📅 Publicado em 29/01/2026 16h00
A estrutura de acolhimento institucional para pessoas LGBTQIAPN+ em Marabá apresenta fragilidades que impactam diretamente o acesso à saúde mental no município. A ausência de políticas afirmativas estruturadas, as barreiras enfrentadas nos serviços públicos e a demora no atendimento formam um cenário em que iniciativas da sociedade civil acabam suprindo lacunas deixadas pelo poder público. Dados de uma pesquisa da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) reforçam que esse contexto contribui para índices elevados de sofrimento psíquico, especialmente entre pessoas trans e não-binárias.
Durante a investigação sobre a rede de atendimento em saúde mental destinada à população LGBTI+ em Marabá, a reportagem tentou entrevistar a coordenadora de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Paula Rabelo. Três entrevistas chegaram a ser agendadas, mas todas foram canceladas horas antes de sua realização. Como justificativa, foi informado que a gestora assumiu o cargo recentemente e não dispõe de informações suficientes para tratar do tema junto à imprensa.
A ausência de posicionamento institucional expõe fragilidades na condução da política municipal de saúde mental voltada à população LGBTI+. Durante o Janeiro Branco, campanha nacional de conscientização sobre saúde mental, não foram identificadas ações específicas ou afirmativas voltadas a esse público no calendário divulgado pela SMS. O mês também marca o Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, data que novamente passou sem iniciativas direcionadas à comunidade por parte do poder público municipal de Marabá.
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Aviso de conteúdo sensível: os trechos a seguir mencionam temas relacionados a saúde mental e suicídio. A leitura pode causar desconforto em algumas pessoas.
Há dois anos como presidente da ONG Viver LGBT, há oito a jornalista Tayana Marquioro atuana pauta da comunidade queer (expressão guarda-chuva para identidades LGBTQIAPN+) em Marabá. Natural de Belém, ela se mudou para o município em 2012 e se aproximou da militância por meio do coletivo Empodere-se de Mulheres Lésbicas e Bissexuais e da organização da Parada do Orgulho LGBT, hoje Parada da Diversidade. A jornalista conta que a organização foi criada a partir da constatação de que o movimento local concentrava sua força em grandes eventos, mas deixava descobertas as demandas cotidianas mais urgentes da população.
Segundo Tayana, a proposta da organização foi atuar de forma contínua, atendendo necessidades relacionadas à sobrevivência, ao acesso a direitos e à dignidade. A ONG foi estruturada com uma diretoria plural, composta por diferentes identidades. Ela ocupa a presidência, enquanto a vice-presidência é exercida por um homem trans, numa tentativa de romper com a lógica histórica de protagonismo restrito a homens gays dentro das organizações do movimento.
A saúde mental passou a ocupar lugar central na atuação da Viver LGBT após a morte de Crisan, um jovem cuja trajetória evidenciou falhas graves na rede de apoio psicológico em Marabá.

“Era um menino que já apresentava sinais de comprometimento mental. Na época do caso, por causa dos vídeos que circularam e das informações que se espalharam na internet, muita gente acabou julgando e condenando a família. Mas, conforme orientações do Conselho Nacional de Psicologia, não se pode responsabilizar ninguém por um suicídio ou por um ato de autoextermínio”, relembra a jornalista.
Para ela, o episódio deve ser compreendido como resultado da ausência do Estado enquanto garantidor de políticas públicas, e não como responsabilidade individual ou familiar. A jornalista destaca que relatos de LGBTfobia são recorrentes e atravessam espaços como família, trabalho, escola e universidade, ambientes que deveriam oferecer proteção, mas que muitas vezes ampliam o sofrimento psicológico.
Foi diante desse cenário que a ONG articulou uma rede de atendimento psicológico voltada especificamente para pessoas LGBTI+, com profissionais que também fazem parte da comunidade. A proposta busca garantir acolhimento, escuta sem julgamentos e segurança emocional. A iniciativa conta com parceria de dois psicólogos e é viabilizada por meio de um formulário eletrônico. Com apoio da Unifesspa, a organização também conseguiu um espaço físico para atendimentos presenciais, além da opção de consultas online. A procura pelo serviço foi imediata.
“Nas primeiras horas, tivemos cerca de 50 inscritos. Para ter uma ideia, quando tentamos promover ações educativas ou mobilizações, dificilmente conseguimos reunir esse número de pessoas. Mas, ao levantar a pauta da saúde mental, foram 50 inscrições em duas ou três horas, muitas de pessoas que eu não conhecia”, afirma. Segundo ela, a procura inesperada causou surpresa e preocupação, por evidenciar falhas no acesso aos serviços de saúde mental no município e a dificuldade de universalizar essas políticas públicas. Ainda assim, destacou a satisfação em conseguir oferecer algum tipo de apoio às pessoas que buscaram ajuda.
Ela avalia ainda que o problema não afeta apenas a população LGBTQIAPN+, mas toda a sociedade. No Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), por exemplo, o tempo de espera por um psicólogo pode chegar a três meses, prazo incompatível com situações de sofrimento intenso e risco iminente.
