Correio de Carajás

Mais de 400 famílias fora de casa e Prefeitura de Marabá arranja sete abrigos

Valdemir fez sua mudança quando a água chegou perto da casa
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Com as cheias dos rios Tocantins e Itacaiunas, Marabá revive mais uma vez o antigo e contumaz problema das enchentes, que anualmente resulta na saída de centenas de famílias de suas casas, sendo necessário que se desloquem para abrigos, sejam eles construídos pela Prefeitura de Marabá ou por conta própria.

De acordo com as informações da gestão municipal, até a manhã desta sexta-feira (5) havia 400 famílias desabrigadas. A equipe do Jornal Correio percorreu, nas manhãs de quinta (4) e sexta (5), os abrigos da Marabá Pioneira e da Nova Marabá, para conferir a situação em que se encontram as famílias e conversar com estas pessoas.

Aos 72 anos, Alcide Silva Nunes já viu mais enchentes no Bairro Santa Rosa do que consegue lembrar. Morando no local há 12 anos, ele conta que construiu um sobrado, na parte de cima de casa, para fugir das águas. “Ano passado a enchente entrou na minha casa e ficou na altura do meu pescoço. Construí essa parte de cima, porque não gosto de ficar na casa dos outros. Moro só eu e minha esposa, então a gente consegue se virar bem”.

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Seu Alcide contou a história às proximidades do campo de futebol do Del Cobra, nos fundos de casa, onde estava analisando de perto a situação. Ele diz estar percebendo que o rio está subindo depressa e, muitos dos vizinhos, já estão deixando as casas e indo para outros lugares. “Eu vim aqui olhar como estão as coisas. Essa água já chegou no meu quintal e tá perto da porta da cozinha. A água tá chegando dentro de casa”, finaliza.

Outro morador da localidade, Valdemir Soares, estava recolhendo os pertences e deixando a casa no momento em que a equipe de reportagem chegou. Residindo no bairro há pouco mais de quatro anos, afirma nunca ter tido o imóvel submerso, mas vê perigo na aproximação da água. “Eu moro com a minha esposa e meus três filhos. Mesmo a água não entrando fica muito próxima e é muito perigoso porque as crianças gostam de brincar na água e, nessa época, tem muito bicho, principalmente cobra”.

Valdemir construiu o próprio abrigo no Largo da Santa Rosa, próximo às quadras de esporte, no final da Colônia de Pescadores Z-30. “A madeira e a lona eu que comprei, eles (Defesa Civil) não querem que a gente fique lá, mas eu não quis ir para a entrada da Velha”, explicou.

Praça Paulo Marabá (entrada da Marabá Pioneira)

Com o cadastro feito na Defesa Civil no início da manhã desta quinta (4), Neuzidete Inácio da Silva, 34 anos, aguardava a entrega da unidade de abrigo, na Praça Paulo Marabá, localizada na entrada da Pioneira, para o mesmo dia. “Pediram para eu vir aqui no abrigo, para nos mostrar o local que iríamos ficar. Foi muito rápido e tranquilo o meu cadastramento”, informou.

Com a perda de praticamente todos os móveis na enchente do ano passado, ele afirma que agora tem uma geladeira, fogão e cama, acrescentando que ele mesmo consegue fazer a mudança. “O exército ficou de buscar minhas coisas, mas eu não tenho quase nada. Eu consigo trazer sozinho no carrinho”.

Nota: 7

No momento em que estivemos no local, fazendo a reportagem, poucos abrigos estavam concluídos. Homens do setor da construção civil estavam no local fazendo a montagem. No total, 70 unidades serão disponibilizadas. No local, apenas banheiros químicos.

Na entrada da Velha Marabá a Prefeitura monta 70 abrigos

Antiga Acrobe

A vendedora ambulante Kátia Cristina Rodrigues Lopes, 47 anos, trabalha vendendo café, água mineral, refrigerantes e balinhas empurrando seu carrinho, com uma caixa de isopor, pelas ruas da Marabá Pioneira. Morando com a filha e dois netos, afirma que o trabalho é a forma que encontrou para lutar pela sobrevivência.

Moradora da Vila Canaã, mas conhecida como Vila do Rato, relata que a rua em que a residência está localizada já está completamente embaixo d´água.  “Vim para o abrigo na terça (2), quando a água estava chegando. Aparece muita cobra nessa época. Se eu pudesse moraria em outro lugar. Tem gente que diz que eu moro lá porque eu quero, mas não é verdade. Moro lá porque não tem outra opção”.

