Correio de Carajás

Leia mulheres!

Mari Hipólito, mulher sorrindo com cabelo cacheado, segurando um livro, para a Coluna do Clube da Palavra.

Para encerrar o mês dedicado às mulheres, falarei brevemente dos caminhos percorridos pelas mulheres para conquista de espaço no âmbito literário, considerando que, por um longo período, as histórias foram contadas por homens e protagonizadas por personagens masculinos. O caminho foi árduo, tendo em vista que, durante muito tempo, fomos impedidas de frequentar universidades e academias artísticas.

A educação de meninas e mulheres era voltada a “prendas domésticas”, algumas, quando pertencentes às classes sociais privilegiadas, recebiam estímulos para desenvolvimento intelectual artístico voltado para música, com a finalidade de tão somente “encantar” o futuro marido.

Algumas mulheres, quando conseguiam superar a barreira da formação intelectual e ousavam escrever, contar histórias, tinham que fazê-lo sob pseudônimos. As escritoras inglesas do século XIX: Anne, Emily e Charlotte Brontë; Mary Shelley, autora do clássico Frankenstein, tiveram que publicar seus livros sob pseudônimos para evitar julgamentos sociais ou para serem melhor aceitas pela crítica e pelo público. Elas queriam que apenas suas obras fossem julgadas.

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Aqui no Brasil, tivemos a participação feminina na criação da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1897, contudo, somente em 1977, quase um século depois, a primeira mulher foi eleita para imortal da ABL; a escolhida foi a escritora cearense Raquel de Queiroz. A representatividade feminina dentro da instituição ainda é mínima, pois de 40 membros, apenas 6 são mulheres.  São números contraditórios, visto que a literatura nacional é construída por importantes vozes femininas: Clarice Lispector, Lygia Fagundes Teles, Raquel de Queiroz, Carolina Maria de Jesus, Cecília Meireles e muitas outras mulheres que protagonizaram a produção literária brasileira ao longo dos séculos.

Por outro lado, segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), o número de mulheres leitoras é maior em relação ao de homens. A pesquisa informa que 49% das mulheres se declaram leitoras, superando 44% dos homens. A verdade é que nós, mulheres, não apenas lemos mais, mas somos nós as principais influenciadoras do hábito de leitura para crianças e adolescentes.

Também somos nós que mais compramos livros. Esse protagonismo, confirmado pela pesquisa, revela que buscamos, por meio da literatura, aprofundamento emocional, autoconhecimento, representatividade e, claro, entretenimento de qualidade.

É diante desse panorama que faço um pequeno recorte na literatura brasileira contemporânea, para apresentar e sugerir livros escritos por mulheres que trazem temáticas genuinamente femininas. Aqui cito Carla Madeira, a autora de Tudo é Rio (2014), romance que já esteve em várias oportunidades nesta coluna, portanto, dispensa apresentação de sua temática. Aline Bei, autora de O peso do Pássaro Morto (2017), o livro tem uma prosa delicada protagonizada por uma mulher, a obra aborda de forma intimista a perda, os afetos e a cura interior.

A obra Mesmo Rio (2022), da escritora e psicóloga Elisama Santos, aborda a maternidade, rejeição, conflitos na relação mãe e filha. O romance Essa Coisa Viva (2023), de Maria Esther Maciel, também faz um passeio pela maternidade, relação mãe e filha e o luto. Em Infinita (2024), de Camila Maccari, a autora traz uma narrativa cruel que põe no centro o corpo de uma mulher que se encontra acima do peso, revelando o sentimento de inadequação e obstinação pelo emagrecimento. Andrea Del Fuego escreveu de forma magistral a obra A Pediatra (2021), onde ela desmistifica a ideia de que toda mulher tem instinto materno, toda mulher quer e nasceu para ser mãe. Essa lista com sugestão de livros e autoras somente foi possível porque muitas Lygias, Clarices e Cecílias precederam as escritoras contemporâneas.

As indicações acima partem da minha experiência pessoal de leitora que lê mulheres e busca nos romances protagonismo feminino e temáticas que pautam questões de gênero, maternidade, corpo, casamento, divórcio e tantas outras. Finalizo a coluna de hoje ressaltando que a literatura é poderosa para a alma feminina; ela não apenas nos alimenta, mas melhora nossa capacidade de apoiar, acolher e aconselhar nossas mães, amigas e filhas. A leitura de ficção colabora para o desenvolvimento de um olhar mais sensível e empático, além de contribuir para melhor compreensão dos nossos sentimentos. Até a próxima, queridos e queridas leitoras!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.