Destaque no acolhimento em saúde mental em Marabá
Lucival Monteiro, psicólogo que atua no CAPS III Castanheira em Marabá, explica que o acesso das pessoas LGBT aos serviços de saúde mental em Marabá ocorre principalmente pela atenção básica, por meio das Unidades Básicas de Saúde, e também pelos CAPS. Ele destaca a atuação da ONG Viver LGBT como uma das poucas iniciativas voltadas especificamente para o acolhimento dessa população no campo da saúde mental, avaliando que, no momento, o trabalho desenvolvido tem sido satisfatório.
“Fui convidado por amigos e colegas para colaborar com a ONG como psicólogo, com a proposta de realizar atendimentos de breve duração”, relata. Segundo ele, esse modelo consiste em terapias de três a cinco sessões, voltadas à triagem, à escuta qualificada, à psicoeducação e à orientação das pessoas atendidas, com o objetivo de avaliar a gravidade dos casos. Situações consideradas graves, agudas ou persistentes são encaminhadas para os Centros de Atenção Psicossocial, enquanto os demais casos seguem para as unidades básicas de saúde. Nesse contexto, explicou que o papel do psicólogo é acolher, orientar e contribuir para o encaminhamento adequado dessa população.

“Os principais sofrimentos mentais enfrentados por pessoas trans estão ligados a diferentes formas de violência, como a violência doméstica, a transfobia, conflitos nas relações afetivas e também à disforia, que frequentemente atravessa suas vivências e gera intenso sofrimento psíquico”, complementa o psicólogo. Segundo ele, os serviços de saúde atualmente ofertados em Marabá, tanto na atenção básica quanto no CAPS, ainda apresentam barreiras de acesso, como o desrespeito ao nome social e situações de estigmatização por parte de usuários e profissionais.
Diante desse cenário, a ONG Viver LGBT tem atuado com ações de psicoeducação, especialmente em períodos como o mês da Visibilidade Trans e outras datas voltadas à população LGBT, com o objetivo de conscientizar e aproximar essa população dos serviços de saúde. Essas situações, segundo Lucival, configuram um gargalo importante na rede de saúde mental do município. Por isso a importância do trabalho da ONG em conscientizar a sociedade e aproximar essa população dos serviços, construindo pontes entre usuários e instituições. Ainda assim, ele afirma que não há, atualmente, ações afirmativas estruturadas nos CAPS voltadas especificamente para esse público.
Tentativas de promover formação continuada encontraram resistência, que ainda se manifesta, por exemplo, na dificuldade de alguns profissionais em utilizar o nome social em documentos e atendimentos coletivos.
ESTRESSE DE MINORIA
A fragilidade da rede municipal de acolhimento dialoga com dados de uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Unifesspa, que identificou índices significativamente mais altos de sofrimento psíquico entre pessoas trans, não-binárias e com outras identidades de gênero, em comparação com pessoas cisgênero. O estudo “Estresse de minoria em pessoas trans e não-binárias” aponta que a violência, a exclusão social, as microagressões e o apagamento de identidades afetam de forma profunda a saúde mental dessa população, enquanto o apoio social e o reconhecimento da identidade de gênero atuam como fatores de proteção.
A pesquisa utilizou um instrumento da Organização Mundial da Saúde voltado à triagem de Transtornos Mentais Comuns. Os resultados mostram que 50% dos participantes cisgênero apresentaram sinais clinicamente relevantes, índice que sobe para 73,5% entre pessoas transgênero, 85,4% entre pessoas não-binárias e 86,9% entre participantes com outras identidades de gênero. Esses grupos também apresentaram maior frequência de sintomas como disforia, exaustão, pânico e ideação suicida.
De acordo com o professor Caio Maximino, líder do estudo, os achados dialogam com o modelo teórico do estresse de minoria, que aponta para a sobrecarga de estressores vivida por pessoas LGBTQIA+ ao longo da vida, em razão da desvalorização social de suas identidades. No caso de pessoas trans e não-binárias, esse processo inclui dificuldades de acesso a direitos e serviços básicos, expulsão de casa, episódios de violência e experiências cotidianas de discriminação, que favorecem a internalização do estigma.
Os dados mostram ainda que pessoas trans tiveram quase quatro vezes mais chance de sofrer violência em razão da identidade de gênero e apresentaram probabilidade significativamente maior de evitar locais e situações por medo de retaliação. Para os pesquisadores, essa exposição contínua a estressores contribui para a transfobia internalizada, apontada como um dos principais fatores associados aos piores indicadores de saúde mental.
Apesar do cenário adverso, o estudo também identifica estratégias de enfrentamento construídas historicamente pela comunidade trans, como as famílias de escolha e os vínculos comunitários. A pesquisadora Larissa Otsuka Mesquita explica que o apoio à identidade de gênero reduz o impacto da transfobia internalizada e contribui para a diminuição do sofrimento psíquico.
Com base nos resultados, a equipe da Unifesspa trabalha na elaboração de recomendações voltadas a gestores e profissionais da saúde mental, além de coletivos e organizações da sociedade civil. Para os pesquisadores, o sofrimento psíquico vivido por pessoas trans e não-binárias não pode ser tratado apenas como uma questão individual, mas como resultado de uma estrutura social e institucional que ainda falha em garantir acolhimento, acesso e dignidade.

