicado em 29/01/2026 11h12
Dez árvores de mogno da Amazônia secaram em um intervalo de aproximadamente três meses em uma área pertencente à Polícia Federal, na Agrópolis do Incra, no Núcleo Cidade Nova, reservada para a futura construção da sede do órgão. Alguns desses exemplares têm mais de 40 anos. A principal suspeita é de anelamento, prática que interrompe a circulação de nutrientes e leva a árvore à morte.
O terreno abriga cerca de 30 mognos, palmeiras e outras espécies, formando uma mini floresta urbana. No início, havia a desconfiança de que as árvores teriam sido envenenadas ou aneladas. A reportagem apurou que a Polícia Federal, atualmente instalada em um prédio alugado e adaptado na Folha 17, tenta há anos liberar a construção de sua sede própria na Agrópolis do Incra, mas encontra impedimento justamente pela existência das dezenas de árvores protegidas no local.
A denúncia chegou ao CORREIO DE CARAJÁS por meio de um professor formador da Secretaria Municipal de Educação, que trabalha em frente à área. O espaço é protegido apenas por uma cerca de arame farpado, danificada em vários pontos, o que facilita o acesso de qualquer pessoa. O educador relatou que, no último trimestre de 2025, chamou sua atenção a presença de vasilhas plásticas colocadas na base de várias árvores. Meses depois, ao perceber que algumas começaram a secar, associou o fato aos recipientes e à possibilidade de envenenamento. Ele pediu para não ter o nome divulgado.
Leia mais:A área tem cerca de 7 mil metros quadrados e fica atrás do Hemocentro Regional de Marabá, da sede da Superintendência do Incra, ao lado da Justiça Federal e da Polícia Rodoviária Federal. As aproximadamente 30 mudas de mogno teriam sido plantadas no final da década de 1970, período em que o Incra ainda era denominado GETAT, Grupo Executivo das Terras do Araguaia e Tocantins.
Após a denúncia, a reportagem esteve no local e constatou que dez árvores não estavam sadias. Seis já haviam morrido completamente e outras quatro apresentavam morte parcial. A equipe procurou a Delegacia da Polícia Federal na Folha 17 para apresentar as imagens, mas não encontrou nenhum delegado disponível. O agente que estava na recepção demonstrou surpresa e afirmou que, possivelmente, a corporação ainda não tinha conhecimento da morte dos mognos.

Diante disso, o caso foi levado ao Ministério Público Federal, cuja assessoria de comunicação informou que a denúncia passou por triagem inicial para verificar a competência da instituição. Confirmada a atribuição federal, o procedimento será distribuído a um gabinete para início da apuração.
A promotora de Meio Ambiente do Ministério Público Estadual, Josélia Leontina de Barros Lopes, informou que repassou o caso à Secretaria Municipal de Meio Ambiente.
A Semma, por meio do chefe de fiscalização Mateus Rocha, enviou uma equipe ao local, incluindo uma engenheira florestal. A avaliação inicial apontou indícios de anelamento em algumas árvores, mas também foram encontrados vestígios de cupins. Segundo o fiscal, em outro caso envolvendo mognos na cidade foram identificados vasilhames e furos nos troncos, o que pode indicar envenenamento.
No caso da Praça do Mogno, como é conhecido o local onde as árvores morreram, na Agrópolis do Incra, a Semma informou que pretende isolar a área para avaliar se ainda há possibilidade de recuperação dos exemplares atingidos.
O mogno é uma das madeiras mais nobres do mundo, valorizada pela durabilidade, resistência a pragas e beleza estética, com tonalidades que variam do marrom-avermelhado ao rosado. É amplamente utilizado na marcenaria de alto padrão e na fabricação de instrumentos musicais, sendo classificado como madeira de lei.

No Brasil, o corte do mogno é proibido ou severamente restringido desde 2001, em razão do risco de extinção causado pela exploração predatória, especialmente na Amazônia. O IBAMA suspendeu autorizações de exploração comercial e qualquer derrubada ilegal configura crime ambiental, como forma de proteger a espécie, considerada vulnerável.
SAIBA MAIS
O anelamento em árvores é uma técnica que consiste na retirada de um anel da casca do tronco ou de um galho, interrompendo o fluxo da seiva elaborada, responsável por levar nutrientes das folhas às raízes.