A equipe de reportagem percebeu que a estrutura física do local precisa de reforma urgente no telhado, principalmente no forro, que está caindo. Quando chove, alaga. “Eu prefiro a minha casa, mesmo sendo de tábua e palha”, desabafa Kátia.

Pode-se perceber, também, que além da estrutura dos telhados, os banheiros estavam sem condições de uso. “Os banheiros estão entupidos, nem estamos usando. Só os banheiros químicos que ficam lá fora. Pra tomar banho a gente pega água numa balde e vai ali atrás”.

Nota: 0

Foi o pior abrigo visitado pela equipe. Segundo as famílias que estão ali, quando chove molha dentro. Apenas os 4 banheiros químicos, do lado de fora, funciona. Um caminhão pipa abastece duas vezes ao dia a caixa d´água para que as famílias possam fazer a higiene pessoal, cozinhar e lavar roupas.

Na antiga Acrobe chove dentro e os banheiros estão inutilizáveis.

Nova Marabá (Galpão Lelolar)

Doente, com dor de garganta e muito rouca, Maysa Pereira dos Santos, mãe de quatro filhas, está no abrigo localizado na Folha 31, no antigo galpão da Leolar. Moradora da Folha 33, ela disse que ainda não conseguiu ir ao médico, devido à confusão de enchente. 

Na terça (2) a água já estava na porta da casa dela, o que a motivou procurar a Defesa Civil e fazer o cadastro. “Na quarta (3) o Exército já foi buscar minhas coisas. Eu só preciso agora de atendimento médico. Estou sentindo muita dor de garganta”, disse.

Uma equipe da Secretaria de Viação e Obras Públicas (Sevop) estava na manhã desta sexta (5) montando uma estrutura com caixa d´água, banheiros e giral com torneiras no local.

Outra moradora da Folha 33 abrigada no local é Joana Rafaela, 37 anos. Traumatizada com a enchente do ano passado, decidiu sair antes que a água entrasse em casa e foi para o galpão, com o marido e as duas filhas. “O abrigo tá bom. Estão ajeitando tudo pra gente aqui. É muito melhor do que ficar dentro d´água”, comenta.

Nota: 8

Foi montada uma estrutura de banheiro, com caixa d´água e giral, para que as famílias possam fazer a higiene pessoal de forma privada. A equipe percebeu a ausência de divisórias no local e as pessoas precisam estender lençóis para separar uma família da outra.

Na Nova Marabá falta privacidade e ações de saúde

Largo da Santa Rosa (praça e muro do Posto de Saúde)

“Desmontei a casa da minha mãe, que também foi tomada pela água. Tirei umas telhas e construí esse barraco aqui pra mim, pra vir com a minha família”, descreve Maria Edivânia, 36 anos, que procurou abrigo na segunda-feira (1). Mãe de quatro filhos, se desesperou quando viu a água se aproximar da residência, decidindo procurar um local mais seguro e longe do rio. “Aqui é muito ruim porque não tem banheiro, não tem água. O rapaz dessa casa aqui (diz apontando o dedo) deixa eu pegar água de vez em quando”, relata.

Moradora da Rua João Salame ela e a família foram para os arredores da Unidade Básica de Saúde João Batista Bezerra (JBB). “A Defesa Civil só apareceu aqui quarta (3). O Jairo (coordenador da Defesa Civil) conversou com a gente e garantiu que vai dar umas madeiras e uns compensados”.

Enquanto ela conversava com o Jornal Correio, os filhos estudavam na calçada. “Levo eles no rio para eles tomarem banho, pra gente lavar roupa e louça juntos. Eles ficam aqui o dia todo brincando, estudando, cantando…”, conta, referindo-se às crianças.

Outra família que está desde segunda (1) pelas redondezas é a de Francienio Soares. Com a mudança feita por um carrinho de mão, ele afirma ter passado dois dias ao relento, sem lonas para cobrir o abrigo, construído às pressas por ele mesmo. Na quarta (3) recebeu lonas da Defesa Civil e a promessa de virem caibros e compensados. Ele afirma, entretanto, que o representante (Jairo) discutiu com as famílias. “Disse que tinha que sair da praça e ir para os abrigos oficiais ou então construir o barraco perto do muro, mas é muito quente”, reclama. Conforme ele, Jairo Milhomem justificou que no ano passado a água atingiu pessoas que estavam nas quadras de esporte.

A Defesa Civil, acrescenta, negou banheiros químicos. “Disse que não ia trazer porque, segundo ele, a gente veio pra cá porque quis. Ele é arrogante, queria levar a gente para o abrigo do Tatuzão, sei nem onde é isso”, conta Franciencio, revoltado.

