A cena é recorrente: um comprimido para dor aqui, um chá “natural” ali, um remédio doado do vizinho. Para muitos idosos, a automedicação parece uma solução rápida, mas pode se transformar em um problema grave. Mas para Dona Doralice Lima Roberto, de 89 anos, diagnosticada com demência mista (Alzheimer e vascular) e portadora de múltiplas comorbidades, como glaucoma, osteoporose, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, ansiedade e depressão, isso não acontece. Tudo o que a aposentada toma de medicamentos é rigorosamente controlado pelas filhas.
Dona Dora, como é chamada carinhosamente, é acompanhada por uma geriatra e pelo médico da família da UBS do bairro. Sua rotina inclui o uso contínuo de diversos medicamentos: colírios, suplementação vitamínica, três anti-hipertensivos, uma estatina, dois fármacos para o quadro cognitivo, um antipsicótico, dois ansiolíticos e um para insônia. “Quando surgem intercorrências, mais medicações são acrescentadas, o que exige de nós, cuidadoras, atenção redobrada”, relata uma das filhas.
Para garantir segurança e evitar erros, as três irmãs que se revezam nos cuidados com a mãe criaram um sistema rigoroso de controle: uma tabela com nome, dosagem, horários e observações dos medicamentos, visível na porta da geladeira, com cópias digitais e impressas. As medicações são armazenadas em uma caixa organizadora, fora do alcance da paciente e de crianças. “Sempre que uma de nós precisa sair, repassamos um relatório à outra sobre o que foi administrado, se houve alguma alteração ou esquecimento. A comunicação entre nós é essencial”, explicam.
Leia mais:O relato reforça que lidar com a polifarmácia em idosos exige conhecimento, vigilância e afeto. Segundo a médica geriatra e professora da Afya Marabá, Recielle Chaves, os riscos vão muito além dos efeitos colaterais. “A automedicação pode causar reações adversas, intoxicações e interferir diretamente no tratamento de doenças crônicas, levando até a internações evitáveis”, alerta.
Com o envelhecimento, o organismo passa por mudanças que tornam os idosos mais vulneráveis aos efeitos dos medicamentos. O fígado e os rins, responsáveis por metabolizar e eliminar substâncias, funcionam mais lentamente. A menor ingestão de água também contribui para que os remédios permaneçam mais tempo no corpo. “Além disso, o sistema nervoso e o cardiovascular ficam mais sensíveis, o que faz com que doses seguras para adultos jovens possam ser tóxicas para os idosos”, explica a médica.
Entre os medicamentos mais perigosos quando usados sem orientação estão os anti-inflamatórios e analgésicos comuns, como ibuprofeno e diclofenaco, que podem causar sangramentos digestivos e prejudicar os rins. Sedativos e calmantes aumentam o risco de quedas e confusão mental. Antialérgicos antigos, antibióticos, antivertiginosos e até fitoterápicos também oferecem riscos sérios, especialmente quando combinados com remédios de uso contínuo.
O impacto da automedicação é ainda mais preocupante em pacientes com doenças crônicas. “Alguns medicamentos podem anular o efeito de remédios para hipertensão, diabetes ou doenças cardíacas. Anti-inflamatórios, por exemplo, elevam a pressão arterial e dificultam o controle do diabetes”, afirma Dra. Recielle.
A família tem papel essencial na prevenção. Acompanhamento médico, organização dos medicamentos e atenção aos sinais de alerta são atitudes que fazem diferença. “Sonolência excessiva, quedas, confusão mental, alterações no apetite ou na urina são sinais que devem ser avaliados com urgência”, orienta.
Assim como a família de Dona Doralice implementou, uma rotina segura inclui o uso de caixas organizadoras, listas atualizadas com nome, dose e horário dos medicamentos, além da eliminação de frascos sem rótulo ou comprimidos soltos. “Todo sintoma novo no paciente idoso deve levantar uma suspeita: será que foi iniciado por algum medicamento?”, reforça a médica.
Mas e quando é o próprio idoso que tem que se medicar? Segundo o Enfermeiro Marcos Vinícios Ferreira, Mestre em Ciências e Meio Ambiente; Especialista em Urgência, Emergência e UTI e Especialista em Saúde da Pessoa Idosa, que atua na Afya Redenção, os erros mais comuns cometidos por pessoas idosas envolvem esquecer doses, tomar remédios repetidos achando que não tomaram antes, confundir comprimidos parecidos, usar medicamentos vencidos e seguir orientações antigas, sem perceber que a prescrição já mudou.
Nesses casos, de acordo com Marcos, as estratégias de atenção e cuidado com a medicação podem fazer toda a diferença. “Para garantir o uso correto dos remédios quando o idoso mora sozinho, vale combinar lembretes, visitas periódicas de um familiar, conferência semanal dos medicamentos e, se possível, acompanhamento de um profissional de saúde. Manter uma rotina fixa também faz diferença, porque o hábito facilita a adesão”. Complementa.
Para a médica Recielle, o cuidado com os medicamentos é um ato de amor e responsabilidade. “A automedicação parece algo simples, mas pode ser muito perigosa para o idoso. A melhor forma de cuidar é acompanhar com atenção, manter o diálogo com o médico e nunca acrescentar nada sem orientação.”
Sobre a Afya
A Afya, maior ecossistema de educação e tecnologia em medicina no Brasil, reúne 38 Instituições de Ensino Superior, 33 delas com cursos de Medicina e 25 unidades promovendo pós-graduação e educação continuada em áreas médicas e de saúde em todas as regiões do país. São 3.653 vagas de Medicina aprovadas e 3.543 vagas de medicina em operação, com mais de 24 mil alunos formados nos últimos 25 anos. Pioneira em práticas digitais para aprendizagem contínua e suporte ao exercício da Medicina, 1 a cada 3 médicos e estudantes de Medicina no país utiliza ao menos uma solução digital do portfólio, como Afya Whitebook, Afya iClinic e Afya Papers. Primeira empresa de educação médica a abrir capital na Nasdaq em 2019, a Afya recebeu prêmios do jornal Valor Econômico, incluindo “Valor Inovação” (2023) como a mais inovadora do Brasil e “Valor 1000” (2021, 2023, 2024 e 2025) como a melhor empresa de educação. Virgílio Gibbon, CEO da Afya, foi reconhecido como o melhor CEO na área de Educação pelo prêmio “Executivo de Valor” (2023). Em 2024, a empresa passou a integrar o programa “Liderança com ImPacto”, do Pacto Global da ONU no Brasil, como porta-voz da ODS 3 – Saúde e Bem-Estar. Mais informações em: www.afya.com.br e ir.afya.com.br
