Correio de Carajás

Histórico editor do CORREIO e escritor lança mais um livro

Com 17 livros publicados e duas batalhas pela vida vencidas, jornalista volta a Marabá para falar de fé, missão e recomeço

Homem de meia-idade sorrindo, segurando um livro intitulado Do Gólgota à Glória de Domingos Cedar.
Domingos Cezar e o livro no qual divide sua experiência de ‘renascimento’
✏️ Atualizado em 10/07/2026 16h15

O jornalista, escritor e ambientalista Domingos Cezar Ribeiro está de passagem por Marabá, cidade onde residiu por muitos anos. Tem em mãos os exemplares da sua obra recém-lançada, o livro “Do Gólgota à Glória”, no qual promove um profundo relato pessoal sobre os dias de incerteza diante de grave enfermidade e de longa internação hospitalar, vencidos com a ação da Medicina, mas também por obra Divina, na visão dele, complementada pela fé.

Domingos Cezar passou pela redação do CORREIO para rever amigos e relembrar histórias dos tempos em que foi redator e editor no Correio do Tocantins. Foi recepcionado pelo nosso editor-chefe Patrick Carvalho e falou à Correio FM, na faixa de horário do radialista Leverson Oliveira.

A visita foi marcada desde o primeiro momento pela emoção de quem retorna a um lugar que guarda raízes profundas. “Voltar a Marabá para mim é emoção, porque é a minha cidade”, disse Domingos logo ao sentar diante do microfone. E há razões de sobra para esse sentimento. Marabá não foi apenas uma cidade onde ele trabalhou — foi o palco de algumas das realizações mais marcantes de sua trajetória. Ele residiu por aqui em dois momentos: primeiro na infância, entre 1960 a 1863 e depois entre novembro de 1981 a setembro de 1993.

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Além da longa passagem pelo jornalismo local, como redator e editor do Correio do Tocantins, ele foi um dos criadores do FECAM, o Festival da Canção de Marabá, que chegou a se tornar o quarto maior festival de música do Brasil.

“Eu trouxe os maiores artistas, maiores cantores, maiores compositores. Aqui nós produzimos grandes artistas, como Javier Di Mar-y-abá, como tantos e tantos outros”, relembrou, com o orgulho de quem sabe o que ajudou a construir. Também presidiu a Portuguesa e foi diretor do Clube Atlético Marabá, deixando marcas no esporte da cidade.

Patrick Roberto, ao apresentá-lo, foi preciso ao definir o que Domingos Cezar representa para o jornalismo regional: “Tudo o que se pratica hoje no jornalismo aqui na nossa região sul e sudeste do Pará, é fruto do que vocês praticaram naquela época”. A frase resume décadas de influência que se estendem para além das fronteiras do Pará, alcançando o Maranhão e o Tocantins — uma região que Domingos Cezar conhece como poucos, tendo percorrido seus rios, suas matas e suas cidades ao longo de toda a vida.

O mestre, a escola e a gratidão

Ao falar de sua formação e trajetória, Domingos César não hesitou em apontar o nome que considera central em sua história. “Eu tive um cara que, para mim, foi o cara que me agigantou. O cara chama-se Mascarenhas Carvalho. Esse para mim é meu mestre, professor, meu amigo”, afirmou, referindo-se ao jornalista fundador do Correio do Tocantins e com o qual trabalhou por anos. A dívida de gratidão, segundo ele, é impagável — e se manifesta na forma como ele próprio conduziu sua carreira: com rigor, dedicação e uma produção que poucos conseguem igualar.

São dezessete livros publicados ao longo de décadas, percorrendo os mais variados gêneros literários. “Sou romancista, sou contista, cronista”, enumerou. Mas a produção de Domingos César não se limita à literatura. Nos últimos anos, ele enveredou também pelo teatro, com peças que fizeram sucesso no Maranhão, e pelo cinema. Está em fase de finalização do documentário “Pelos Caminhos de Frei Manuel Procópio”, que reconstrói a rota percorrida pelo fundador de Imperatriz.

E já anuncia o próximo projeto: refazer a viagem de Francisco Coelho, o fundador de Marabá, registrando cada trecho do percurso histórico pelo Rio Tocantins. “Isso é importante para a história”, disse, com a convicção de quem entende que preservar a memória é também uma forma de militância.

Essa militância se estende ao trabalho ambiental, que Domingos César descreve como uma vocação que antecede qualquer decisão consciente. Ele conta que, ainda criança, ia passarinhar com os colegas e era o único que não matava os pássaros. Enquanto os outros capturavam, ele observava. “Deus já tinha me designado”, acredita.

Com o pai pescador, que morou em Marabá e lhe transmitiu o amor pelos rios, pela fauna e pela flora, ele foi construindo uma relação com a natureza que hoje se traduz em embargos de obras, defesa de abelhas nativas do Araguaia e disputas judiciais em favor do meio ambiente. “Eu não peço litro de gasolina para ninguém. Eu uso meu carro, eu uso meu barco, meu motor, e é tudo bancado por mim”, afirmou, deixando claro que o trabalho ambiental não é pauta de ocasião, mas compromisso de vida.

