Correio de Carajás

Imóveis históricos de Marabá podem desaparecer sem políticas de preservação

Apesar de sua relevância para a preservação da memória local, construções podem desaparecer do mapa

Prédio abandonado com fachada descascada e janelas vazias sob céu azul com nuvens.
Um dos casarões históricos, na Rua Cinco de Abril, foi parcialmente demolido/ Fotos: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 21/05/2026 09h14

A identidade de um lugar está diretamente atrelada aos seus costumes, expressões culturais, culinária e arquitetura. São esses elementos que contam histórias ao mesmo tempo em que preservam a memória de uma cidade, permitindo que aqueles que já passaram por suas ruas sejam lembrados por aqueles que ainda irão descobri-las. Em Marabá, imóveis antigos e históricos cumprem esse papel.

Mas, apesar de sua relevância para a história local, essas construções correm o risco de desaparecer do mapa.

Essa apreensão ganha força diante de discussões sobre preservação cultural e desenvolvimento turístico da cidade. Há atualmente um movimento que defende que os antigos casarões, prédios públicos e espaços tradicionais da cidade representam parte importante da memória coletiva do município.

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Há ainda a preocupação com a deterioração de diversos imóveis antigos, especialmente na Marabá Pioneira, onde parte do casario (conjuntos de casas antigas) permanece fechada, sem moradores ou sem uso comercial.

Em conversa com o Correio de Carajás, André Vianello, servidor público e produtor audiovisual, explica que além de seu peso para a memória regional, o conjunto arquitetônico da cidade pode ganhar destaque dentro do turismo cultural no Pará. Conectado com o tema, em 2023 ele lançou o documentário ‘Casario Histórico de Marabá’, que aborda o assunto.

André Vianello destaca o potencial turístico dos imóveis históricos

“O Pará já vive um crescimento turístico muito forte e Marabá também pode entrar nesse processo. Quando isso acontecer, a cidade vai precisar de elementos atrativos, e o patrimônio histórico pode cumprir esse papel”, destaca.

André ressalta que o casario do bairro pioneiro possui características arquitetônicas relevantes. Segundo ele, pesquisadores apontam influência da arquitetura portuguesa trazida do Nordeste brasileiro.

Quem visita a Rua Cinco de Abril, já deve ter notado que algumas casas possuem platibanda (estrutura localizada na parte superior da fachada usada para esconder o telhado). O elemento é característico das casas típicas da região do Algarve, em Portugal.

Uma das residências teve seu interior demolido recentemente e agora sua fachada ostenta um anúncio de venda. André explica que além deste imóvel histórico, outros também enfrentam um processo de abandono e deterioração após longos períodos sem ocupação.

Além da preservação da memória, ele acredita que o aproveitamento turístico desses imóveis pode gerar renda para os proprietários.

“Muita gente tem curiosidade de conhecer essas casas antigas por dentro. Isso pode abrir espaço para turismo de experiência, cafés culturais, venda de lembranças e circulação de visitantes”, explica.

MEMÓRIA E IDENTIDADE

Ramon Cabral, educador patrimonial da Fundação Casa da Cultura de Marabá (FCCM), reforça o argumento de que os imóveis históricos ajudam a preservar a identidade marabaense.

“Toda cidade constrói sua identidade a partir da memória que ela guarda. O casario histórico testemunhou ciclos econômicos importantes de Marabá e ajuda a contar essa trajetória”, pontua.

Ramon Cabral reforça que a arquitetura de Marabá é importante para contar a história da cidade

Segundo Ramon, muitos desses prédios estão ligados diretamente ao período em que Marabá se destacou na produção de castanha, além de outras fases marcantes da formação econômica e social do município.

Nesse sentido, em 2020, a Fundação Casa da Cultura produziu um relatório fotográfico com levantamento de aproximadamente 40 bens culturais imóveis considerados relevantes para a memória local. O trabalho foi elaborado após solicitação do Conselho Gestor do Plano Diretor.

O documento reúne informações, fotografias, coordenadas geográficas e análises sobre o estado de conservação de prédios públicos, comunitários e particulares.

A Igreja São Félix de Valois foi construída em 1928 e é a mais antiga do município

Entre os espaços citados estão antigos casarões da Marabá Pioneira, as rampas do São Félix e da Folha 8, o antigo prédio da Cobal (atual sede da Polícia Federal), a antiga cadeia de São Luís, o Cine Marrocos, o Palacete Augusto Dias (que abriga o Museu Municipal), a Igreja São Félix e o antigo mercado municipal do núcleo São Félix.

Mas a preservação da identidade histórica marabaense não para aí. Ramon também ressalta a importância dos patrimônios imateriais da cidade.

“A gente não pode falar de patrimônio sem lembrar também das manifestações culturais, como a Festa do Divino, a Folia de Reis, as festas juninas, os bois e as festas de pássaros”, afirma.

O Palacete Augusto Dias, além de preservado, hoje guarda a história da cidade através do Museu Municipal

DISCUSSÃO SOBRE PRESERVAÇÃO

Ainda que Marabá possua uma legislação municipal voltada à preservação do patrimônio cultural desde 1987 é preciso que as normas sejam atualizadas e o Conselho de Patrimônio Cultural reativado. Essas medidas geram impacto no fortalecimento de mecanismos de preservação e contribuem para a discussão sobre formas de incentivo para manutenção dos imóveis históricos.

Em uma das esquinas da Travessa Santa Teresinha, uma imponente e antiga casa amarela chama a atenção de transeuntes

Preservar esse patrimônio envolve não apenas reconhecimento histórico, mas também condições para conservação desses espaços.

Por isso, relatórios como o produzido pela FCCM em 2020 são importantes. Esse levantamento teve como foco principal identificar edificações consideradas importantes para a memória da cidade. De acordo com o documento, o trabalho priorizou imóveis ameaçados por demolições, descaracterizações e alterações arquitetônicas.

A equipe técnica realizou visitas de campo, entrevistas com moradores antigos e registros fotográficos em diferentes pontos da cidade. O levantamento também catalogou imóveis conforme estado de conservação, valor histórico e importância memorial para a população.

O prédio da Acim é uma das construções históricas preservadas

Apesar disso, Ramon esclarece que nem todos os imóveis listados possuem reconhecimento oficial como patrimônio histórico.

“Esses prédios têm valor de identidade e memória para a cidade, mas muitos ainda não possuem reconhecimento legal como patrimônio cultural”, explicou.

Diante do risco de ter parte da história urbana de Marabá demolida, é preciso reforçar a necessidade de discussões sobre políticas públicas voltadas à preservação desses imóveis. Por isso, a continuidade desse debate deve envolver tanto a sociedade e o poder público, quanto proprietários e instituições ligadas à memória e à cultura da cidade.

Onde hoje é a Biblioteca Orlando Lima Lobo, no passado foi o Mercado Municipal de Marabá