Hoje existe apenas um caminho legal para receber uma dose de retatrutida: estar matriculado como paciente em um dos estudos clínicos da Eli Lilly, farmacêutica responsável pela molécula. Não há venda autorizada, não há bula aprovada, não há registro em nenhuma agência sanitária do mundo.
Ainda assim, canetas anunciadas com esse nome circulam em sites, redes sociais e apreensões na fronteira brasileira —meses antes de a própria empresa terminar as pesquisas que sustentam o produto.
Em março, antes mesmo de a Lilly divulgar qualquer resultado consolidado, uma empresa paraguaia já promovia, em um evento com influenciadores brasileiros, a produção de canetas à base da substância.
Só em junho vieram os primeiros dados robustos: um estudo publicado na revista The Lancet mostrou perda média de 28,3% do peso corporal entre pacientes com diabetes tipo 2 que receberam a dose mais alta.
Na apresentação desses resultados, no congresso da Associação Americana de Diabetes, representantes da própria Lilly já citavam o risco de a substância circular ilegalmente antes de existir de forma oficial.
Nesta sexta-feira (24), veio o alerta formal: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) confirmou que a retatrutida segue em desenvolvimento clínico, sem pedido de registro apresentado no Brasil nem em qualquer outro país.
O que ainda falta para o medicamento existir de fato
Estar em fase avançada de testes não é o mesmo que estar perto das prateleiras.
Segundo a Anvisa, antes de pedir aprovação a qualquer agência reguladora, a Lilly precisa fechar o conjunto de estudos que define qual dose tem a melhor relação entre benefício e risco, quais efeitos adversos podem surgir, se há complicações raras que só aparecem em grupos maiores, quem não deve usar a substância, como ela interage com outros remédios e se o efeito sobre o peso se mantém ao longo do tempo.
Só depois disso a empresa pode solicitar o registro —e as agências ainda analisam a composição do produto, o processo de fabricação e o controle de qualidade da planta. Nada disso foi cumprido até agora. O que se vende hoje como retatrutida, portanto, é anterior à própria existência legal do medicamento.
Em nota enviada nesta sexta-feira (24), a Lilly confirma esse estágio: a retatrutida está atualmente em fase 3 de estudos clínicos e “ainda não foi avaliada ou aprovada por nenhuma autoridade regulatória no mundo”, o que significa que “ninguém pode comercializar o produto”.
A farmacêutica classifica como prematuro especular sobre prazos de aprovação ou comercialização e afirma que a molécula “somente será considerada para submissão regulatória após a conclusão e avaliação dos estudos clínicos”.
O que é o medicamento
A molécula pertence à mesma família de remédios que popularizou o Ozempic, o Wegovy e o Mounjaro, mas com uma diferença de mecanismo: enquanto a semaglutida age sobre o hormônio GLP-1 e a tirzepatida combina GLP-1 e GIP, a retatrutida atua sobre três receptores ao mesmo tempo, somando o glucagon.
GLP-1 e GIP são liberados pelo intestino após as refeições e sinalizam ao cérebro que o corpo está saciado, além de ajudar o pâncreas a controlar a insulina. O glucagon é o diferencial: ao ser acionado, estimula o organismo a gastar mais energia, inclusive em repouso.
A aposta dos pesquisadores é que essa ação tripla amplie tanto a perda de peso quanto os efeitos metabólicos, na comparação com remédios que atuam em um ou dois desses caminhos.
Os números por trás da corrida
O estudo de fase 3 TRIUMPH-1, que acompanhou mais de 2,3 mil adultos com obesidade ou sobrepeso associado a alguma comorbidade, é a base mais robusta até aqui. Entre quem recebeu a dose mais alta, de 12 mg, a perda média de peso corporal foi de 28,3% em 80 semanas —até 31,9 kg.
Quase metade do grupo perdeu pelo menos 30% do peso inicial, patamar próximo ao de algumas cirurgias bariátricas, e cerca de 65% deixaram de se enquadrar no diagnóstico de obesidade pelo IMC ao fim do período. Entre os pacientes com obesidade mais grave que seguiram em uma extensão do estudo por 104 semanas, a perda média chegou a 38,5 kg.
O estudo publicado na Lancet, com 930 adultos com diabetes tipo 2, trouxe resultados parecidos de peso e uma queda no açúcar no sangue mais que o dobro da registrada no grupo placebo.
A mesma pesquisa apontou reduções de 60,6% na gravidade da apneia do sono e de até 73,1% na dor da osteoartrite no joelho entre os participantes com essas condições, além de melhoras em indicadores ligados a risco cardiovascular, como circunferência abdominal, triglicerídeos, pressão arterial e inflamação sistêmica.
Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais —náusea, diarreia, constipação, vômitos—, e o abandono do tratamento cresceu junto com a dose: 4,1% entre quem usou 4 mg, 6,9% na dose de 9 mg, 11,3% na de 12 mg, contra 4,9% no placebo.
Houve também alterações sensoriais leves e mais infecções urinárias em parte dos participantes, classificadas pela fabricante como leves a moderadas.
