Correio de Carajás

Jornalista lança livro sobre o massacre da ponte, em Marabá

Jornal Correio noticiou o episódio que manchou a relação entre a polícia e movimentos sociais na região
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O jornalista e escritor Paulo Roberto Ferreira lança, em breve, pela Editora Paka-Tatu, o seu novo livro Encurralados na ponte: o massacre dos garimpeiros de Serra Pelada. A publicação é fruto de uma pesquisa documental nacional, inúmeras entrevistas jornalísticas e atualiza a violência e o assassinato praticado pelas forças policiais do Estado do Pará contra os garimpeiros em 29 dezembro de 1987 na ponte rodoferroviária sobre o Rio Tocantins, em Marabá, por onde transitam o trem que transporta minério de ferro da Vale e outros veículos.

Os garimpeiros negociavam a manutenção da extração manual do ouro de Serra Pelada e exigiam melhores condições de trabalho, porém foram fuzilados ou obrigados a saltarem de 76 metros de altura para dentro do Rio Tocantins. Muitos estão desaparecidos até hoje. “Encurralados na ponte” revela o modus operandi, inclusive com paralelo aos dias de hoje, sobre as relações entre o Estado e os grandes projetos de exploração de minério, ouro, madeira, água e outras riquezas naturais paraenses, assim como denuncia os conflitos gerados por um modelo de desenvolvimento nefasto para as populações residentes nas cidades e nas margens dos rios do Pará.

Na época, o Jornal CORREIO DO TOCANTINS noticiou o fato e os bastidores das negociações que levaram ao massacre praticado pelo Pelotão de Choque da Polícia Militar do Pará por determinação do governador da época, Hélio Gueiros.

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Os garimpeiros fecharam a ponte rodoferroviária por cerca de 36 horas e impediram a passagem de veículos e do trem de minério da Vale exigindo o chamado rebaixamento do garimpo de Serra Pelada. Mesmo com um interlocutor do Ministério do Interior negociando o fim do protesto e a liberação da ponte, o governador Hélio Gueiros ligou para a Prefeitura de Marabá, no dia 29 de dezembro e deu uma hora para liberarem a ponte ou mandaria sua tropa de choque fazer isso à força.

Ele cumpriu sua promessa. “Os policiais estavam armados com revólveres, carabinas, metralhadoras e bombas de gás lacrimogênio. Chegaram ao local e passaram a atirar desordenadamente, como contaram várias testemunhas feridas que estavam atrás de atendimento no Hospital do SESP.

Uma mulher gestante, de nome Maria Valdenora de Souza, teria sido executada covardemente, caindo da ponte rio abaixo, conforme declarou seu marido, José Ferreira de Souza, também baleado no braço”, diz a reportagem da edição número 164 do Jornal Correio, a qual circulou no dia 1º de janeiro de 1988.

Na Prefeitura de Marabá, horas depois, o representante do Ministério do Interior, Nelson Marabuto, ao ser abordado por repórteres do Jornal Correio, disse que não gostaria de falar nada, pois estava abalado e se fosse falar, “seria para dizer que o governador de vocês é um monstro”.

Em sua opinião, a polícia foi imprudente e as atitudes tomadas pelo governador Hélio Gueiros “atrapalharam por completo tudo que estava sendo resolvido na paz”.

Até hoje não existe consenso sobre o número de vítimas do massacre. Predomina, contudo, o entendimento de que a operação policial realizada na região provocou 79 desaparecimentos e dez mortes de trabalhadores e seus familiares.

Ricardo Kotscho, em seu livro-reportagem Serra Pelada – uma ferida aberta na selva (São Paulo: Editora Brasiliense, 1984), registrou depoimento do major Curió por meio do qual esse agente da ditadura fornecera as seguintes informações sobre os grupos acionários que estavam por trás do empreendimento no Pará, a empreitada AGM na mineração em Serra Pelada:

“Foi constituída uma sigla chamada ‘A.G.M.’ O ‘A’ era de Atlântica Boa Vista (grupo Bradesco); e o ‘G’ de Globo (grupo Roberto Marinho) e o ‘M’ de Monteiro Aranha. Eles constituíram uma firma chamada ‘Mineração e Participação’. Essa firma tinha como diretores executivos o sr. Eike Batista, que é filho do sr. Eliezer Batista (presidente da Companhia Vale do Rio Doce, que detém o direito de lavra e defende a mecanização) e Antonio Dias Leite Júnior, conhecido por ‘Toninho’, filho do ex-ministro das Minas e Energia, Antonio Dias Leite”. As firmas multinacionais que estavam por trás do empreendimento, segundo depoimento registrado por Kotscho, “eram a British Petroleum e a Anglo American Corportaion” (Kotscho, 1984, p. 85).

Sobre o jornalista

Paulo Roberto Ferreira é mestre em Ciências da Educação. Trabalhou como repórter, redator e editor de jornais e revistas, com passagem pela imprensa alternativa (Bandeira 3 e Resistência). Foi repórter, apresentador e diretor de TV e Secretário de Comunicação Social. É autor dos artigos acadêmicos Mais de 180 anos de história da imprensa na Amazônia e Após o regatão, o rádio e a televisão. Participou da coletânea Recortes da Mídia Alternativa, com o artigo Tempos de Resistência, e é autor do livro A censura no Pará – A mordaça a partir de 1964, além de coautor do livro O homem que tentou domar o Amazonas. (Ulisses Pompeu)

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