Correio de Carajás

Janeiro Branco: Saúde Mental no enfrentamento do câncer infantojuvenil

Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol) promove a saúde mental como eixo fundamental para aliviar internações prolongadas e mudanças na rotina

Em Belém, o Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol) alia a oncologia clínica à psicologia como suporte a pacientes /Foto: Divulgação

O câncer na infância e adolescência ocasiona uma ruptura drástica na trajetória de desenvolvimento nessa faixa etária. Olhar para além de protocolos médicos é crucial para promover a adesão ao tratamento, a partir do suporte psicológico oferecido desde o momento do diagnóstico do paciente. Em Belém, o Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol) promove a integração entre a oncologia clínica, os cuidados paliativos e a psicologia com a finalidade de promover suporte indispensável para que os pacientes infantojuvenis não percam a identidade e as ferramentas de enfrentamento, mesmo com a rotina de procedimentos médicos.

Apesar dos avanços na medicina ter elevado as taxas de cura, as mudanças sociais, físicas e emocionais podem deixar sequelas, caso não sejam manejadas de forma precoce. Um balanço realizado pelo Hoiol apontou que o Serviço de Psicologia realizou cerca de 15.350 atendimentos no ano de 2025 para pacientes hospitalizados, em tratamento ambulatorial, em cuidados paliativos e em fora de tratamento (fase de monitoramento para identificar se ainda há vestígios de câncer no organismo).

Para o psicólogo hospitalar do Hoiol, Henrique de Abreu, a saúde mental “atua como um regulador biológico, em que os pacientes emocionalmente amparados apresentam menores índices de psicossomatização e cooperam mais com a equipe médica”. Segundo ele, ferramentas como a ludoterapia e o suporte psicossocial personalizado, conforme a faixa etária, funcionam como pontes que conectam o ambiente hospitalar ao mundo lúdico e seguro a que pertencem.

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“A ludicidade é usada para acessar e favorecer a expressão de sentimentos. As crianças, diferente dos adultos, não expressam os desdobramentos emocionais do processo de adoecimento por meio de uma linguagem verbal. Utilizam-se de recursos lúdicos para externalizar a percepção, a compreensão e as repercussões emocionais advindas do diagnóstico e tratamento. Nesse sentido, o ato de brincar é fundamental para que possamos dar borda e sustentação à angústia de um processo de saúde-doença e favorecer recursos de enfrentamento para lidarem com o contexto de hospitalização”, disse o psicólogo do Hoiol.

A estratégia também é utilizada para acolher o adolescente durante a perda de autonomia e os impactos na autoimagem causados pelo tratamento. Contudo, segundo Henrique, é usado como um canal para acessar o universo dos adolescentes e promover a construção de vínculo para a continuidade de um trabalho terapêutico.

Médico Thiago Gama, do Hospital Oncológico Infantil, afirma que emoções positivas não curam o câncer, mas ajudam o corpo a suportar melhor o tratamento
Médico Thiago Gama, do Hospital Oncológico Infantil, afirma que emoções positivas não curam o câncer, mas ajudam o corpo a suportar melhor o tratamento/Foto: Divulgação

“Compreender as séries, filmes, grupos musicais e os contextos nos quais esses sujeitos estão inseridos é fundamental para fazê-lo expressar o lugar psíquico e social que o adoecimento ocupa para ele. Escutar o sujeito adolescente sobre o seu tratamento e contribuir para que ele seja ouvido pela família e pela equipe acerca de suas percepções sobre o próprio processo, favorece a autonomia no cuidado, bem como pode potencializar a adesão ao tratamento”, esclareceu o psicólogo.

Dados da literatura científica internacional, como os do Journal of Pediatric Psychology –  revista científica internacional de prestígio, publicada pela Oxford University Press, reforçam que o suporte estruturado aumenta em 25% a adesão a tratamentos complexos. E, de acordo com estudos em Psico-oncologia Pediátrica e dados de suporte multidisciplinar em centros de referência, o amparo emocional pode reduzir em até 30% a percepção de sintomas físicos como dor e náuseas durante o tratamento quimioterápico.

O suporte emocional também auxilia em momentos críticos, como cirurgias e quimioterapias. A equipe recorre a técnicas de preparação psicológica a fim de transformar o ambiente hospitalar, muitas vezes percebido como hostil, em um espaço de maior segurança e previsibilidade. “A escuta ativa, o acolhimento e a psicoeducação favorecem a expressão de sentimentos, a  percepção e a compreensão de procedimentos complexos. O suporte psicológico auxilia no enfrentamento do contexto de adoecimento e promove o acesso a recursos funcionais durante a intervenção terapêutica”, destacou Henrique.

