Correio de Carajás

Internos de presídio em Marabá produzem bloquetes e reescrevem o próprio futuro

Convênio garante trabalho a internos do Complexo Penitenciário de Marabá, onde a produção diária chega a 1.600 bloquetes

Trabalhadores com EPIs produzindo pavers hexagonais em fábrica ao ar livre.
Produção diária de bloquetes chega a 1.600 peças com trabalho de interno do Sistema Penal
Por: Emilly Coelho (Secom-Pará)
✏️ Atualizado em 30/04/2026 15h31

Dentro do Complexo Penitenciário de Marabá, no sudeste do Pará, a rotina de 20 pessoas privadas de liberdade vai além do cumprimento da pena. De segunda a sexta-feira, por oito horas diárias, internos dos regimes fechado e semiaberto trabalham no projeto Fábrica de Bloquetes, produzindo cerca de 1.600 unidades blocos de concreto por dia, por meio de um convênio entre a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) e a Prefeitura de Marabá.

A iniciativa alia capacitação profissional e ressocialização, revelando histórias que rompem estigmas.

A instalação da fábrica de bloquetes no sistema penitenciário auxilia a geração de renda, remição de pena e ressocialização das pessoas privadas de liberdade. Para trabalhar no projeto, os internos passaram por capacitação da Secretaria Obras e Vias Públicas (Sevop) de Marabá com engenheiros especializados durante duas semanas. Atualmente a produção diária é de 1.600 blocos de concreto, somente em Marabá, sendo a meta confeccionar até a primeira quinzena de maio mais de 5 mil bloquetes. A fábrica também trabalha na construção de meio-fio.

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SEAP

O gerente administrativo da unidade CCP (Triagem), Roberto Rivelino Souza Nasário, enfatizou que o projeto coloca o Pará em posição de destaque nas políticas de reintegração social. De acordo com o policial penal, o foco no trabalho carcerário é a ferramenta principal para extinguir o preconceito contra o egresso, garantindo que o cumprimento da Lei de Execução Penal (LEP) vá além do papel.

Nasário explicou que os internos selecionados para a fábrica foram escolhidos pelo critério de antiguidade, aproveitando a mão de obra de quem já colaborava na construção do próprio complexo. Além disso, o gerente ressaltou que o sistema é cíclico: à medida que os detentos progridem para o regime semiaberto, onde a Seap mantém parcerias com quatro construtoras privadas, novas vagas são abertas para que outros internos iniciem sua jornada de capacitação.

Pela Prefeitura de Marabá, o engenheiro civil, Marco Antonio Almeida Tavares, destacou a importância da parceria da Prefeitura com o Governo do Pará, na Fábrica de Bloquetes e meios-fios. Segundo ele, o trabalho dos internos se destaca pelo alto nível de disciplina, foco e organização, o que contribui diretamente para um rendimento elevado na produção. A parceria da prefeitura se dá por meio do fornecimento de insumos utilizados na fabricação, o que viabiliza a produção e fortalece a iniciativa e o governo do estado com a mão de obra. Para a preservação do Meio Ambiente, são utilizados também materiais reaproveitados de outras obras da prefeitura diminuindo a absorção de carbono.

Projeto coloca o Pará em posição de destaque nas políticas de reintegração social

“É uma parceria louvável que representa economia para os cofres públicos, com redução dos encargos sociais, pois se a prefeitura fosse contratar uma empresa terceirizada por licitação sairia muito mais oneroso o processo ou ainda contratação de MEI. Essa iniciativa beneficia a população tanto da área urbana quanto rural, beneficiando a população com obras, construção de praças e escolas. O projeto além de gerar reinserção traz economia para estado, prefeitura e meio ambiente”, explica o engenheiro, acrescentando que, eles têm capacidade de fabricar outros artefatos de concreto como piso tátil, para auxiliar pessoas com deficiência visual, pingadeiras e outros itens. A primeira leva de bloquetes da fábrica já tem destino certo: a pavimentação de ruas adjacentes ao Parque São Jorge, no bairro Liberdade e ainda agrovilas do município.

“Quando o interno começa a trabalhar e produzir produtos que vão beneficiar a sociedade que como um todo, para segurança e bem-estar da população, tira o estigma de que o interno não pode trabalhar lá fora, a sociedade tem de fazer a parte dela, ressocializar dando uma nova oportunidade para ele não voltar para a unidade penal, sendo uma pessoa digna, pois o trabalho dignifica o homem”, frisa o engenheiro.

OPORTUNIDADES

O interno Erismar Nunes Noronha de 47 anos, está quatro anos na unidade, ele alcançou 920 pontos no Enem 2025 e além de trabalhar na Fábrica de Bloquetes, está concluindo o curso de Marketing Digital na Faculdade EAD e se dedica à escrita de um livro “Colhendo flores no cárcere”, mostrando que a reconstrução de trajetórias também pode começar atrás das grades.

“A fábrica de concreto traz uma mudança gratificante. É um trabalho que nos profissionaliza para um mercado aquecido. Sinto um orgulho genuíno ao saber que o bloquete que fabricamos aqui pavimentará as ruas onde vivem minha família e amigos. Hoje, não vejo o cárcere apenas como algo obscuro; tirei algo positivo daqui e sairei com uma nova perspectiva, pronto para o mercado de trabalho.”

Para o interno Silvanio Lopes Alves Pereira de 50 anos a oportunidade de trabalhar na Fábrica é única. “Para nós que estamos no regime fechado é uma excelente oportunidade. Participamos de tudo, desde a construção da estrutura da fábrica até a confecção dos blocos. É um trabalho que nos prepara para retornar à sociedade e faz com que as pessoas voltem a confiar na gente. Meu plano é ingressar na construção civil assim que sair; a gratidão que sinto por essa chance é imensa,” conta ele, que está há 11 anos na unidade e já trabalhou no pavimento de alimentação e participa de projeto de leitura.

Mateus Soares Alves Silva, 30 anos, interno há 5 anos no Complexo Penitenciário de Marabá. Ex-pedreiro, Mateus utiliza sua experiência prévia para projetar um futuro como dono do próprio negócio.

“Esse trabalho é uma oportunidade de ouro que muda nosso modo de pensar a cada dia. Além de garantir a remição da pena, ganhei uma profissão e novos projetos de vida. Minha meta é progredir de regime e, no futuro, abrir minha própria fábrica de bloquetes. Quero crescer e dar oportunidade para outros colegas, transformando minha experiência aqui em um negócio próprio lá fora.”

O projeto de Fábricas de Bloquetes avança em diferentes municípios do Pará, além de Marabá

EXTENSÃO

O projeto de Fábricas de Bloquetes avança em diferentes municípios do Pará, além de Marabá. Em Santa Izabel, no complexo da URRS Americana/Santa Izabel, sete fábricas foram instaladas, das quais quatro estão atualmente em funcionamento, empregando 53 pessoas privadas de liberdade (PPLs). Em Breves, quatro unidades estão prontas e têm inauguração prevista para o próximo dia 22 de maio, com expectativa de empregar 53 PPLs. Outros municípios também se preparam para iniciar as atividades: Salinópolis contará com quatro unidades e previsão de 53 trabalhadores; Abaetetuba terá cinco unidades com estimativa de 65 PPLs; e Paragominas, com quatro unidades e 53 trabalhadores previstos.