Ao ser perguntado sobre o estado dos rios da região, Domingos César fez questão de elogiar Marabá. “Eu nunca vi povo de Imperatriz (MA) com tão grande cuidado por esse rio Tocantins, com o mesmo amor pela natureza que o marabaense demonstra. Imperatriz não mostra, não tem esse amor”, disse, referindo-se à grande cidade maranhense que também fica à margem do rio. A observação vem de quem percorre esses rios duas vezes por ano, de canoa, registrando o que encontra e denunciando o que degrada.

“Saindo de Imperatriz de canoa até o Lago de Tucuruí, saindo de Imperatriz até Carolina, subindo o Araguaia… A mesma rota todo ano, duas vezes por ano. É o trabalho que eu faço como ambientalista”, descreveu.

Uma batalha que virou literatura

“Do Gólgota à Glória” carrega no título a síntese de uma experiência que Domingos César define sem eufemismos: ele esteve no limite entre a vida e a morte, e voltou. O livro narra, em primeira pessoa, os meses em que enfrentou uma grave enfermidade intestinal — o mesmo tipo de problema que acometeu o ex-presidente Jair Bolsonaro, como ele próprio compara para que o leitor compreenda a gravidade do que viveu.

O processo foi longo, doloroso e atravessou mais de uma unidade de saúde. Ele passou pelo Hospital Municipal de Açailândia e pelo Hospital Regional. Seu filho, médico e diretor de UPA, acompanhou de perto cada etapa da recuperação. Mas mesmo com suporte familiar e médico, houve momentos em que o peso foi grande demais. Domingos César não esconde isso — ao contrário, é justamente essa honestidade que dá força ao livro. “Eu vivi no inferno. Eu queria morrer. Eu me entreguei”, disse, pausadamente, como quem sabe que a confissão tem valor para quem está passando pelo mesmo. Foi nesse ponto de ruptura que, segundo ele, a fé deixou de ser apenas crença e se tornou o único alicerce que restava.

Ele conta que, nos momentos mais difíceis da internação, ouviu uma música gospel (Eu Vencerei, de Silvan Santos) que o tocou de forma inexplicável — e que o fez decidir que ainda não era hora de partir. “Eu disse: não, porque ainda tenho muito o que fazer.” A partir daí, a recuperação passou a ter um sentido que ia além da medicina. “Eu defino assim: uma crença, porque eu recebi uma missão. Eu recebi uma missão de Deus de cuidar e fazer essa parte ambiental”, explicou.

Duas batalhas, uma mesma fé

Não é a primeira vez que Domingos César enfrenta uma batalha dessa magnitude. Há mais de vinte anos, ainda no ano 2000, ele foi diagnosticado com um câncer maligno e agressivo. Foi encaminhado para tratamento no Hospital São Marcos, em Teresina (PI). A perspectiva era sombria. Mas ele chegou à capital piauiense com uma certeza que poucos conseguiriam sustentar naquele momento.

“Quando eu cheguei lá, eu disse: é Jesus que vai me operar. E isso aconteceu. Eu profetizei porque eu creio”, relembrou. A sobrevivência, para ele, não é coincidência médica — é confirmação de que há uma missão ainda em curso, que precisa ser cumprida antes que qualquer despedida seja possível. “Eu digo: Senhor, eu não cumpri ainda com minha missão aqui na Terra”, repetiu, como quem renova um pacto a cada novo obstáculo.

Essa convicção, que atravessa décadas e duas batalhas pela vida, é o fio condutor de “Do Gólgota à Glória”. O título não é metáfora vaga — é a descrição literal do que Domingos César viveu: a descida ao sofrimento mais profundo e a subida em direção à recuperação, à gratidão e ao recomeço. E o livro não foi escrito para si mesmo. Foi escrito para as pessoas que ele viu nos corredores dos hospitais por onde passou — aquelas que, ao contrário dele, jogaram a toalha.

“Eu vi nos hospitais que passei muita gente morrer que se entregava”, disse. As enfermeiras confirmavam o que ele observava: a entrega emocional antecedia e acelerava o fim. Domingos César quis escrever o antídoto para isso. Não um manual de autoajuda, mas um relato humano, visceral e honesto de alguém que também quis desistir — e não desistiu.

A mensagem final

Ao encerrar a entrevista na Correio FM, Leverson Oliveira pediu que ele deixasse uma palavra para quem está passando por um momento difícil, à beira de desistir. Domingos César respondeu sem hesitar, com a voz calma de quem já esteve naquele lugar e sabe o que é preciso ouvir. “Façam o que eu fiz. Acreditar no amor de Cristo, que só Cristo é esperança. A gente confia, entrega nas mãos de Jesus, porque Ele tudo faz e Ele tudo pode.”

Domingos César deixa Marabá neste final de semana. Tem filha e neta na cidade, o que tornou a visita ainda mais especial.