Correio de Carajás

Marabá antecipa futuro logístico com 1º porto de grande porte

Enquanto o derrocamento do Pedral do Lourenção não vem, empresário local abre corredor pelo Rio Tocantins para escoar soja que vem do Centro Oeste

Vista aérea de terminal portuário com barcaças no rio, floresta e instalações industriais.
Porto da RML está a poucos quilômetros da Orla de Marabá e já assegura cerca de 60 empregos na primeira fase/ Fotos: Ulisses Pompeu
Por: Ulisses Pompeu e Milla Andrade
✏️ Atualizado em 18/03/2026 10h28

Diversidade de rodovias? Temos. Ferrovia? Idem. Aeroporto? Claro (está sendo ampliado). Mesmo com essa diversidade de opções, Marabá começa a ocupar um novo patamar na logística regional com a implantação de um porto privado voltado ao embarque e desembarque de cargas comerciais de grande volume pelo Rio Tocantins. A estrutura, já em operação, tem se consolidado como alternativa estratégica para o escoamento da produção agrícola e para a movimentação de cargas gerais, enquanto a região aguarda a conclusão do derrocamento do Pedral do Lourenção, obra considerada fundamental para ampliar definitivamente a navegabilidade do rio.

Em 2025, o terminal movimentou cerca de 300 mil toneladas de soja e a projeção operacional indica crescimento significativo já no curto prazo. Para este ano, a estimativa é que o volume alcance 600 mil toneladas, com perspectiva de atingir 1,2 milhão de toneladas na primeira fase de consolidação do projeto.

Correia transportadora tem cerca de 120 metros e lança a soja diretamente na barcaça

A iniciativa foi idealizada pelo empresário Divaldo Salvador de Souza, de 72 anos, que estruturou o empreendimento com apoio de empresários ligados à Aprosoja, do Mato Grosso. Natural do Paraná, criado em Minas Gerais e radicado no Pará, especialmente em Marabá, ele lidera um dos projetos logísticos mais relevantes em implantação no sudeste paraense.

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Em entrevista exclusiva ao Correio de Carajás, Divaldo explica que a iniciativa nasceu da identificação de gargalos históricos no transporte da produção agrícola da região Centro-Oeste. “Na época em que se discutia o Pedral do Lourenção, os caminhos ainda eram muito dificultosos, assim como a travessia pela eclusa da Hidrelétrica de Tucuruí. Fiz um estudo de viabilidade econômica e financeira para avaliar se seria possível operar um porto no período da safra, de janeiro a julho. O estudo se revelou positivo”, relata.

A aposta no transporte hidroviário está alinhada à tendência global de redução de custos logísticos e maior eficiência energética. Nesse contexto, o terminal privado – implantado antes mesmo da infraestrutura pública planejada para a região – deve se consolidar como um novo eixo de escoamento da produção agrícola e de distribuição de cargas.

Estrutura para transbordo da soja está funcionando plenamente com todo tipo de carreta

Localizado praticamente na área urbana de Marabá, antes da Vila São José, o porto possui acesso tanto pelo Rio Tocantins quanto pela rodovia BR-230 (Transamazônica), ao lado da sede da empresa Nossa Água. Na mesma área, o próprio empresário implantou o chamado “Posto do Porto”, estrutura que dá suporte ao fluxo logístico da operação. Do posto até o terminal portuário são aproximadamente 1,5 quilômetro de estrada, trecho que precisou ser melhorado para suportar o intenso fluxo de carretas vindas do Mato Grosso.

Divaldo também relembra sua chegada a Marabá, no início da década de 1990, quando atuava no setor siderúrgico. “Na época queriam que eu assumisse e comprasse uma siderúrgica aqui. Acabei comprando a unidade e desenvolvendo o projeto que já possuía um forno (Simara)”, recorda, ao citar o início de sua trajetória empresarial no município.

Gargalo logístico impulsionou projeto

A concepção do porto ganhou força após visitas técnicas de representantes da Aprosoja de Mato Grosso a Marabá quando Gilberto Leite (falecido) era presidente da Associação Comercial e Industrial de Marabá. De acordo com Divaldo, os produtores apontaram claramente o principal entrave da cadeia produtiva. “Eles disseram que o grande problema da soja era logístico e que a safra principal ocorre entre janeiro e julho. Se existisse um porto na região, seria uma solução extraordinária”, afirma.

Mesmo diante das limitações impostas pela navegabilidade do Rio Tocantins, especialmente pela ausência do derrocamento do Pedral do Lourenção, o empresário decidiu avançar com o projeto. “Estudei a viabilidade econômica considerando exatamente esse período da safra. Como o estudo mostrou viabilidade, iniciamos o desenvolvimento do porto”, explica.