O papel da família – A família é imprescindível durante o acompanhamento psicológico, visto que esta também repercute os efeitos de um processo de adoecimento de um membro e exerce função ativa ao longo do tratamento e pós-tratamento. Do ponto de vista clínico, um estado emocional fortalecido e um ambiente familiar acolhedor influenciam diretamente a resposta biológica do paciente ao tratamento e na redução de intercorrências psicossomáticas durante a quimioterapia.

Atualmente com 18 anos, Vitória Carolina, foi diagnosticada com Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA) aos 11 anos. “A gente acaba se isolando um pouco, principalmente quando a imunidade está baixa, porque não pode receber visitas. Ficar muito tempo no hospital não é confortável. A gente sente falta de casa, da comida, do próprio espaço. Outro momento marcante foi a recidiva da doença, foi um baque forte, porque eu estava há dois anos e meio fora de tratamento. Mas, graças a Deus, consegui lidar bem.”

A mãe de Vitória, Marcicleia Damasceno, relata que o maior desafio emocional desde o diagnóstico da filha foi aceitar a doença. “No começo foi muito difícil. Qualquer mãe sente, é algo muito difícil de enfrentar”, afirma. Cristã, ela conta que encontrou forças na fé. “Procuro sempre buscar força em Deus e acredito que vou sair daqui com a minha filha curada.”

Ela também destaca a importância do apoio recebido no hospital. “O suporte dos médicos, enfermeiros e técnicos faz toda a diferença. Temos pessoas maravilhosas ao nosso lado, e isso ajuda muito no tratamento. Os psicólogos estão sempre presentes, conversando, dando força para todos nós”, ressaltou.

Conforme explica o médico paliativista do Hoiol, Thiago Gama, quando uma pessoa está em tratamento oncológico, corpo e emoções caminham juntos. “Um paciente que se sente amparado, seguro e acolhido pela família tende a responder melhor ao tratamento. Isso acontece porque o estresse constante, o medo e a sensação de abandono mantêm o corpo em “estado de alerta”, o que pode piorar sintomas como dor, náuseas, cansaço extremo e até favorecer outras complicações. Já um ambiente familiar acolhedor ajuda o organismo a se manter mais equilibrado”, destacou.

“Emoções positivas não curam o câncer, mas ajudam o corpo a suportar melhor o tratamento, reduzindo desconfortos e diminuindo problemas que surgem ao longo do processo. O cuidado emocional fortalece o paciente para enfrentar cada etapa com mais estabilidade e confiança”, ressaltou Gama.

Suporte integrado – O tratamento oncológico costuma ser longo e, muitas vezes, invasivo. O suporte psicológico integrado à equipe médica contribui para prevenir a chamada “fadiga do tratamento” nos pacientes, principalmente em adolescentes, favorecendo a adesão aos protocolos e evitando a desistência nas etapas finais do processo.

Com o tempo, alguns jovens passam a se sentir emocionalmente exaustos, desanimados ou sem forças para continuar, quadro conhecido como fadiga do tratamento, explica o médico paliativista. “O apoio psicológico permite que o adolescente expresse medos e angústias sem receio de julgamento, compreenda cada etapa do tratamento e a importância de segui-lo até o fim, além de preservar sua identidade para além da doença, reconhecendo-se como um jovem com desejos, planos e vida social”, esclareceu Gama.

“Quando esse suporte integra a equipe de cuidado, o adolescente se sente ouvido, respeitado e mais confiante, o que reduz a vontade de desistir e favorece a adesão ao tratamento, especialmente nas fases finais, geralmente as mais desafiadoras. Cuidar da saúde mental, portanto, não é um complemento, mas uma parte essencial do tratamento”, concluiu.

O caminho do acolhimento – O paciente tem acesso integral ao serviço de psicologia desde a suspeita diagnóstica, passando pela confirmação do diagnóstico e pelo tratamento. Além disso, após a hospitalização, mantém acesso ao ambulatório de psicologia, com acompanhamento psicológico realizado de forma semanal, quinzenal ou mensal.

Serviço – Credenciado como Unidade de Alta Complexidade em Oncologia, o Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo é referência na região Norte no diagnóstico e tratamento especializado do câncer infantojuvenil, na faixa etária entre 0 a 19 anos. A unidade é gerenciada pelo Instituto Diretrizes, sob o contrato de gestão com a Secretaria de Estado de Saúde Pública, e atende pacientes oriundos dos 144 municípios paraenses e estados vizinhos.

(Agência Pará)