Foto: reprodução
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Depois que um pirarucu, peixe nativo da Amazônia, foi encontrado em um lago da Malásia, na última quarta-feira (7), várias teorias surgiram sobre o motivo pelo qual uma das maiores espécies de água doce do planeta estava a mais de 17 mil quilômetros de seu habitat natural. Para os especialistas, não há dúvida: o animal foi introduzido naquele ambiente pela atividade humana. E as consequências podem ser terríveis para toda a fauna daquela região.

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Naquela tarde, frequentadores do Tun Fuad Stephens Park, localizado na capital do estado de Sabá, Kota Kinabal, ficaram assustados. Eles não estavam acostumados a ver um peixe daquele tamanho nadando pelas águas do lago Tun Fu Stephens. Exótico, o animal acabou chamando a atenção de um atleta que corria às margens do lago, e acabou o golpeando até a morte. Rapidamente, a notícia se espalhou pelo mundo, e as teorias começaram a surgir.

Alguns internautas sugeriram a possibilidade de migração da espécie. Para o pesquisador do museu Emílio Goeldi, ictiólogo e especialista em sistemática e conservação de peixes amazônicos, Alberto Akama, trata-se de uma ideia absurda. Por ser uma espécie de água doce, seria impossível fazer a migração até um rio de um país tão distante, já que o pirarucu é nativo da Amazônia. “Não tem como um peixe se deslocar da Amazônia até lá”, garantiu.

Outra teoria, levantada também por internautas, sugere que o forte calor da região amazônica provocou uma evaporação intensa, e já que a fecundação dos peixes acontece na água, alguns óvulos fecundados podem ter subido até as nuvens por evaporação, viajando até a Malásia e caindo nos rios malaios já em forma de alevinos. “Também é impossível”, revelou o estudioso. “Temos casos de transporte de ovos por aves, mas é algo raríssimo”.

Oficialmente, as autoridades malaias acreditam que o peixe foi criado desde filhote, e por crescer demais, foi solto no lago. Para o pesquisador Alberto Akama, essa é a teoria mais aceita. Ele lembra que é muito comum que pessoas comprem um peixe ainda pequeno para criar em aquários, mas após notarem um crescimento indesejado, acabam soltando em outros locais. Outra possibilidade, menos provável, é de que o animal fazia parte de uma piscicultura e acabou escapando.

Em alguns países orientais, como a Tailândia, por exemplo, é muito comum haver a produção e o cultivo de pisciculturas, e muitas espécies exclusivas de outras regiões acabam chegando lá de maneira ilegal, pontuou o especialista. De lá, acontece o tráfico para outros países, e esses peixes acabam sendo comercializados normalmente. No caso do pirarucu, todas as partes podem ser aproveitadas. A carne é saborosa, a língua pode ser usada em artesanato, o couro em acessórios e as escamas podem virar lixas de unha. Ameaçado de extinção, o pirarucu só pode ser comercializado se tiver sido pescado em área de manejo autorizada pelo Ibama.

Este tipo de ação humana pode acarretar em um grande desequilíbrio ambiental, ressaltou o pesquisador. O caso do pirarucu encontrado na Malásia é mais grave ainda, já que trata-se de um animal enorme, que pode chegar aos três metros e 200 quilos, não possui predadores e se alimenta de outros peixes. Além disso, uma ova de pirarucu tem cerca de 200 mil ovócitos, então a reprodução dessa espécie acontece de maneira rápida e intensa. “Se não houver um controle, ele pode se tornar uma praga e fazer um estrago violento na fauna local”, explicou.

Alberto ressaltou que fazer a introdução de qualquer espécie em outro habitat é crime no Brasil, assim como caçar, exportar, capturar e comercializar qualquer espécime da fauna silvestre. Ele acredita que a fiscalização de todas as fronteiras que o Brasil faz com outros países é algo muito difícil de ser feito, e portanto é necessário que o poder público invista mais em campanhas de conscientização para que esse tipo de crime não volte a ocorrer. “As leis são duras, você não pode introduzir nada. A história dessas introduções errôneas vem provando que sempre traz malefícios, então o que a gente precisa é ter consciência disso. Trabalhar mais a questão da consciência ambiental”, concluiu o especialista.

(O Liberal)

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