Correio de Carajás

Moda circular avança e brechós se consolidam como negócio sustentável em Marabá

Brechós estão em alta no mercado e têm ganhado espaço entre consumidores com produtos de “segunda mão”

Tendência da moda circular tem trazido inovação para o mercado de Marabá/ Fotos: Evangelista Rocha
Por: Milla Andrade

O mercado da moda passa por transformações impulsionadas por mudanças no comportamento do consumidor. A busca pelo reaproveitamento de peças, pela redução dos impactos ambientais e por produtos com preços mais acessíveis tem ampliado o espaço dos brechós no varejo formal. Inseridos no conceito de moda circular, esses estabelecimentos estimulam a reutilização das roupas e a ampliação do ciclo de vida dos produtos.

Em Marabá, esse modelo ainda está em processo de consolidação, mas já começa a ganhar visibilidade, acompanhando uma tendência observada em outras regiões do País.

É nesse contexto que a franquia Peça Rara se estabelece no município. A loja é administrada por Liliane Costa, advogada há 19 anos e empreendedora da moda circular há quase dois anos. A decisão de investir no setor surgiu da busca por novos desafios profissionais.

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Em entrevista ao Correio de Carajás, Liliane explica que a proposta da franquia chamou atenção por se tratar de um modelo ainda pouco explorado na cidade. “Sempre busquei coisas que não fossem comuns. O Peça Rara fugia do padrão de Marabá, porque nós ainda não tínhamos um grande brechó. Foi a busca por novidades”, afirma.

Proprietária da franquia em Marabá, Liliane destaca benefícios econômicos e sustentáveis

A operação da loja é baseada em uma curadoria criteriosa. Segundo a proprietária, todas as peças passam pela avaliação de duas pessoas responsáveis pela seleção. “Há muita cautela. As peças recebidas precisam estar em condição de novas ou seminovas, sem avarias e já higienizadas”, diz.

Ela destaca que a loja não realiza serviço de higienização. “Se a peça estragar, a loja precisa pagar o fornecedor”, pontua.

IMPACTO AMBIENTAL E RESULTADOS

Até o fim de 2024, o funcionamento era exclusivamente por consignação. Atualmente, a unidade também trabalha com a compra de lotes. No modelo consignado, o fornecedor recebe 50% do valor líquido após a venda. As peças ficam expostas entre 90 e 120 dias e, caso não sejam vendidas, entram em promoção. Persistindo a falta de saída, são devolvidas.

Em 2025, a rede Peça Rara recebeu o desapego de mais de 4 milhões de peças em todo o Brasil. Dados divulgados no Instagram oficial da franquia apontam que esse volume corresponde à economia de 18,2 bilhões de litros de água, 850 milhões de unidades de fertilizantes e pesticidas e 913 milhões de emissões de CO².

Em Marabá, as vendas ultrapassaram a marca de R$ 1 milhão, com a circulação de pouco mais de 20 mil peças. O acervo da loja reúne peças para diferentes perfis e faixas de renda. “Nossa peça mais barata custa R$ 2,99 e a mais cara chega a R$ 7.000. Temos peças para todos os bolsos”, conta.

Entre os produtos disponíveis estão marcas de luxo, como Chanel e Louis Vuitton, além de marcas populares. Bolsas e roupas de grifes conhecidas estão entre os itens mais procurados. “Uma peça que custa R$ 2.000 na loja original, aqui sai por no máximo R$ 300”, complementa.

Segundo a empresária, o acesso a esses produtos contribui para uma mudança na relação do consumidor com a moda. “As pessoas começam a perceber qualidade e durabilidade e passam a fazer escolhas mais conscientes”.

Clientes apostam em preços menores em peças de segunda mão

CONCEITO EM CONSOLIDAÇÃO NA CIDADE

Sergipana radicada em Marabá há 24 anos, Liliane avalia que a moda circular ainda está em processo de consolidação no município. “Muita gente já vem com essa consciência ambiental, mas a maioria ainda chega pelo preço. Eu mesma considero o valor um ponto forte na escolha”, reconhece.

Ela ressalta ainda que a moda circular reduz a necessidade de novos recursos naturais, já que se trata de um produto que existia e não demandou nova produção. As peças comercializadas na loja podem apresentar preços entre 30% e 40% inferiores aos praticados nas lojas de origem.

Um dos principais desafios, segundo Liliane, está na compreensão do conceito de brechó, ainda confundido com bazar. “O brechó é um negócio. Ele precisa gerar receita para o fornecedor e manter a estrutura da loja, que não é pequena. A função do brechó, além de fazer as peças circularem, é também se manter financeiramente”, explica.

As peças que não passam pela curadoria ou não são vendidas podem ser destinadas a bazares promovidos pela loja. “Tudo o que é vendido nesses bazares é revertido para projetos sociais”, completa.

Inaugurada há quase dois anos, a franquia Peça Rara amplia o alcance junto ao público

LIQUIDAÇÃO E ESTRATÉGIA COMERCIAL

Inserida no calendário do comércio local, a loja realiza um ‘Mega Sale’ com descontos de até 70%, entre os dias 8 e 14 de janeiro. “É um mês tradicional de promoções e o Peça Rara não fica fora disso”.

Durante o período, peças de marcas populares ganham destaque, como calças Levi’s por R$ 21 e itens da Carmani por R$ 30. “Com R$ 300, é possível renovar o guarda-roupa”, afirma acrescentando que esta é a maior liquidação realizada pela unidade em um ano e meio de funcionamento.

A rede de franquia Peça Rara conta atualmente com mais de 250 unidades em funcionamento no Brasil. No Pará, são quatro unidades, localizadas em Marabá, Parauapebas e duas em Belém. “Do Amazonas ao Rio Grande do Sul temos lojas. Só em Brasília são quase 20 unidades”.

Para Liliane, o crescimento do setor acompanha uma mudança global nos hábitos de consumo. À medida que o mercado second hand (de segunda mão) se expande, a expectativa é de que, a cada ano, mais pessoas busquem peças em brechós. “O mundo está buscando moda com propósito”, conclui Liliane.