Já pensou poder descobrir se tem câncer de mama apenas com uma pequena amostra de sangue? Um exame desenvolvido por pesquisadores brasileiros pode ser essa solução e ajudar no rastreamento do câncer de mama.
A tecnologia, que ainda está em fase de testes, busca identificar sinais da doença por meio de biomarcadores presentes no sangue. A ideia é que ele seja usado como teste rápido para ampliar o acesso à informação para as pacientes pelo Brasil.
Esses números chamam atenção porque o câncer de mama tem altas chances de cura quando descoberto nas fases iniciais. Mesmo assim, muitas mulheres ainda chegam ao diagnóstico em fases mais avançadas da doença.
➡️ Um dos principais obstáculos é o acesso ao rastreamento. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a oferta de mamografia — principal exame para detectar o câncer de mama — ainda é desigual, especialmente em regiões mais afastadas e na rede pública de saúde.
No SUS, o rastreamento do câncer de mama é recomendado para mulheres de 50 a 69 anos. Em 2025, o Ministério da Saúde passou a ampliar o acesso à mamografia para mulheres a partir dos 40 anos, sob avaliação médica. No entanto, a doença vem surgindo em mulheres cada vez mais jovens e de forma agressiva, já que não há rastreamento em faixas etárias menores.
O que é o teste?
A tecnologia foi desenvolvida a partir de uma pesquisa da Faculdade de Medicina do ABC. O teste usa uma técnica conhecida como biópsia líquida, que busca no sangue sinais moleculares associados ao câncer. Em vez de detectar o tumor por meio de imagens, como acontece na mamografia, o exame identifica alterações genéticas ligadas ao crescimento de células tumorais.
No RosalindTest, nome dado ao produto, os pesquisadores analisam dois biomarcadores específicos: HIF-1α e GLUT1. Esses genes costumam ter alterações quando células tumorais passam por um processo chamado hipóxia — situação em que o tumor cresce em um ambiente com pouco oxigênio.
Segundo os pesquisadores, essas alterações podem ser detectadas no sangue antes mesmo de o tumor ser identificado em exames de imagem. Nos estudos clínicos iniciais, o teste apresentou acurácia de cerca de 95%.
A proposta é que, confirmados os resultados, o rastreamento do câncer de mama no país possa ser semelhante ao que ocorre no caso do câncer de próstata, por exemplo, em que é possível usar um teste de sangue.
“A gente não pode impedir que o câncer apareça, mas podemos impedir que ele mate. E se o diagnóstico acontecer no estágio inicial, a gente quer facilitar o acesso e tornar o processo menos prejudicial para a mulher e evitar mortes”, explica Beatriz Aguiar, pesquisadora envolvida no projeto.
A pesquisadora afirma que não só ampliaria o acesso chegando aos pacientes, como oferecendo uma opção menos dolorosa, aumentado a adesão ao rastreamento.
🔴 Atenção: a proposta é que o teste seja complementar aos exames de imagem, mas não substitua a mamografia. A ideia é que isso ajude o poder público a priorizar a paciente que testou positivo e também amplie a investigação nos casos em que os exames de imagem são negativos, mas há marcadores de tumores.
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Teste pode ampliar acesso ao rastreamento
Uma das principais apostas dos pesquisadores é que o exame possa ajudar a ampliar o acesso ao rastreamento, especialmente em regiões onde a mamografia é mais difícil.
Enquanto o exame de imagem depende de equipamentos, infraestrutura hospitalar e profissionais especializados, a coleta de sangue pode ser feita em unidades de saúde menores ou em áreas mais remotas.
🔴 Nesse modelo, o teste funcionaria como uma etapa inicial de triagem. Caso o resultado indique alterações associadas ao câncer, a paciente seria encaminhada com prioridade para exames complementares, como mamografia ou biópsia.
Em um projeto-piloto realizado em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), o exame foi aplicado em 600 mulheres que vivem no campo, no interior de São Paulo e do Ceará. Muitas delas nunca haviam realizado exames de rastreamento para câncer de mama.
Entre as mais de mil mulheres acompanhadas na fase de validação, um caso em particular chamou a atenção dos pesquisadores: um dos testes revelou o resultado mais alto já registrado pela equipe, indicando uma forte presença de biomarcadores tumorais. No entanto, ao realizar a mamografia e o ultrassom, os resultados foram negativos.
Intrigada com o sinal de alerta no sangue, a paciente buscou um especialista e realizou uma ressonância magnética, que finalmente localizou um tumor em primeiro estágio. Por ter sido descoberto precocemente, a paciente precisou apenas de uma intervenção cirúrgica, sem a necessidade de passar por tratamentos agressivos, como quimioterapia ou radioterapia.
Teste ainda tem limitações
Especialistas que não participaram da pesquisa avaliam que o projeto é promissor, mas destacam que ainda são necessários estudos maiores para confirmar a eficácia da tecnologia.
Para o mastologista e cirurgião oncológico José Carlos Sadalla, iniciativas que buscam ampliar o acesso ao diagnóstico são importantes, especialmente diante das dificuldades enfrentadas por muitas pacientes no sistema público.
Porém, ele aponta ressalvas sobre a especificidade do exame, observando que os biomarcadores pesquisados podem estar alterados em outros tipos de câncer, e não apenas no de mama.
🔴 Sadalla ressalta que o teste ainda é uma “promessa” em fase de validação e que o número de pacientes testadas ainda precisa crescer para garantir segurança em larga escala.
“É uma pesquisa brasileira e isso é muito legal. O estudo preliminar é bom, mostra que essas proteínas estão mais aumentadas no câncer do que em pessoas saudáveis, mas ainda foi testado em um número pequeno de pessoas. É uma promessa, então vamos com calma, mas, se funcionar, vai ser um excelente apoio para o rastreamento.”
(Fonte:G1)

