Correio de Carajás

Marabá recebe exposição que aproxima rios, lagoas e mar por meio da fotografia

A exposição ganha vida pelas mãos de Ieda Barros, Natanael, Silvia e Ana Maria/Fotos; Luciana Araújo
Por: Luciana Araújo

Entre águas doces e salgadas, uma exposição de fotos revela a conexão entre cidades geograficamente distantes. Esse caminho é conduzido por Silva Helena Cardoso, antropóloga, fotógrafa e professora da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) conduz o público na exposição “Confins da América do Sul”. A mostra reúne fotografias e desenhos produzidos durante caminhadas por Marabá, Pelotas, no Rio Grande do Sul, e Comodoro Rivadavia, na Argentina.

Os registros serão expostos na Galeria Vitória Barros, Avenida Itacaiúnas, 1519, núcleo Cidade Nova. Para celebrar o projeto, um vernissage acontece na quarta-feira (9), a partir das 19h. Já o período de visitação da amostra é de 10 de setembro a 6 de novembro.

A amostra reúne fotografias e desenhos produzidos a partir de caminhadas por Marabá, Pelotas (RS) e Comodoro Rivadavia, na Argentina. O trabalho integra a pesquisa “Confins da América do Sul”, iniciada em 2024, e transforma as três cidades em diferentes pontos de uma mesma narrativa: a relação entre as pessoas e a água.

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“Quando eu pensei na exposição, eu pensei sempre na Galeria Vitória Barros. A princípio não teria Pelotas e Comodoro Rivadavia, só teria Marabá”, conta Silvia. A ideia mudou quando ela percebeu que a pesquisa havia sido construída a partir das três cidades. A escolha dos locais não foi casual.

O projeto de pesquisa é coordenado pelo professor e arquiteto Eduardo Rocha, que convidou Silvia para integrar o trabalho por sua atuação na Amazônia. As três cidades foram escolhidas pela relação com diferentes águas: Marabá, banhada pelos rios Tocantins e Itacaiunas; Pelotas, pela Lagoa dos Patos e pelo canal São Gonçalo; e Comodoro Rivadavia, pelo Oceano Atlântico.

Assim, a exposição aproxima água doce e salgada, rios, lagoas e mar. Mas também aproxima as pessoas que vivem às margens desses lugares.

Silvia: “Se a luz é boa para fotografar, eu estou registrando”

ÁGUAS MARABAENSES

Em Marabá, as fotografias registram uma cidade onde pescadores e moradores que cultivam a relação com os rios, especialmente em áreas como o Cabelo Seco, a região da Mangueira, no núcleo Nova Marabá, e o bairro Amapá. Em Pelotas, a pesquisa chegou à Colônia de Pescadores Z3, onde a pesca continua sendo uma atividade importante e qualquer alteração no nível da água, como ocorre durante as enchentes, interfere diretamente na vida da comunidade.

Em Comodoro Rivadavia, a relação com a água apresenta outra realidade. A cidade se desenvolveu principalmente a partir da extração de petróleo. O produto é retirado em diferentes pontos da região e levado por navios até a província de Buenos Aires, onde é refinado.

Na terra de Francisco Coelho, para registrar a relação da cidade com as águas, a pesquisa adotou a metodologia das “caminhagrafias”. O conceito une caminhar e mapear, não se limitando aos mapas tradicionais. Durante os percursos, os pesquisadores produziram fotografias, desenhos, filmagens e também fizeram coleta de objetos.

Para Silvia, que é natural de São Paulo e radicada em Marabá há nove anos, a fotografia é a principal forma de perceber e registrar esses caminhos. E há um elemento principal para orientar essa jornada.

“Se a luz é boa para fotografar, eu estou registrando”, explica.

Ela conta que, durante as caminhadas, não pensa necessariamente em uma composição perfeita. O registro acontece a partir da percepção da luz, das linhas e dos volumes encontrados pelo caminho. A fotografia digital também trouxe outra liberdade: não é mais necessário pensar nas 36 poses limitadas de um filme fotográfico.

DESENHAR O CAMINHO

A pesquisa também ganhou forma pelas mãos de Natanael Marques, professor de artes, desenho e pintura e artista visual. Ex-aluno de Silvia no curso de Licenciatura em Artes Visuais da Unifesspa, ele participou das caminhadas utilizando o desenho como linguagem.

A aproximação entre os dois começou antes do projeto. Silvia conta que, durante a graduação, Natanael lhe mostrou uma pintura que permaneceu em sua memória. Mais tarde, ela o convidou para participar das caminhadas.

Na terceira atividade, realizada no bairro Amapá, a pintura feita por Natanael também foi usada no material de divulgação do percurso.

Se para Silvia a luz orienta o olhar fotográfico, para Natanael o desenho começa pelo contorno.

“A gente vê as formas, a silhueta das coisas. Isso me chama bastante a atenção quando eu vou representar com desenho”, explica.

A experiência também trouxe um desafio. Diferentemente da fotografia, que registra uma cena em um instante, o desenho exige tempo de observação. Mas as caminhadas tinham um ritmo próprio. Era preciso acompanhar o grupo, observar e desenhar em movimento. O desenho deveria ser rápido e, ao mesmo tempo, capaz de preservar aquilo que havia de essencial na paisagem.

“A gente tenta representar o que se vê de uma forma bem simples, buscando o essencial”, afirma.

Natanael: “A gente vê as formas, a silhueta das coisas”

DIFERENTES LINGUAGENS

Para Ana Maria Martins Barros, colaboradora da Galeria Vitória Barros, a possibilidade de transformar a caminhada em diferentes linguagens é uma das forças do projeto.

Ela ressalta que a exposição não precisa terminar nas fotografias e desenhos que estão nas paredes. Cada participante pode molda a experiência a partir da própria linguagem.

“A cidade se transformou numa grande oficina”, define.

Para Ana Maria, alguém que participou das caminhadas poderia, por exemplo, transformar as experiências em contos, pinturas ou outras formas de criação. A exposição, nesse sentido, também pode provocar novas leituras em quem a visita.

Embora a amostra esteja em Marabá, o trabalho ainda não terminou. A pesquisa “Confins da América do Sul” envolve as três cidades e terá como um de seus resultados um livro reunindo o percurso realizado em Marabá, Pelotas e Comodoro Rivadavia.

Ana Maria: “A cidade se transformou numa grande oficina”

Silvia também prepara uma publicação sobre sua experiência em Marabá, inicialmente pensada como um livro próprio. A obra contará com um texto de Eduardo Rocha, seu supervisor no pós-doutorado, e deverá ser publicada posteriormente. Um QR Code disponível na exposição permite conhecer o projeto do livro.

Além disso, está sendo elaborado um catálogo virtual da exposição. A expectativa é que ele esteja pronto para a finissage, marcada para 6 de novembro, último dia da mostra na Galeria Vitória Barros. A publicação deverá reunir uma seleção das obras, sem reproduzir integralmente a exposição.

O registro também é parte importante do trabalho. A pesquisa começou com o olhar de uma antropóloga e fotógrafa sobre três territórios. No caminho, encontrou pescadores, rios, lagoas, mar, petróleo, enchentes, calor, floresta, desenhos e diferentes formas de habitar a paisagem.