As primeiras operações ocorreram ainda em caráter experimental. “Fizemos alguns carregamentos quase de maneira precária, inicialmente com minério e manganês”, lembra.

Com a evolução da infraestrutura, o empreendimento passou a estruturar uma operação voltada principalmente para grãos, carga geral e, futuramente, combustíveis. “O combustível hoje chega a Marabá basicamente por ferrovia ou caminhão. A hidrovia representa uma alternativa mais eficiente economicamente e tende a se consolidar também para esse tipo de carga”, destaca.

Os números já indicam expansão acelerada. Segundo o empresário, cerca de 300 mil toneladas de soja passaram pelo porto da RML (Rio Marabá Logística) em 2025. A previsão é que o volume alcance 600 mil toneladas no próximo ciclo operacional e que chegue a aproximadamente 1,2 milhão de toneladas na fase inicial de consolidação.

A soja é direcionada aos silos e de lá até a barcaça para o carregamento dos compartimentos

Potencial logístico da hidrovia

Para Divaldo Salvador, o potencial de crescimento da navegação no Rio Tocantins é significativamente maior, especialmente com a melhoria das condições de navegabilidade e maior integração logística com a eclusa da Hidrelétrica de Tucuruí.

Ele avalia que, no futuro, Marabá poderá movimentar até 10 milhões de toneladas de cargas pela hidrovia. “Ser pioneiro nunca é simples, sempre existem dificuldades. Mas abrir caminho é importante. Outros portos certamente surgirão aqui, e isso fortalecerá todo o sistema logístico da região”, observa.

Com área total de aproximadamente 1.280.000 metros quadrados e cerca de 750 metros de frente para o rio, o porto da RML é considerado pelo empreendedor um investimento estruturante para o desenvolvimento econômico regional. A operação inicial gera cerca de 60 empregos diretos e movimenta diariamente até 90 caminhões, impulsionando serviços locais como postos de combustível, borracharias, restaurantes e outros segmentos ligados à cadeia logística.

“O porto representa um desenvolvimento estruturante”, reforça Divaldo. Ele destaca ainda que o avanço da soja na região pode estimular novos investimentos industriais. “Com esse volume de grãos circulando, abre-se espaço para instalação de esmagadoras de soja para produção de óleo, ração e biocombustível. Isso cria condições para expansão do confinamento de gado, da suinocultura e da avicultura”, pontua.

O primeiro porto privado de Marabá tem mais de 15 metros de profundidade nesta época do ano

Operação logística estruturada

Embora o projeto esteja associado ao crescimento da produção de soja no sul do Pará, o empresário ressalta que sua atuação está concentrada exclusivamente no setor de logística. “Eu não tenho um metro quadrado plantado de soja. Meu negócio é transporte hidroviário”, afirma.

Atualmente em fase de transição na gestão, Divaldo indica que pretende reduzir gradualmente sua atuação executiva, embora continue envolvido na concepção de novos projetos. Segundo ele, a fase de gestão direta está sendo gradualmente encerrada, mas novas iniciativas empresariais devem ser anunciadas em breve.

Na entrevista, o empresário também detalha o funcionamento operacional do porto. A logística começa no Posto do Porto, localizado às margens da rodovia Transamazônica, onde foi implantada uma área estruturada de estacionamento para caminhões.

Divaldo Salvador explica que o porto movimenta uma cadeia de negócios ampla e vai gerar muitos empregos em Marabá

O espaço possui cerca de 40 mil metros quadrados e capacidade para aproximadamente 80 veículos de carga, atendendo a exigências ambientais que proíbem o estacionamento nas proximidades da área operacional do terminal.

Após o estacionamento, os caminhões seguem por cerca de 1.500 metros até o ponto de triagem. Nesse local, a soja passa por classificação técnica, que verifica umidade, presença de impurezas, mofo e outros parâmetros de qualidade. Depois da classificação, os veículos seguem para a balança, onde a pesagem é validada no escritório administrativo antes do descarregamento.

O sistema operacional conta com três linhas de descarga: duas com sistema basculante e uma equipada com tombador hidráulico, permitindo receber diferentes tipos de caminhões, inclusive aqueles que não possuem caçamba basculante.

Em seguida, a soja é direcionada aos silos e transportada por correias até a barcaça posicionada no Rio Tocantins. O carregamento ocorre com ajuste da altura da embarcação por meio de guincho, de acordo com o nível do rio, permitindo o preenchimento adequado dos compartimentos.

Questionado sobre o volume de recursos investidos na implantação da estrutura, o empresário prefere não divulgar valores, limitando-se a afirmar que se trata de um investimento expressivo, compatível com a dimensão e complexidade de um projeto logístico desse porte.