Correio de Carajás

Estudante denuncia afastamento de estágio e dilemas na educação inclusiva em Marabá

Vanessa Araújo afirma que foi retirada das atividades após questionar situações enfrentadas por estagiários e diz ter sido pressionada a fornecer informações sobre tratamento médico

Vanessa relata episódios de negligência por parte da Secretaria Municipal de Educação, que ainda não se pronunciou sobre o caso / Kauã Fhillipe
Por: Kauã Fhillipe
✏️ Atualizado em 01/09/2026 15h33

Uma estudante da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) procurou o Correio de Carajás para denunciar problemas no programa de estágio voltado à educação inclusiva da rede municipal de Marabá. Vanessa Araújo, estudante de Geografia – Licenciatura, afirma ter sido afastada das atividades após relatar situações envolvendo falta de suporte aos estagiários, episódios com alunos e condições inadequadas na EMEF Dr. José Cursino de Azevedo, na Foloha 10, Nova Marabá, onde atuava.

Segundo Vanessa, o estágio é realizado por meio de parceria entre o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e a Secretaria Municipal de Educação (Semed), com pagamento de bolsa. A atividade também é utilizada para complementar a carga horária necessária à conclusão do curso. Ela estava no programa havia cerca de três a quatro meses.

O principal questionamento da estudante é sobre o afastamento. Vanessa conta que, após procurar a Semed para relatar problemas na escola, foi informada pela direção de que não precisava mais comparecer às atividades. Depois, teria sido comunicada de que estava afastada por questões relacionadas ao uso de medicamentos.

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Ela afirma ter solicitado um documento formal que comprovasse a decisão, mas não recebeu a declaração. Também questiona o afastamento por não ter recebido, segundo ela, determinação médica para interromper as atividades. “Eu preciso que alguém dê esse suporte para a gente sem nos reprimir, sem nos humilhar, porque a educação não se faz dessa forma. Você entra na educação, num estágio, onde já se sente humilhado, e isso acaba afetando não só a gente, mas também o trabalho que precisa ser feito com essas crianças. A gente está ali na linha de frente e precisa de orientação, compreensão e apoio para saber como agir diante dessas situações”.

A estudante também relata que, após pedir intervenção da Semed, foi chamada para conversar com uma pessoa que se identificou como terapeuta. Segundo Vanessa, durante o atendimento foram feitas perguntas sobre sua vida pessoal e seu tratamento de saúde, incluindo medicamentos utilizados. Ela afirma ter se sentido pressionada a fornecer informações e questiona como dados sobre seu acompanhamento médico teriam sido obtidos.

Escola José Cursino, onde Vanessa estagiava, fica localizada na Folha 10, Nova Marabá

Outro episódio relatado envolve um aluno que Vanessa acompanhava. Ela afirma que o estudante passou a mão em seu corpo e que, ao comunicar o caso à direção, recebeu como orientação que deveria apenas repreendê-lo caso a situação voltasse a ocorrer. Posteriormente, segundo ela, soube que outra estagiária também teria passado por situação semelhante com o mesmo aluno.

Para Vanessa, faltam protocolos para proteger os estagiários durante o acompanhamento de crianças e adolescentes que necessitam de atendimento especializado. Ela diz, ainda, ter ouvido relatos de colegas responsáveis simultaneamente por duas ou três crianças com alto nível de necessidade de suporte. “A gente vai para uma escola onde não é orientada para proteger o nosso corpo e fica vulnerável a situações assim. Ao mesmo tempo, esperam que a gente esteja preparado para acompanhar uma criança que pode ter uma crise, se machucar ou até machucar o estagiário. Não temos formação específica para todas essas situações, não há curso de primeiros socorros e, mesmo assim, somos colocados na linha de frente. O valor da bolsa é simbólico diante da responsabilidade que a gente assume”.

Vanessa também aponta problemas estruturais na escola onde atuou. Segundo ela, o ar-condicionado não consegue amenizar o calor com a sala cheia, levando alunos a utilizarem folhas de livros para se abanar. A estudante afirma que chegou a pedir a liberação do aluno que acompanhava após ele apresentar tremores e suor excessivo.

A estudante afirma ainda que outros estagiários evitam denunciar problemas por medo de perder a bolsa ou serem desligados do programa. Ela defende maior proteção, orientação e acompanhamento para quem atua diretamente com os alunos.

A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Educação (Semed) para esclarecer as denúncias, incluindo o afastamento de Vanessa, os protocolos adotados em situações envolvendo alunos e estagiários, a formação oferecida aos estudantes e as condições estruturais da escola mencionada. Até a publicação desta notícia não houve resposta, mas o espaço permanece aberto para manifestação.