📅 Publicado em 19/03/2026 08h49✏️ Atualizado em 19/03/2026 08h53
No coração da Amazônia paraense, uma operação de engenharia sem precedentes está em curso para desvendar um dos segredos mais bem guardados da Usina Hidrelétrica de Tucuruí: sua real capacidade de armazenamento de água. Com uma potência instalada de 8.370 Megawatts (MW), a usina, uma das maiores do planeta, é uma peça-chave no tabuleiro energético nacional. Saber com exatidão o volume de seu gigantesco reservatório é fundamental para otimizar a geração de energia e prevenir futuras crises de abastecimento.
Para responder a essa pergunta, uma força-tarefa tecnológica foi mobilizada. A missão, com conclusão prevista para meados de 2026, utiliza uma combinação de perfilamento a laser aéreo (LiDAR) e aerofotogrametria de altíssima resolução. Essa tecnologia permite criar um modelo digital tridimensional ultradetalhado da região, capturando imagens com uma precisão impressionante, onde cada pixel representa menos de 10 centímetros no solo.
O desafio geográfico é monumental. O reservatório, que se estende entre os municípios de Tucuruí e Marabá, é um complexo labirinto de água e terra, abrigando milhares de ilhas. A área total a ser mapeada é de 6.742 quilômetros quadrados, uma extensão superior à do Distrito Federal.
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Estratégia e logística
A complexidade da operação exigiu um planejamento estratégico minucioso. Os voos de mapeamento foram iniciados em novembro de 2025, aproveitando o período de estiagem, quando o nível do reservatório atinge seu ponto mínimo. Essa janela permite que o laser penetre áreas normalmente submersas, revelando o relevo do fundo do lago que fica exposto durante a seca. Essa abordagem inovadora supera uma dificuldade logística histórica, já que em períodos de cheia, a navegação de barcos para realizar a batimetria (medição de profundidade) nessas áreas rasas é imprecisa e arriscada.
A logística aérea é comparável a uma operação militar. O plano de voo, que já alcançou 84% de execução, contempla 375 faixas e um total de 250 horas de aerolevantamento para capturar aproximadamente 49.000 fotografias. Para contornar as condições atmosféricas adversas da região, os pilotos operam a um teto de voo baixo, de apenas 700 metros, no limite da capacidade da aeronave.
Com a fase aérea avançando, as equipes agora se preparam para a próxima etapa: o mapeamento das áreas que permanecem alagadas. Assim que o reservatório atingir o nível de 70 metros, barcos equipados com ecobatímetros de última geração iniciarão os levantamentos batimétricos para medir a profundidade do canal principal e de seus afluentes.
Segurança jurídica
O projeto não visa apenas a otimização energética. Ele atende a uma exigência da Resolução Conjunta ANA/ANEEL nº 127/2022, que obriga os concessionários de hidrelétricas a atualizarem as curvas cota-área-volume de seus reservatórios, monitorarem o assoreamento (acúmulo de sedimentos no fundo) e implantarem estações de monitoramento hidrológico.
Para a Axia Energia, concessionária da usina, os dados cartográficos gerados terão um valor inestimável. As ortofotos e os modelos digitais de terreno permitirão uma gestão patrimonial, fundiária e ambiental muito mais eficiente de todo o entorno do complexo hidrelétrico.
Ao final, este esforço tecnológico fornecerá um diagnóstico preciso sobre como o reservatório se comporta e de que forma o assoreamento está impactando sua vida útil. Com essas informações em mãos, será possível planejar ações de conservação da bacia hidrográfica, garantindo que Tucuruí continue a ser uma fonte de energia limpa e segura para as próximas gerações, consolidando um futuro mais sustentável para a Amazônia e para o Brasil.

