Correio de Carajás

MARABÁ: a receita para ser o pior do Brasil

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André Santos 

 Você sabe como se prepara um município campeão em recordes negativos, sempre o último do Brasil em tudo, dentro de sua faixa populacional? Não? Pois vamos lá preparar essa maniçoba, que geralmente demora um mandato — ou seja, quatro anos — e que consome, em forma de corrupção, o desenvolvimento social.

Como na maniçoba da culinária real, cuja maniva precisa ser cozida por sete dias para retirar totalmente o ácido cianídrico da folha, que é altamente tóxico e letal, a corrupção secular em Marabá levou o município a um despreparo que chega a ser mortal, em áreas como saúde e segurança pública. Sem trocadilhos e com muita realidade.

Leia mais:

Preste atenção ao tira-gosto de viver em Marabá, município que amo tanto. Ingredientes: orçamento pomposo; péssimos administradores; desinvestimentos em áreas essenciais, como saúde, educação, saneamento e segurança, sob alegação de falta de dinheiro ou de competência de outra esfera; promessas levianas intergovernamentais; população desiludida e que, não raro, negocia o voto.

Agora, o modo de preparo. Pegue a arrecadação de uma prefeitura, em ascensão, que saltou impressionantes 338% nos últimos dez anos; adicione um volume de exportações em dólar de commodities, que aumentaram 127% no mesmo período; despeje, devagar e sempre, e dá-lhe enganação ao povo com discursos múltiplos (de prefeitos, governadores e até presidente da República) sobre perspectivas de milhares de empregos em grandes projetos que nunca vêm; corte investimentos em áreas basilares, como educação e saúde, sob alegação de falta de recursos; bata tudo isso no liquidificador por décadas; e tempere com a desilusão da população, que escolhe mal. Corrupção a gosto.

Coloque no fogo e aguarde o resultado, que geralmente é mensurado oficialmente por meio de censos demográficos realizados a cada dez anos ou paraoficialmente por instituições de pesquisa de elevada credibilidade no país que recortam dados com carência de dois anos. Enquanto o fogo pega, o povo sofre. E o resultado de tudo isso é Marabá estampado nos principais veículos de comunicação do país e do mundo como um inferno astral, uma parte do Brasil que insiste em dar errado.

No fundo, não é bem assim, diga-se de passagem. Mas é verdade que o ácido cianídrico, que tempera e corrói o desenvolvimento de Marabá, são as sucessivas e irresponsáveis gestões que passaram pela prefeitura, avalizadas pelas escolhas malfeitas da maioria que as colocou no poder.

Este ano, a ressaca de indicadores sociais ultrapassados está pegando ardilosamente no pé de Marabá, que se vê colocado num bolão e vai mal em tudo.

Em março, o Instituto de Longevidade Mongeral Aegon e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgaram o Índice de Desenvolvimento Urbano para a Longevidade (IDL), segundo o qual Marabá é o último dos últimos na qualidade de vida para a pessoa idosa.

No mês de abril, até o “The Economist” – revista inglesa considerada um dos veículos de comunicação mais influentes do mundo – tirou uma casquinha, informando que a taxa de violência em Marabá está entre as maiores do mundo.

Já em maio, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) soltou que Marabá é o pior do país para mulheres no estudo “IDHM para Além das Médias”. E este mês, em junho, o “Atlas da Violência 2017” assinado também pelo Ipea traz Marabá no meio da “dúzia mortal”, composta pelos 12 municípios mais assassinos do país.

Como Marabá consegue essa proeza de ser, assim, aparentemente tão ruim para viver, conforme pesquisas indicam, se a economia municipal e as finanças da prefeitura mostram um caixa exuberante e de dar inveja a prefeitos de municípios mais populosos e muito mais pobres financeiramente? Pode isso, Arnaldo?

A resposta — embora muito provável, perfeitamente possível — é sim, pode. E vivemos no meio desse fogo cruzado, debaixo de uma receita que cresce exponencialmente e que assiste, inerte, à proliferação da miséria humana na mesma velocidade.

Entre 2006 e 2016, a receita da Prefeitura de Marabá deu um salto magistral de R$ 165,6 milhões para R$ 725,86 milhões, de acordo com dados cruzados a partir da Secretaria do Tesouro Nacional e do Portal da Transparência do município. Nesse período, apenas entre 2008 e 2009 a arrecadação caiu, passando de R$ 315,74 milhões para R$ 311,96 milhões. Se fosse possível ajuntar toda a receita consolidada dos últimos dez anos, a Prefeitura de Marabá se afogaria em R$ 4,87 bilhões — o equivalente a cinco vezes a receita total de Palmas em 2016, capital do Tocantins. Com essa dinheirama toda, era para Marabá estar um brinco. Só que não.

O mesmo Marabá que padece em pesquisas que dimensionam qualidade de vida e segurança, mergulhando-se numa crise de desenvolvimento social sem precedentes, é o que, também, tem uma das prefeituras que mais enricaram no Brasil em uma década.

A receita para conseguir falir social e moralmente um município está, pois, posta à mesa: basta sumir com tudo e deixar a população na lama, no pó da poeira, na fossa e no esgoto a céu aberto. Só relembrando que o tempo de cozimento é de, no mínimo, quatro anos, confirmados geralmente num outubro qualquer pelos que exercem — bem ou nem — o direito da cidadania travestido de voto.

Sabedora de que sofre, a sociedade marabaense só precisa aprender a exercer seu direito de participação popular nas decisões político-administrativas. Do contrário, nessa receita do cão, sua maniçoba — ou a batata, que é mais barata nestes tempos de crise — vai continuar assando.