Conforme relato de algumas pessoas que estão nos abrigos do Largo da Santa Rosa, Jairo ameaçou cancelar cadastros deles. “O que me chateia é que na entrada da Velha Marabá eles não falam nada. O pessoal já chega lá, leva a mudança toda e eles começam a fazer os barracos. Acho que é porque eles sabem que ali as pessoas começam logo a queimar pneu e fechar a rua, pedindo pelos abrigos”.

Nota: 5

De acordo com o coordenador da Defesa Civil, este não é um abrigo oficial. A construção foi feita pelos próprios moradores.

Moradores do Santa Rosa se negam a sair de perto de casa
Fora de casa, crianças estudam na calçada

Antônio Maia (Antiga Borges Informática)

O galpão de uma antiga loja de informática, localizada na Avenida Antônio Maia, Marabá Pioneira, foi locado para servir de abrigo. Iolene Arrais Santana mudou-se com a família há três dias e afirma que o local é bom, porém, precisa de reformas. “Quando chove, as goteiras aparecem, reclama. Quando o Jornal Correio esteve no local homens trabalhavam montando divisórias.

Nota: 8

Local arejado, com banheiro próprio, porém, precisa de uma manutenção, por conta das goteiras.

Defesa Civil

Diante de algumas reclamações, a Reportagem procurou o coordenador da Defesa Civil, Jairo Milhomem, na manhã de quinta (4) para saber como está funcionando o trabalho do órgão nesse período de grande demanda.

O primeiro questionamento foi em relação às famílias abrigadas no Largo da Santa Rosa, de forma não oficial. Jairo confirmou que não queria os abrigos naquele local, já que a previsão é de mais chuva e pode ser que rio alcance a área.

“Mesmo a gente informando que não era pra eles irem pra lá, muitas famílias relutaram e construíram por conta próprias barracos no entorno do postinho de saúde e da praça. Eles não querem sair de jeito nenhum”, informou o coordenador, garantindo que ainda assim as pessoas não ficarão desamparadas.

Segundo ele, já foram disponibilizadas madeiras e lonas e estão sendo providenciadas folhas de compensado.

Jairo afirma que a política da Defesa Civil é deixar o atingido próximo à residência, o colocando em local seguro. Contudo, diante do cenário pandêmico, com escolas fechadas, as famílias poderiam ir para abrigos mais distantes.

Sobre o banheiro químico que, segundo os desabrigados, teria sido negado, Jairo afirmou que caso não convença os desabrigados a deixarem o local não poderá deixá-los sem estrutura. “Tenho que botar um banheiro lá. Essa responsabilidade vai ser toda minha porque já tem mais de 30 famílias na Z-30. Vou resolver essa questão do banheiro agora e solicitar dois pra lá”.

O coordenador da Defesa Civil afirma que o órgão está tomando todas as providências para que as famílias possam receber todo o apoio necessário nesse momento. Os cadastros estão sendo feitos na sede, na Marabá Pioneira, e as mudanças em parceria com o Exército Brasileiro, sendo registradas mais de 80 por dia.

Por conta da pandemia, o número de pessoas em cada abrigo diminuiu consideravelmente este ano. Com o apoio da Guarda Municipal e Corpo de Bombeiros, todos os abrigos estão sendo fiscalizados para que todos os cuidados sejam tomados.

Segundo Jairo, o trabalho da Defesa Civil não é “colocar a mão na massa”, mas destrinchar os problemas para cada secretaria. “Eu já vou protocolar hoje mesmo para que a Secretaria de Saúde vá em todos os abrigos fazer a orientação, verificar se tem gente doente e ver quais os cuidados que podem ser prestados a essa população. A nossa parte estamos fazendo, como no Ginásio da Obra Kolping, por exemplo, onde colocamos 70 famílias no ano passado. Nesse ano temos 35”.

Sobre as solicitações de pedidos de ajuda de cestas básicas e água mineral, o coordenador afirma que a partir do momento que uma família é colocada no abrigo, o órgão tem um prazo de 15 dias para arrumar condições para que essas pessoas possam receber ajuda. “Uma vez que eu entrego alimentos e água, por exemplo, eu tenho que disponibilizar de 30 em 30 dias para eles novamente. Por isso é importante realizar o cadastro na Defesa Civil”.

Jairo informou, por fim, que a Defesa Civil se reuniu no mês de fevereiro para alinhamento de estratégias da enchente, com as secretarias de Obras, Segurança Institucional, Saneamento Ambiental, Educação e Saúde. (Ana Mangas e Henrique Garcia)

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