📅 Publicado em 11/02/2026 19h35
Na tarde desta quarta-feira (11), o auditório da Unidade III da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) recebeu um evento relevante para as comunidades camponesas: o lançamento do livro “Currículo Integrado, Agroecologia e Letramento em Português e Matemática: relatos de experiência sobre projetos de ensino em Escolas do Campo no Sudeste Paraense”. A obra é apresentada em duas versões: impressa e digital.
O trabalho é dividido em 11 capítulos que apresentam experiências do campo que estimulam a reflexão sobre letramento, currículo integrado e agroecologia como bases de uma formação humana não predatória, válida em diferentes contextos. A obra articula fundamentos teóricos e o diálogo sobre problemas locais para integrar os projetos pedagógicos à construção de alternativas para esses desafios.
Durante o evento, o Correio de Carajás conversou com algumas das pessoas responsáveis pela publicação, incluindo Suane Rodrigues, coordenadora pedagógica na Escola de Educação Infantil Madalena Freire, localizada no Assentamento 1º de Março, em São João do Araguaia. Cícera Justino Ferreira Pinto atua na mesma instituição, mas ocupa o cargo de gestora há 12 anos.
Leia mais:A dupla contribuiu com o livro escrevendo um de seus capítulos, aquele que fala sobre uma sequência didática com base em uma das fábulas de Esopo: A Galinha Ruiva. “Nós atendemos crianças de 3 a 5 anos e foi tudo pensado dentro do que trabalhamos nas oficinas dos professores da Unifesspa. Eles falavam bastante sobre a questão da agroecologia, do currículo integrado e do letramento”, aprofunda Suane.
Nesse processo, os pequenos alunos tiveram experiências práticas que conectavam suas vivências em casa com as lições escolares. Instigada pela reportagem deste CORREIO, Cícera reflete que o universo educacional infantil é enriquecido quando as crianças visitam o galinheiro, a roça, o milharal e aprendem sobre as práticas camponesas.
“É importante para que eles cresçam entendendo que o campo é lugar de produção de vida digna, de liberdade e de uma diversidade de coisas que a educação baseada na cidade não consegue entregar”, pontua a gestora.
Já Edmilson Vieira dos Santos, professor de Educação Básica na Vila Ponta de Pedras, levou para a sala de aula – e para o livro – a problemática da escassez de água. “É um problema crônico de falta de água na nossa comunidade, um problema profundo, e por isso nos preocupamos em trabalhá-lo”, explica o educador.

Ao ser perguntado sobre a importância de formações específicas para professores do campo, ele avalia a ação como relevante, pois professores da educação básica costumam ser invisibilizados. Uma vez que o conteúdo do livro foi construído no chão dessas escolas, ele é vital para essas comunidades.
“É interessante porque é muito diferente daquele produzido no Sul e Sudeste (do Brasil). A gente recebe o livro de lá, totalmente desconectado da realidade do nosso aluno. Fazer parte desse projeto é dar protagonismo para as nossas crianças”, conclui.
PAPEL DA ACADEMIA
O livro nasce da ação vinculada a um projeto de extensão financiado pela Secretaria de Governo de Estado. Durante um ano, a equipe, formada por docentes e alunos da Faculdade de Educação no Campo (Fecampo), trabalhou em um processo formativo com educadores do campo as temáticas que envolvem o letramento em português e matemática, agroecologia e currículo integrado.
“Após essa formação, os professores passaram a aplicar o aprendizado em um projeto de ensino em suas escolas. Na sequência, eles fizeram um relato dessa experiência, dando corpo ao livro”, explica Flávia Lisboa, professora da Fecampo e coordenadora do projeto.

Questionada sobre a importância do curso de Educação no Campo para a qualificação específica de professores que atuam na educação rural, quilombola, indígena e de demais povos originários, Flávia relembra que a educação possui uma política de homogeneização na qual a lógica da cidade é replicada no campo.
“Com esse curso, o movimento passa a lutar por uma educação específica, ou seja, uma educação pautada nas referências do próprio campo”. Assim, o ensino vai ganhando um sentido alicerçado na relação dos alunos e das comunidades com o campo, seu território e formas de produção. Estrategicamente, essa formação devolve às comunidades rurais o seu protagonismo no ensino de crianças e adolescentes.
Para a professora, o curso de Educação no Campo é uma ação de política afirmativa da universidade, sobretudo por ser fruto da luta pelo movimento camponês na região de Carajás.
Indagado pela Reportagem, Maurílio Monteiro, professor de Economia e coordenador geral do projeto, afirma que o processo foi marcado por aprendizados significativos. Segundo ele, professores e professoras enfrentam obstáculos para implementar ações integradas por causa de exigências formais do sistema, que acabam restringindo iniciativas inovadoras.

“Há uma necessidade de a sociedade acompanhar e avaliar o que está sendo feito, mas esses ritos de avaliação não podem engessar a escola a ponto de dificultar ou limitar a iniciativa dos professores nessa busca pela integração e pela inovação”, afirma. Para ele, quando as regras se sobrepõem à prática pedagógica, o resultado é a limitação do potencial criativo dentro do ambiente escolar.
SAIBA MAIS
Escrito por 69 professores da educação básica, o livro responde à lacuna de práticas extensionistas na universidade que visibilizem os professores que estão no chão da escola como protagonistas e, especialmente, autores de livro.
A ação de extensão envolveu os docentes da Fecampo/Unifesspa Haroldo de Souza, João Pedro Antunes de Paulo, Maura Pereira dos Anjos, Rodrigo de Almeida Muniz e Flávia Marinho Lisbôa (Coordenadora), além de cinco discentes da faculdade que atuaram como bolsistas: Joelson de Sousa Pereira, Jhones Tavares Aquino, Edilene Leão da Silva, Rafael Baião Correia, Claremilta Sousa dos Santos. A coordenação geral do projeto de extensão à qual se vincula a ação é do professor Maurilio Monteiro, docente da Faculdade de Economia/Unifesspa.
A publicação leva o selo editorial do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde a professora Flávia Marinho Lisbôa é vinculada como docente permanente. A capa do livro parte de um registro fotográfico de uma escola do campo da região onde foi desenvolvido o projeto e o prefácio é de autoria de Maria Raimunda, do Setor de Cultura e Educação do MST.
SERVIÇO:
Link para acesso gratuito ao livro digital: https://doi.org/10.6084/m9.figshare.31272343
