📅 Publicado em 28/01/2026 14h20✏️ Atualizado em 28/01/2026 14h20
Há 20 anos, o padre Mário José Maestri pisou em solo marabaense pela primeira vez. De ascendência italiana, o religioso saiu de Santa Catarina para pregar a palavra de Deus pelo Brasil. Após uma temporada no Maranhão, chegou a Marabá com a missão de assumir a Paróquia São Francisco de Assis, no núcleo Cidade Nova. E por lá permaneceu durante sete anos. Da porta daquela igreja, viu muitas pessoas definharem sob a influência de substâncias químicas.
“A Chácara Emaús começou em 9 de maio de 2009 por um sentimento de compaixão. Eu via aquelas pessoas na porta da igreja e, um dia, pensei: será que a gente não consegue fazer algo por essas pessoas?”, relembra.
O desejo que nasceu no coração do padre foi ouvido por um dos mais célebres empresários de Marabá, Leonildo Borges Rocha, o Leo da Leolar (já falecido). Naquela época, a criação do centro de reabilitação dependia de um local. Tão logo o religioso encontrou um terreno localizado no bairro Amapá, em uma das extremidades da Rua das Cacimbas, Leo o comprou e o destinou à causa.
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O próximo passo foi a arrecadação de recursos financeiros para iniciar a construção da chácara. Na união de apoiadores, a Nokia, empresa de telefonia móvel, doou 10 mil camisas para serem vendidas, e um show do padre Zezinho levou fé e louvor à cidade enquanto angariava fundos para o centro. Para complementar, a Leolar organizou um bazar beneficente em prol da iniciativa. Enquanto esteve em atividade, a empresa amparou o trabalho da Igreja Católica no município.
Assim nasceu o espaço que recebe e reabilita pessoas há quase duas décadas.
CHÁCARA EMAÚS
O espaço físico reflete o propósito espiritual construído para acolher dependentes químicos, exclusivamente homens. O contato com a criação divina, a natureza, faz parte do processo terapêutico. A rotina diária inclui o trabalho braçal na horta, no pomar e com as galinhas. Os momentos de preparo das refeições, a leitura e as orações se mesclam a essa jornada de maneira natural.
Nos nove meses de tratamento, o contato com o mundo externo é quase inexistente. Os homens só deixam a chácara acompanhados, prioritariamente pelo padre Mário ou por Cristiane Souza Rodrigues, coordenadora do centro e tesoureira da diretoria. Além disso, uma vez por mês, recebem a visita da família, sempre no primeiro domingo.
“Alguns familiares vêm às missas dominicais e aproveitam para ver o filho, o irmão ou o tio. Essas celebrações eucarísticas também são abertas à comunidade, e nossos benfeitores costumam participar”, explica. Nesses momentos, a capela Nossa Senhora de Nazaré fica lotada.
Nesses mesmos dias, parte da produção da chácara é vendida à comunidade. Frutas, ovos, galinhas e polpas, resultado do trabalho dos internos, são comercializados. A renda se soma às doações que sustentam o centro. A Igreja Católica não arca com as despesas da chácara. Essa missão é abraçada por benfeitores de Marabá e região, que doam desde recursos financeiros até material de limpeza.
“Desde que começamos aqui, eu nunca encontrei, em outras paróquias e cidades, uma sensibilidade social tão pungente quanto a que encontro em Marabá”, reconhece padre Mário.
Atualmente, o centro abriga 14 internos, mas já chegou a acolher 26. Padre Mário acredita que o ideal é manter 16 pessoas, tanto em razão das acomodações quanto do tamanho da propriedade. Para conseguir uma vaga, é necessário realizar a inscrição no local e passar por uma entrevista com o padre.
Ao observar os números, o religioso ressalta que cerca de 90% dos que passaram por ali romperam o vínculo com a instituição e não concluíram o tratamento. Daí a importância de três eixos no processo de recuperação: a espiritualidade, a vida em comunidade, como preparação para a reinserção social, e a laborterapia.

ESPIRITUALIDADE
“Nosso tratamento terapêutico é inspirado na Fazenda da Esperança, que é uma referência nacional e internacional no trabalho de recuperação de dependentes químicos”, pontua padre Mário. Em contraste com o processo adotado em outras clínicas, na Chácara Emaús o responsável pela desintoxicação é o tempo. O religioso defende que, se o interno permanecer seis meses sem usar a substância química, ele fica limpo.
“Não sente aquela fissura, aquela dependência ou abstinência, como eles dizem”.
Ao aprofundar o aspecto da espiritualidade, padre Mário crê que “a dependência química é uma total ausência de Deus no coração das pessoas”. Ele reconhece que praticar a religião e frequentar a igreja não isenta ninguém dos problemas, mas orienta-se por determinadas normas de comportamento.
Para o clérigo, a sociedade atual escreve sua trajetória pautada no relativismo, em que cada um sustenta a própria verdade. “O que está faltando na humanidade é um ponto de referência”, reflete, ao falar daqueles que não caminham com Deus.
Ao assumir a direção espiritual dos internos, padre Mário considera as diferentes crenças e religiões que os acompanham. A partir desse entendimento, as práticas religiosas da instituição são ecumênicas até onde for possível.
“Se temos tanta coisa em comum, para que vou falar daquilo que nos divide?”.
Ao assumir o compromisso divino de cuidar da Chácara Emaús e de seus internos, padre Mário abraçou um novo sentido para a própria vida, o de ser útil a alguém. Para ele, é gratificante testemunhar o reerguimento de quem chegou ao fundo da própria indignidade.
“Isso faz com que a gente renove nossa vontade a cada dia, o entusiasmo e a paixão de se dedicar a esse trabalho”, finaliza.