Ninguém sabe o que está sendo injetado
Fora dos estudos oficiais, a retatrutida não é fabricada industrialmente em nenhum país —o que muda por completo o tipo de risco envolvido.
Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que a primeira dúvida é a composição do produto vendido, “principalmente a origem”, já que se trata de um composto estéril e de uma molécula complexa, um triplo agonista.
Segundo ele, o problema vai além da eficácia: envolve contaminação por outras substâncias, presença de componentes estranhos, contaminação bacteriana —justamente por ser um composto que precisa ser estéril— e a imunogenicidade, isto é, a capacidade de o organismo reagir à molécula com uma resposta alérgica ou imunológica.
Macedo lembra que toda nova molécula desse tipo passa por testes obrigatórios de formação de anticorpos contra a própria substância, porque a reação pode ser grave.
“Existe a síndrome de Stevens-Johnson, que faz uma reação cutânea grave, descamativa, que pode acontecer por causa de medicamentos”, afirma.
Ele cita ainda o risco ligado à cadeia de conservação térmica: sem refrigeração adequada, o produto pode precipitar substâncias e gerar reações alérgicas ou compostos tóxicos para órgãos como fígado, coração e cérebro, além de reações inflamatórias locais.
Para o médico, o insumo farmacêutico ativo usado nessas canetas costuma vir de produção alternativa, em países que não seguem as exigências de patente —o que torna a situação, em suas palavras, “um absurdo, porque é uma medicação com potencial absurdo e é a bola da vez”.
Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da SBEM, reforça que a retatrutida não foi lançada nem pelo próprio laboratório detentor da patente.
“Realmente não dá para ter ideia do que tem lá dentro dessa caneta”, diz. “Não há como saber a concentração real, se há resíduos do processo de fabricação nem se a substância presente na caneta é, de fato, a retatrutida.”
Valente firma que o principal risco, no entanto, é mais direto:
- sintomas gastrointestinais importantes,
- possível mistura com outras substâncias (semaglutida, tirzepatida ou até vitaminas que alterem a velocidade de absorção)
- e risco maior de pancreatite, já que uma perda de peso acima de 1 kg por semana aumenta a chance de formação de cálculos na vesícula.
Segundo ele, o uso sem acompanhamento médico agrava esse quadro, por faltar avaliação laboratorial, monitoramento da composição corporal e orientação sobre alimentação e hidratação —cuidados que também fazem parte do tratamento com os medicamentos já aprovados.
Fabricante confirma contaminação em produtos falsificados
A própria Lilly corrobora, em nota, parte do que os médicos descrevem.
A farmacêutica classifica o mercado ilegal de produtos falsificados para obesidade como “criminoso e perigoso” e recomenda “enfaticamente” que os pacientes o evitem, além de cobrar das autoridades medidas para coibi-lo.
Segundo a empresa, pacientes que recorrem a esses produtos “não têm qualquer garantia sobre o que esses produtos contêm ou sobre as condições de segurança em que foram fabricados”.
A Lilly afirma já ter identificado, em produtos falsificados para obesidade, contaminação bacteriana, endotoxinas —substâncias tóxicas presentes na membrana de certas bactérias— e outras impurezas, e diz que problemas relacionados a segurança, esterilidade e eficácia “têm sido amplamente reportados”.
A farmacêutica orienta que medicamentos sejam adquiridos apenas de fontes confiáveis, como farmácias licenciadas, e afirma que segue trabalhando com autoridades públicas, incluindo a Anvisa, para combater a promoção e a venda desses produtos.
O Paraguai segue como a principal origem desse mercado paralelo de medicamentos da classe GLP-1 —grupo de hormônios intestinais ligados ao apetite e à saciedade— que chega ao Brasil, com apreensões diárias da Receita Federal e da Anvisa na fronteira de Foz do Iguaçu.
Nos três primeiros meses de 2026, o valor apreendido já passou de R$ 11 milhões, mais do que o total registrado em todo o ano de 2025. A Anvisa reforça que comprar ou usar medicamento sem registro sanitário não é só um risco à saúde: a comercialização de produtos irregulares também pode configurar crime.
O que fazer enquanto o registro não sai
Para quem busca tratamento para obesidade ou diabetes tipo 2 hoje, a orientação da Anvisa e da própria Lilly é não adquirir nem usar, em nenhuma hipótese, produtos vendidos como retatrutida fora de estudos clínicos oficiais.
Medicamentos da mesma classe já aprovados e registrados no Brasil —com semaglutida (Ozempic, Wegovy) ou tirzepatida (Mounjaro) como princípio ativo— seguem como opção avaliada por médico, considerando histórico de saúde, outras condições e riscos individuais. Nenhuma informação disponível hoje sobre a retatrutida substitui essa avaliação.
A Lilly não informou data para encerrar o programa de estudos nem para apresentar o pedido de registro às agências sanitárias. Até lá, o espaço entre o que a ciência já confirma e o que o mercado ilegal promete deve continuar sendo ocupado por produtos sem controle de origem, dose ou segurança.
(Fonte:G1)