 

André Santos 

 Você sabe como se prepara um município campeão em recordes negativos, sempre o último do Brasil em tudo, dentro de sua faixa populacional? Não? Pois vamos lá preparar essa maniçoba, que geralmente demora um mandato — ou seja, quatro anos — e que consome, em forma de corrupção, o desenvolvimento social.

Como na maniçoba da culinária real, cuja maniva precisa ser cozida por sete dias para retirar totalmente o ácido cianídrico da folha, que é altamente tóxico e letal, a corrupção secular em Marabá levou o município a um despreparo que chega a ser mortal, em áreas como saúde e segurança pública. Sem trocadilhos e com muita realidade.

Preste atenção ao tira-gosto de viver em Marabá, município que amo tanto. Ingredientes: orçamento pomposo; péssimos administradores; desinvestimentos em áreas essenciais, como saúde, educação, saneamento e segurança, sob alegação de falta de dinheiro ou de competência de outra esfera; promessas levianas intergovernamentais; população desiludida e que, não raro, negocia o voto.

Agora, o modo de preparo. Pegue a arrecadação de uma prefeitura, em ascensão, que saltou impressionantes 338% nos últimos dez anos; adicione um volume de exportações em dólar de commodities, que aumentaram 127% no mesmo período; despeje, devagar e sempre, e dá-lhe enganação ao povo com discursos múltiplos (de prefeitos, governadores e até presidente da República) sobre perspectivas de milhares de empregos em grandes projetos que nunca vêm; corte investimentos em áreas basilares, como educação e saúde, sob alegação de falta de recursos; bata tudo isso no liquidificador por décadas; e tempere com a desilusão da população, que escolhe mal. Corrupção a gosto.

Coloque no fogo e aguarde o resultado, que geralmente é mensurado oficialmente por meio de censos demográficos realizados a cada dez anos ou paraoficialmente por instituições de pesquisa de elevada credibilidade no país que recortam dados com carência de dois anos. Enquanto o fogo pega, o povo sofre. E o resultado de tudo isso é Marabá estampado nos principais veículos de comunicação do país e do mundo como um inferno astral, uma parte do Brasil que insiste em dar errado.

No fundo, não é bem assim, diga-se de passagem. Mas é verdade que o ácido cianídrico, que tempera e corrói o desenvolvimento de Marabá, são as sucessivas e irresponsáveis gestões que passaram pela prefeitura, avalizadas pelas escolhas malfeitas da maioria que as colocou no poder.

Este ano, a ressaca de indicadores sociais ultrapassados está pegando ardilosamente no pé de Marabá, que se vê colocado num bolão e vai mal em tudo.

Em março, o Instituto de Longevidade Mongeral Aegon e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgaram o Índice de Desenvolvimento Urbano para a Longevidade (IDL), segundo o qual Marabá é o último dos últimos na qualidade de vida para a pessoa idosa.

No mês de abril, até o “The Economist” – revista inglesa considerada um dos veículos de comunicação mais influentes do mundo – tirou uma casquinha, informando que a taxa de violência em Marabá está entre as maiores do mundo.

Já em maio, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) soltou que Marabá é o pior do país para mulheres no estudo “IDHM para Além das Médias”. E este mês, em junho, o “Atlas da Violência 2017” assinado também pelo Ipea traz Marabá no meio da “dúzia mortal”, composta pelos 12 municípios mais assassinos do país.

Como Marabá consegue essa proeza de ser, assim, aparentemente tão ruim para viver, conforme pesquisas indicam, se a economia municipal e as finanças da prefeitura mostram um caixa exuberante e de dar inveja a prefeitos de municípios mais populosos e muito mais pobres financeiramente? Pode isso, Arnaldo?

A resposta — embora muito provável, perfeitamente possível — é sim, pode. E vivemos no meio desse fogo cruzado, debaixo de uma receita que cresce exponencialmente e que assiste, inerte, à proliferação da miséria humana na mesma velocidade.

Entre 2006 e 2016, a receita da Prefeitura de Marabá deu um salto magistral de R$ 165,6 milhões para R$ 725,86 milhões, de acordo com dados cruzados a partir da Secretaria do Tesouro Nacional e do Portal da Transparência do município. Nesse período, apenas entre 2008 e 2009 a arrecadação caiu, passando de R$ 315,74 milhões para R$ 311,96 milhões. Se fosse possível ajuntar toda a receita consolidada dos últimos dez anos, a Prefeitura de Marabá se afogaria em R$ 4,87 bilhões — o equivalente a cinco vezes a receita total de Palmas em 2016, capital do Tocantins. Com essa dinheirama toda, era para Marabá estar um brinco. Só que não.

O mesmo Marabá que padece em pesquisas que dimensionam qualidade de vida e segurança, mergulhando-se numa crise de desenvolvimento social sem precedentes, é o que, também, tem uma das prefeituras que mais enricaram no Brasil em uma década.

A receita para conseguir falir social e moralmente um município está, pois, posta à mesa: basta sumir com tudo e deixar a população na lama, no pó da poeira, na fossa e no esgoto a céu aberto. Só relembrando que o tempo de cozimento é de, no mínimo, quatro anos, confirmados geralmente num outubro qualquer pelos que exercem — bem ou nem — o direito da cidadania travestido de voto.

Sabedora de que sofre, a sociedade marabaense só precisa aprender a exercer seu direito de participação popular nas decisões político-administrativas. Do contrário, nessa receita do cão, sua maniçoba — ou a batata, que é mais barata nestes tempos de crise — vai continuar assando.

 

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